Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Ashanti Anderson // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Poetry Fundation

Ashanti Anderson é poeta e roteirista. Ela é mestra em Belas Artes pela Universidade da California, Riverside. Mais do trabalho dela pode ser encontrado em Psychology of Music, World Literature Today, Poetry, Crab Fat Magazine, Foothill, entre outras mídias digitais e impressas.


Self-Portrait as Kendrick Lamar, Laughing to the Bank

This, what God feels like: laughing
alone in an empty room of tiny doors,
behind every door a metal box, inside each
a man’s red heart, lying. I don’t write
of the cartoonish thing split and jagged
at its insides. Instead, of how I break
even across the same backs spindled by hate.
I tell God I understand and what I mean is
I’ve noticed good people must die to let
there be light in my house. We share a likeness,
God and I, both laughing like something
green folded in our throats. Laughing mean-
while somebody’s auntie asks for Anything
Helps. Laughing when people say they don’t
want to read about the bad stuff. Crying
laughing as we pass our pain off as an offering
plate. Sometimes I nervous chuckle, knowing
trauma pays, but the only time I really laugh
is when I’m laughing to the bank like a-ha.

Autorretrato como Kendrick Lamar, Rindo para o Banco

Aqui, assim que Deus se sente: rindo
sozinho em uma sala vazia de portas minúsculas,
atrás de cada porta uma caixa de metal, dentro de cada
um coração vermelho de homem, estirado. Não é sobre
essa coisa caricatural rachada e farpada dentro
que eu escrevo. Mas sim, sobre como estrala
nas minhas a dor das mesmas costas espetadas pelo ódio.
Eu digo a Deus que compreendo e o que quero dizer é
eu fiquei sabendo que gente boa deve morrer para
que haja luz na minha casa. Nós somos parecidos,
Deus e eu, os dois rindo como se uma coisa
verde envolvesse nossas gargantas. Rindo entre-
tempo em que a tia de alguém clama ajuda de Quem
Seja. Rindo quando as pessoas dizem que não
querem ler sobre as coisas ruins. Chorando
rindo enquanto passamos nossa dor como um pote
pro dízimo. Às vezes dou uma gargalhada nervosa, sei
que o trauma compensa, mas a única hora que eu rio mesmo
é quando eu estou rindo para o banco tipo a-ha.

§

Ode to Black Skin

You are dark as religion. Remember God
could not have named a modicum of light without you.
You are plum, black currant, passion
fruit in another woman’s garden. You are Black
as and as if by magic. Black not as sin, but a cave’s jaw
clamped shut by forgiveness. Color of closed wombs and bellies
of ships, you, dark as not the tree trunk but its every cleft.
I chart each crescent moon rising above fingernail
and rub together my thighs for want of you. I try
to find you where the pages of books meet. You hang
where men or piano keys segregate. When I miss you,
I remember the hickey the sun left on the back of my neck.
If I forget, I smoke blunts down to my fingertips
and beg you to come on my lips. This is how I pray for you
when I’m not pessimistic. I bow to your darkness like I kneel
beside a child’s bed, confessing as gospel, there’s no monster here.

Ode à Pele Negra

Você é tão escura quanto religião. Lembre que Deus
não teria nomeado sequer um ínfimo ponto de luz sem você.
Você é ameixa, groselha negra, flor-
paixão no jardim de outra mulher. Você é Negra
sim e como por magia. Negra não como pecado, mas a mandíbula
de uma gruta lacrada pelo perdão. Cor de ventres fechados e porões
de navios, você, escura não como o tronco mas cada fissura dele.
Eu mapeio cada lua crescente na ponta das unhas
e esfrego junto minhas coxas na sua falta. Eu tento
te achar onde as páginas dos livros se encontram. Você pende
onde homens ou teclas de piano segregam. Quando sinto sua falta,
eu lembro do chupão que o sol deixou na parte de trás do meu pescoço.
Se eu esqueço, dou um trago no blunt nos meus dedos
e te peço que venha nos meus lábios. É assim que eu rezo para você
quando não estou pessimista. Me curvo à sua escuridão como me ajoelho
ao pé da cama de uma criança, citando como evangelho, não tem monstro aqui.

*

Notas do Tradutor:
*os poemas estão na “POETRY Magazine”, edições de junho/2020 e abril/2019, respectivamente.
**meu agradecimento à poeta Mariana Godoy, que me apresentou essa autora.

***

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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