Alpendre Conto poesia

Transa de Céu e Vitupério, de Camila Passatuto

Foto: Reprodução / Pexels

Transa de Céu

Estatelada no topo. O cheiro e o som da respiração tediosa no embalo da iluminação azulada que as noites insistem em parir sobre tramas sem a menor importância para a evolução da raça humana.

Ela. Ela tinha muita coisa entre suas camadas de mulher, seus olhos possuíam a capacidade de suportar qualquer realidade e, no tremular das pálpebras, não desviava, ou fechava, o observar – um tanto denegado – nem por um milésimo de segundo.

Ali, no topo do prédio, na paz burlada, ela encarava o universo caliginoso, e abaixo do que era, de suas ideias e tramitações sentimentais, uma cidade massante e repleta de clichês urbanos acontecia sem nenhum propósito.

As pessoas sempre barulhentas. Com caprichos escandalosos, com desejos a ensurdecer deuses, com as meias suadas e cabelos oleosos. Os bandos a caminhar raivosos pelas ruas. Bandos de assalariados, bandos de ternos, bandos de coxinhas, bandos de sonhadores, bandos barulhentos. Sons que nada proclamam ou libertam. Em conjunto, mesmo com esforço, ninguém se escuta. Cada um fala para os próprios ouvidos, enquanto o resto finge importar e entender o egoísmo do discurso exalado pelo animal da vez.

Estatelada no topo. Sozinha. Seu som e seu cheiro. E isso já se tornava abusivo, sua ambição era deixar de sentir ou perceber. Impossível. Era jorro de sangue. De vermelho. Essa cor de dentro. E mundo adentrava, enrubescia-lhe, e tomava seu peito como morada eterna. Era jorro de sangue o seu existir, era esse expor de tripas para o mundo.

E ninguém ligava. 

*

Poema: Vitupério

Quero ver você
não cruzar os braços
no front ocidental
a fim de defender o tórax

de um pouso forçado
de qualquer pássaro
atacado.

Quero ver você

animal
de meia branca

a não roncar as tripas
e beber urina
quando a morte
deserta baixo.

Jura?

Animal
mimado.

Esquema de lados
simétricos, és atacante,
nos pitacos subtis.

Matutina, vai!
Diz-se selvagem,
não é?

Quero ver você
não correr
da fome da leoa

mulher a desejar
teus braços
e baço.

Animal
meão,

no bote que sirvo,
se és a caça da vez,
corre pro disque-milico

acode a própria lia

– surge sem planear.

Quero ver você

ser mais que
um verso parvo
na estrofe seguinte,

mané.

***

.

Camila Passatuto (1988) é autora dos livros “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Editora Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na função supressora” (Editora Penalux, 2018), este último finalista no gênero Contos do Prêmio Jabuti 2019.

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