Entrevista

Uma entrevista com Lorena Portela e Letícia Mendes, do site Uma artista por dia

Imagem: Divulgação site Uma artista por dia.

A Arribação traz hoje uma entrevista com as jornalistas Lorena Portela e Letícia Mendes, do site Uma artista por dia. O site é um miniguia de filmes, livros, músicas e artes plásticas de mulheres para conhecer, reconhecer e apoiar. Elas contam um pouco sobre a trajetória, os desafios do site e muito mais.


Quando e como surgiu o site Uma artista por dia?

Lorena Portela: A ideia surgiu em 2018, quando eu e Letícia trabalhamos juntas. Nós estávamos sempre falando de séries, filmes, livros, exibições, sempre dando dicas uma para outra, comentando, fazendo listas de Oscar, etc. Daí eu pensei que como consumíamos muita coisa, poderíamos deixar isso organizado num perfil no Instagram, para compartilhar com mais gente.
Meses depois do Instagram feito, eu resolvi começar o site, com o mesmo perfil, mas outra proposta. Eu queria entrar em contato com algumas dessas mulheres, entrevistar, contar essa história e compilar um material que poderia virar um livro no futuro, embora eu não tenha uma ideia muito definida do formato.

Vocês encontraram dificuldades no inicio do site? Quais?

Lorena Portela: Sim, como todo mundo que tem um projeto editorial independente. Eu fiz o site sozinha, no Wix, entro em contato com as artistas através do Instagram ou contatos em comum. Não tenho nome, não sou famosa, nem influente, nem faço parte de um grande jornal ou revista para facilitar o processo. É tudo sozinha mesmo, com pouco ou nenhum recurso.

Conseguem fazer um balanço de quantas artistas já foram divulgadas pelo site?

Lorena Portela: O site é fruto do Instagram. Levando isso em conta, cerca de 300 até agora.

Geralmente como é o feedback d@s leitores do site?

Lorena Portela: É muito positivo, como tem um perfil muito de “dica”, todo mundo recebe bem.

O UAPD tem perfis no facebook e no Instagram. Já ocorreu alguma situação de alguém fazer comentários machistas em alguma postagem?

Lorena Portela: Machista, objetivamente, não. Já se posicionaram contrários a um post, quando publiquei sobre a Manuela Dávila. Fizeram críticas a Manuela. Claro que essas críticas também são machistas, mas tinham muito mais viés político, de uma visão política contrária à minha. Mas eu já sabia que isso iria acontecer. E aconteceu, tanto nos comentários do Instagram, quanto na página do Facebook, como nas mensagens inbox. Gente que, naturalmente, desconhece o processo e pedia, de uma forma ofensiva, que eu entrevistasse também a Janaína Paschoal e a Joice Hasselmann. Eu acho normal, não me incomoda. Até porque as críticas são muito inconsistentes. É a raiva pela raiva, não tem conteúdo, nem base, nem argumento. Logo, é irrelevante.

Lorena Portela. Foto: Acervo Pessoal.

Como é o processo de seleção das pautas?

Letícia Mendes: As ideias de posts no Instagram vão surgindo conforme o que realmente estamos lendo, escutando, vendo por conta própria no dia a dia. Ainda não somos pautadas por assessorias de imprensa (sintam-se livres para enviarem livros, cds, filmes para nós, rs), mas aceitamos sugestões e estamos abertas a dicas que nossas próprias seguidoras queiram enviar. O objetivo também é tentar dar espaço para quem normalmente não aparece na grande mídia.

O site costuma receber indicações de artistas?

Lorena Portela: Sim, sempre tem alguém mandando o perfil de alguma amiga ou de alguma coisa que gostou e acha que deveria ser publicada ali.

Vocês já receberam algum retorno ou comentário de alguma das artistas indicadas no site? Se sim, quais artistas?

Lorena Portela: Sim, de vez em quando as artistas curtem e comentam, agradecendo. A Ana Cañas, a Djamila Ribeiro, algumas entrevistadas, ilustradoras, pintoras, e, recentemente, a diretora de cinema Isabel Coixet curtiu nosso post sobre um dos seus filmes, rsrsrs… Ficamos super felizes porque somos muito fã dela. É algo pequeno, óbvio, mas ela nos viu, né? rsrsrs…

Qual ou quais das entrevistas realizadas para o UAPD foi a mais marcante?

Lorena Portela: Eu gosto de todas rsrs… Ainda não temos muitas entrevistas publicadas porque estamos muito focadas no Instagram. E como não estamos trabalhando num emprego formal atualmente, nem somos remuneradas para fazer isso, temos que tocar outros projetos, o que dificulta demais o processo de entrar em contato, entrevistar, escrever, publicar. Por isso também o Instagram passou a ser prioridade, porque é mais ágil e podemos cumprir a meta de postar diariamente.

No entanto, se for para citar uma entrevista, eu cito a da Manuela D’ávila, feita três meses depois das eleições presidenciais de 2018, que ela concorreu como vice do Haddad. A Manu não é artista, mas é uma mulher inspiradora, uma liderança, e eu peguei o gancho de ela ter lançado um livro naquele momento. Falamos de política, óbvio, e de maternidade, tema do livro dela. A Manu é uma mulher que sempre tem muito a acrescentar.

Letícia Mendes. Foto: Acervo Pessoal.

Em sua percepção, como o mercado e instituições de arte recebem artistas mulheres?

Letícia Mendes: Na minha percepção, a indústria cultural simplesmente não recebe as mulheres e há progresso seguido de retrocesso, por isso é importante estarmos sempre atentas. Um exemplo que posso dar é o caso da série de ficção que a Globoplay vai produzir sobre a Marielle Franco. A Antonia Pellegrino, criadora do projeto, escolheu o José Padilha (homem branco hétero privilegiado) como diretor, alegando que há riscos envolvidos na realização, por isso não poderia entregar a direção a qualquer pessoa e que o Brasil “não tem uma Ava Duvernay”. Por causa disso, várias cineastas negras protestaram nas redes sociais e a própria Ava Duvernay fez uma live com todas elas, mostrando como o Brasil tem sim mulheres negras diretoras excelentes ( https://www.instagram.com/p/B-qG2OeA6oI/ ). A verdade é que ninguém quer assumir o “risco” de contratar uma mulher negra e dá poder e voz a ela quando é muito mais fácil continuar dando emprego para homens brancos. É uma luta constante.

E como a indústria cultural recebe artistas feministas?

Letícia Mendes: Bom, apesar dos movimentos feministas no Brasil terem ganhado muita força nos últimos anos, ainda acho que são poucas as artistas feministas que conseguem a atenção de um público mais amplo. Acabamos ficando sempre na nossa bolha. Fico muito feliz, por exemplo, com a publicação de mais livros sobre feminismo, como o “Olhares negros: Raça e representação”, obra de 1992 da bell hooks que saiu pela editora Elefante no ano passado, com tradução da Stephanie Borges. É incrível podermos lê-lo em português, mas quem realmente tem acesso a ele, sabe? Ainda há muito trabalho a ser feito.

O machismo interfere na produção artística das mulheres?

Letícia Mendes: Com certeza. O machismo mata e tem que deixar de existir. Por isso, leiam para as crianças e adolescentes coisas como “Sejamos todos feministas”, da Chimamanda Ngozi Adichie.

Lorena Portela: Acho que os homens precisam discutir o machismo e participar das pautas feministas em todas as esferas, tanto quanto as mulheres. Não adianta só as mulheres estarem atentas. O feminismo existe porque os homens são os opressores, logo, eles têm que se questionar o tempo inteiro, participar, se envolver de fato. Eu fico pensando num caso como o que a Letícia citou, da série da Marielle: a Antonia convidou o Padilha, certo? Será que esse homem, por um minuto, se questionou? Será que ele questionou o porquê do convite? Será que se incomodou? Será que sugeriu a participação de diretoras negras, gays ou periféricas no projeto, como co-diretoras? Se não fez nada disso, deveria. É o mínimo.

A arte pode ser o canal de diálogo para questões como violência de gênero?

Letícia Mendes: Acho que a arte nos salva de muita coisa. É clichê dizer isso, eu sei. Mas sempre penso na Elza Soares que, para mim, é a maior artista brasileira de todos os tempos. Infelizmente, ela não é conhecida só pela sua arte, mas por todo tipo de violência e sofrimento que enfrentou na vida (casamento infantil, morte dos filhos, violência doméstica…). Aos 85 anos, ela lançou “Maria da Vila Matilde”, que está no álbum “A Mulher do Fim do Mundo”, e acho que essa música e todo o trabalho da Elza Soares diz tudo sobre violência de gênero.

Durante esse período de quarentena, quais álbuns vocês têm escutado?

Letícia Mendes: Indiquei alguns lá no Instagram, obviamente, mas o álbum que eu não consigo parar de ouvir na quarentena é “Fetch the Bolt Cutters”, da Fiona Apple. Eu não só ouvi o disco como fiquei obcecada por cada faixa e fui pesquisar e ler todas as reportagens que a Fiona Apple deu sobre isso. Maravilhoso demais.

Lorena Portela: Eu estou ouvindo muito o álbum ‘Mangueira, A Menina dos Olhos’, da Bethânia. Também estou viciada no disco da Gal Costa, de 1969, uma pérola. Outro que nunca parei de ouvir desde que foi lançado, em 2015, é o ‘Sound and Color’, do Alabama Shakes. A voz da Britanny Howard é uma coisa fora de série. Ela está fazendo um projeto solo, mas prefiro a versão com a banda.

Quais caminhos vocês pretendem trilhar com o site UAPD?

Lorena Portela: O projeto do site é que ele vire essa coletânea de entrevistas e perfis e renda um livro no futuro. Essa foi a ideia inicial. No entanto, eu não tenho como tocar o site hoje com a frequência que eu gostaria, tendo que fazer outras coisas para ganhar dinheiro. Por conta disso, o Instagram é a prioridade atual, eu e Letícia fazemos o perfil juntas e vem dando muito certo. A nossa ideia é que o perfil seja realmente um guia de arte feita ou encabeçadas por mulheres. Queremos que ele vire uma marca lembrada cada vez que alguém quiser uma dica de livro, filme, série, afins. As pessoas vivem pedindo dicas umas às outras, né? Pois estamos lá para isso, para encurtar esse caminho. E, óbvio, para divulgar o trabalho dessas artistas, que é nossa paixão.

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