Coluna Romero Venâncio

Gilberto Gil. Por duas vezes. Uma nota

Gilberto Gil na Festa Literária de Marechal Deodoro (FLIMAR), em 2019. Foto: Sousandré

Por Romero Venâncio – 26/6/2020

Num dia 26 de junho nascia o baiano Gilberto Gil. Tenho fresco na memória dois momentos em que conheci a música de Gilberto Gil. Em dois momentos diferentes e distantes no tempo.

Como todo garoto pobre de cidade no interior do Nordeste, escutava e gostava musicalmente o que tava a disposição. Não tive formação musical familiar. O que os pais escutavam, escutava eu também. Sem internet, sem televisão até uma certa idade… Só o rádio, alguns discos em vinil e conversas com meninos da mesma idade… O Gilberto Gil que entrou em minha vida na adolescência foi o da televisão, da música numa novela (coisa que mais via na época e gostava!!!). Foi o Gil do álbum “Realce”. Entre 1979 e 1980.

Ouvir aquelas músicas era muito novo para alguém que começava a entrar na adolescência e era um estudante sem nada mais na vida. Me vinha uma imensa caricatura: um Gilberto Gil do Chacrinha, de roupas que pareciam de mulheres, um tanto Hippie, rebolava, dançava, gritava… E muito discoteca e outras misturas que nem detectava no momento. Mas sei que gostava. As vezes (poucas, na verdade) me detinha na letra das músicas.

Por exemplo, não tinha como não notar a maravilhosa: “Superhomem, a canção”. Uma letra bonita, melancólica, a voz melodiosa e a letra. Ela falava do filme “Superman I” que eu tinha visto num cinema de Garanhuns e que me tocou no ato ao escutar a canção. O herói americano salvava sua amada da morte mudando a rotação da terra. Meu deus!!! Alguém viu isto como eu e colocou numa canção… Arrasou. Tudo nessa música era para nos fazer lembrar de uma mulher, de um amor… Mas tinha algo intrigante nela que não entendia, mas sabia que tinha. Essa coisa de “um lado mulher” ou que esse “mundo masculino” não é tudo para um macho. Essa dialética “verão/primavera” que nos habita. sentia assim. Entendia pouco, mas sentia muito. Amei todo o álbum. Quem não amou “toda menina baiana” ou um “sarará miolo”??? e por ai vai… e foi. Não tinha a menor ideia de que tinha um Gilberto Gil antes do “Realce”. Apenas adorei “Realce” todo.

Uma curiosidade da época: algum colega na escola que me viu com o disco, me disse que tinha escutado uma “história” de G. Gil com maconha. Disse que leu numa revista. Pensei, só pode ser fofoca. Imaginem se comentasse em casa que escutava um cantor que usava maconha!!! o mundo caia e o pau cantava… Mas saibam que como sempre e até hoje, Deus escreve certo por linhas tortas. E nesse assunto, fico por aqui.

O segundo Gilberto Gil que entrou em minha vida. Já era anos 90. Morava numa capital, curso superior em teologia e filosofia, animado com a cultura petista e procurando mergulhar nos anos 60 e 70. Correr atrás das histórias perdidas e não sabidas… Já sabia da trajetória de Gilberto Gil toda até aquele momento dos anos 90. Havia lido o “Gilberto Gil: literatura comentada” e alguns textos do Luiz Tatit e do José Ramos Tinhorão (já tava com aquele peito marxista que me acompanha até hoje).

Descubro um Gil que combateu a seu modo a ditadura, andou por Caruaru atrás da cultura popular, foi sanfoneiro, tropicalista de primeira hora, exilado em Londres, a volta ao Brasil e os “doces bárbaros” e que “Realce” era um ponto alto de sua carreira e de sua popularização nacional e internacional. Descubro um Gil filósofo, pensador, sutilmente amoroso e irônico. Um cantor sempre contemporâneo de seu tempo.

Por fim e até hoje, nos anos 90 me brotou um Gilberto Gil “mais profundo” em termos de “espiritualidade”. Esse tema me interessa desde muito e me marca. Aprendi na educação pela pedra que é esta vida que não podemos pular a própria sombra (e para um bom entendedor, basta isto!!!). Aquela “coisinha” que vinha lá de 1979: “…que Deus entendeu de dar a primazia”. Percebo (agora fala o homem feito e trabalhador da educação) e cada vez mais cristalina o quanto essa espiritualidade transpassa como um fio condutor a obra de Gil. É público e notório sua relação com o candomblé, sua ancestralidade de raiz, sua alegria com os orixás e sua cultura africana impregnada e disseminada. Tá em muitas e muitas de suas composições.

Talvez seja Gilberto Gil o cantor brasileiro que mais valorizou o candomblé e o tirou de sua marginalidade imposta por um cristianismo hegemônico, ciumento e intolerante. Talvez seja ele que faz isto. Não sei. Nunca estudei a fundo isto. Mas desconfio do assunto. Mas quero ir mais longe nesse tema. Há um Gilberto Gil que, sem perder suas raízes ancestrais (ou por elas!!!), vai fundo numa “espiritualidade cósmica”. Mística de um tempo rei:

“Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos…”

ou ainda:

“Porque mistério sempre há de pintar por aí”

ou ainda mais longe:

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar, vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.”

Não falo aqui de um Gil apenas da “maturidade”. Mas de um Gilberto Gil que se preparou para esta maturidade e que sabe o que sempre soube onde vamos chegar nesse caminho que é a vida. Viva Gilberto Gil.

***

Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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