Entrevista

Uma entrevista com Rubens da Cunha

Por Camillo César Alvarenga – 22/6/2020

[a primeira parte da entrevista foi realizada antes da Pandemia e as últimas três perguntas foram respondidas em Junho de 2020].

Camillo César Alvarenga – Como começou a sua carreira e qual atividade mais lhe satisfaz: o magistério ou a poesia? E como você relaciona academia e a criação literária?

Rubens da Cunha – Eu me tornei escritor antes de ser professor. Profissionalmente atuei muito tempo na iniciativa privada, foi só depois dos 30 anos que fui direcionando minha vida pra docência. Atualmente, não faço muita diferença entre um e outro: escrevo e ensino literatura com a mesma paixão o mesmo desejo. Eu não fui fazer uma licenciatura em letras e depois um mestrado e doutorado em literatura para melhorar minha criação literária. Parecem-me coisas diferentes que, às vezes, podem se tocar. O mundo acadêmico é, obviamente, mais preso, mais “técnico”, além disso, ele precisa sempre do literário. Nesse sentido sou partidário de Barthes, quando ela diz que a crítica é apenas uma metalinguagem e que a tarefa do crítico, do estudioso não é descobrir verdades, mas somente validades, ou seja, “o crítico é um escritor, mas um escritor em liberdade condicional”. O contrário não acontece. Escritores escrevem, produzem, largam seus livros no mundo e cabe à academia olhar, perceber, selecionar, estudar essa produção. É uma relação complexa, que tem muitos problemas nessas ‘validades’: a formação do cânone, as escolhas perpassadas pelo racismo, pelo machismo, pelo classismo. Ainda há uma forte distinção de alta e baixa literatura. No entanto, é algo que vem sendo alterado nas últimas décadas, justamente por causa dos novos estudos, das novas perspectivas teóricas que vão mexer nessas estruturas. Escrita é escrita, se submete a um gênero específico e pode, dependendo do autor, romper algumas fronteiras, misturar as categorias. No campo dos estudos literários, isso é mais comum, pois há teses e dissertações bastante ensaísticas, bastante inovadoras na forma. Nos outros campos de conhecimento a separação entre os discursos é mais evidente: discurso e forma científica de um lado, discurso e forma artística e criativa de outro.

De Santa Catarina como você veio parar no interior da Bahia e há quanto tempo você vive no recôncavo? Como pesquisador e poeta, qual o seu breve panorama histórico e atual da poesia baiana?

Rubens da Cunha – Eu defendi a tese no começo de 2015. A partir daí eu me tornei o caçador do concurso perdido. Fiz concurso em vários estados e aconteceu de ser aprovado na UFRB. Eu nunca tinha vindo pro Nordeste. A primeira cidade que conheci aqui foi Cruz das Almas, pois passei uma semana lá, fazendo provas, esperando o resultado. A princípio seria em Cruz que eu trabalharia, mas entre a aprovação e a minha posse houve mudanças e eu fui designado para trabalhar em Santo Amaro. Então, quando me mudei, resolvi morar em São Félix/Cachoeira e trabalhar em Santo Amaro. Vivi lá 2 anos. Foi um período de adaptação, entendimento, de se perceber dentro do Recôncavo com seus encantos, mistérios, contradições. Depois, resolvi vir pra Salvador e comecei tudo de novo: a adaptação, o entendimento, o mistério, as contradições. De qualquer, esse território me deu outra dimensão pessoal, abriu meu campo profissional, mas também me ampliou como pessoa. Em relação à poesia, eu tinha pouco conhecimento da poesia baiana. Lia os nomes nacionalizados e canônicos, mas pouco sabia da poesia contemporânea. Foi aqui que passei a ter um contato maior com autores e autoras bem importantes e provocadores.

Pensando diacrônica e sincronicamente desde Gregório de Matos, Pedro Kilkerry, Castro Alves, até a modernidade e, principalmente, no contemporâneo, é possível precisar uma sucessão de movimentos ou gerações poéticas ou há uma tendência por nomes individuais de obras e autores e autoras na poesia baiana?

Rubens da Cunha – Bom, Gregório, Kilkerry, Castro Alves são os nomes canônicos a que me referia acima e que, por conta da minha formação em letras e dos meus interesses em leitura de poesia, chegaram a mim, pois são nomes nacionalizados. Acho que quando se pensa a poesia contemporânea de fora do eixo Rio / São Paulo é preciso levar em conta algumas questões entre elas a diversidade de temáticas e linguagens. Com todos os adventos de vanguarda, de rupturas, de contestações do século XX e XXI, não acho que seja mais possível pensar a poesia a partir de gerações ou movimentos. Há de um tudo: encontra-se excelentes poetas formais, informais, coloquiais, realistas, surrealistas, populares, eruditos, acadêmicos, periféricos. Minha experiência de estudo e de leitura é formada e formatada pela região sul. Então, eu conheço bem melhor poetas que vivem aquela geografia, aquela cultura, entendo suas lógicas e suas linguagens, até porque eu sou (era?) um deles. Quando vim para a Bahia, eu entrei em contato com uma poética diversa, atenta a outras questões, imbuída em outro vocabulário. Toda a temática e vocabulário afro-brasileiro, por exemplo, é algo bastante forte na poesia contemporânea da Bahia e é algo que eu estou lidando/aprendendo desde que vim pra cá. Assim como todo o mundo sertanejo, as aproximações com a literatura de cordel, o clima, as questões sociais e econômicas, o humor. Então, diante da minha experiência mais regionalizada, eu percebo que há uma diversidade de linguagens e formas e há uma individualização dos poetas.

O que você pensa sobre o que poderíamos chamar de ‘diáspora baiana’ com tantos poetas baianos de qualidade vivendo fora do estado e do país?

Rubens da Cunha – Não sei se poderíamos falar em “diáspora baiana”, porque percebo que esse movimento migratório é comum a muitos que nasceram fora do eixo Rio/São Paulo. A vida nos leva por caminhos insuspeitos e esses caminhos nem sempre são impostos pela literatura, mas por outros aspectos. Eu mesmo saí da cena cultural/literária catarinense pra vir trabalhar na Bahia. Imagino que cada um desses poetas citados tenha vários e diferentes motivos para ir morar em outro lugar. Mas de qualquer forma, apesar da mudança, nenhum de nós deixa de pertencer ao lugar em que nascemos e crescemos. Drummond, por exemplo, pode ser lido como um poeta mineiro, mesmo vivendo boa parte de sua vida no Rio de Janeiro. Esse lugar, esse território é constitutivo do que somos enquanto poeta, então, penso que não há como abandoná-lo ou esquecê-lo inteiramente.

Comente sobre seu projeto de pesquisa junto a Universidade Federal do Recôncavo da bahia e em que pé estão seus trabalhos e investigações? Há outros pesquisadores ou pesquisadoras atuando junto com você?

Rubens da Cunha – Eu trabalho no Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas – CECULT, em Santo Amaro. É um centro dedicado aos estudos da cultura que iniciou com um bacharelado interdisciplinar em cultura e agora conta com uma licenciatura interdisciplinar em artes, outra em música, além dos cursos de produção musical, artes do espetáculo, e gestão cultural. Como se trata de um centro interdisciplinar com foco na produção artística regional, percebi que não havia pesquisa sobre os escritores contemporâneos do Recôncavo. Então elaborei o projeto de pesquisa Mapeamento e Estudos Críticos das Literaturas do Recôncavo da Bahia. Desde o começo o projeto contou com bolsistas PIBIC e a colaboração de outros professores do Centro. Mapeamos diversos autores e realizamos estudos críticos sobre: Jacinta Passos, Deisiane Barbosa, Jorge Portugal, Valdir do Carmo, Fred Sousa Castro, João Moraes Filho, Herculano Neto, Ribeiro Pedreira, Aidil Araújo Lima, Lita Passos, Tatah Café e Camillo Cesar Alvarenga. Além disso, levamos as obras desses autores e autoras para a sala de aula, cursos de extensão, eventos e saraus que acontecem na UFRB e em Santo Amaro. Também trouxemos as escritoras Deisiane Barbosa, Aidil Araújo Lima e Tatah Café para uma mesa redonda no Forum XX de Novembro. O projeto irá até agosto de 2020, quando encerraremos essa fase. Pretendo continuar estudando literatura do Recôncavo, mas como parte de um movimento que pesquisarei futuramente: a publicação independente, a feitura do próprio livro, as novas formas de edição e projetos gráficos.

Sobre esse ponto de vista você faria algum destaque, algum autor ou autora ou algum movimento que deveria ter mais atenção da crítica ou do público?

Rubens da Cunha – Bom, acho que Fred Sousa Castro precisaria uma reedição de suas obras e mereceria estudos críticos mais aprofundados. Ele foi um poeta e prosador muito potente, elaborado e que conseguiu expor alguns aspectos culturais, políticos, poéticos do Recôncavo, sobretudo Santo Amaro, com muita força e originalidade.
Dos mais jovens, acho que Deisiane Barbosa e suas entradas na performance, na dança, nas artes visuais é um nome que devemos ir prestando atenção, pois sua curta obra já apresenta a potência bastante reveladora do nosso tempo.
Gosto também do que as idealizadoras da Cartonera das Iaiá estão fazendo. É um projeto editorial, literário e político que merece toda a atenção da crítica e do público.

Desde Curral (2015) para seu próximo livro distam 5 anos. O que mudou em sua poesia e a aprendizagem poética nesse período?

Rubens da Cunha – Como eu disse anteriormente, ocorreu essa mudança para Bahia e com ela toda uma alteração cultural, geográfica, climática, estética. Eu passei a escrever num lugar muito mais azul, quente, com menos chuva. A minha poética foi toda marcada por neblinas, frios, chuvas contínuas, dias cinzas, um verão mais curto, uma inconstância climática característica da região sul. Havia uma melancolia intrínseca nisso tudo. Ao vir pra Bahia, a melancolia deu uma secada, uma iluminada debaixo de tanto azul. Então, eu tive que me adaptar a isso também, tive que me perceber um escritor forjado numa geografia tendo que escrever em outra bem diferente. Talvez, não tenha havido uma mudança muito grande na minha linguagem, mas houve uma ampliação do vocabulário, uma alteração na temática causada, sobretudo, pelo impacto cultural e geográfico que eu senti. Meu livro A guardadora da ponte e outra biografias inventadas é fruto desse processo de mudança, adaptação e começo da sedimentação nesse outro lugar.

Como surgiu o convite para publicar pela Andarilha Edições e o que você pode nos dizer sobre o processo de criação e produção desse novo livro?

Rubens da Cunha – Eu mudei no final de 2015, comecei a trabalhar na UFRB, morei 2 anos em São Félix, me mudei pra Salvador, comecei a ministrar oficina de escrita criativa, iniciei o projeto de pesquisa sobre a literatura do Recôncavo, no meio disso tudo eu inseri a minha escrita literária. Então, a criação desse novo livro foi assim entre todas as outras coisas que eu também estava criando. Durante 10 anos eu fui cronista semanal de um importante jornal catarinense. Quando eu vim pra Bahia, eu parei de escrever crônicas, então resolvi usar as técnicas de cronista: observação atenta, olhar coisas desapercebidas, inventar ou reinventar o visto, indo além da descrição. A partir dessa premissa eu criei os textos de A guardadora da Ponte…. No meio disso tudo, eu tive contato com o trabalho poético/artístico de Deisiane Barbosa. Entre tantos outros talentos, a Deisiane tem isso de fazer/costurar o próprio livro. Eu acho fascinante, é de uma autonomia, de uma independência muito grande. Aí ela abriu a Andarilha Edições e eu percebi que a proposta da editora ia muito ao encontro da minha vontade de fazer publicações independentes, menores, mais artísticas, com menos exemplares. Assim, essa parceria está nascendo e o livro está no prelo, que, nesse caso, são as mãos de Deisiane Barbosa.

Camillo César Alvarenga – Com esse cenário de pandemia, qual o significado da poesia para os dias atuais? E como essa circunstância atravessa o mercado e a produção literária?

Rubens da Cunha – Posso recorrer aqui a inúmeros poetas e filósofos que pensaram o significado da poesia: seja como a ideia de que precisamos para repensar a Ideia, de Hilda Hilst; como clareira na linguagem que é vizinha pensamento, de Heidegger, como substância rebelde a definições de Octávio Paz, como ferramenta para ampliar o imaginário do mundo, de Édouard Glissant, como escrevivência, de Conceição Evaristo. Enfim, a poesia como a Louca da Casa, a que diz mesmo que não lhe prestem atenção. A que fala e fala porque é o que lhe cabe. Isso não mudou em nada por causa da pandemia. A poesia ainda é essa arte que está aí expondo as mazelas, as alegrias, as profundidades, fugas, isolamentos, chegadas e partidas dos humanos, mesmo que não lhe deem atenção merecida. Por outro lado, a pandemia está instaurando um mundo muito complexo, desordenado nas nossas vidas, porém, de certa maneira, escrever é uma arte que demanda bem pouco para sua produção: uma tela de word em branco, um papel, uma caneta, ou seja, a produção da escrita acho que não será afetada pela pandemia, isso em comparação com outras artes que demandam mais gente, mais tecnologia e que demandam a presença, como é o caso do teatro, por exemplo. Talvez o que seja mais afetado é justamente a concentração, a necessidade de experiência, de olhar externo, de vaguear por aí em busca de acontecimentos. Acho que cada poeta vai ter que encontrar seus meios de se expressar, de expor em escrita essa experiência de isolamento, de medo, de enfrentamentos diversos que estamos vivendo. Muitos poetas já estão fazendo, ora optando pelos diários, ora fazendo poemas. Há muita leitura de poemas também. Não sei se o mercado editorial será tão afetado, pois a leitura é uma ferramenta bastante interessante de se aguentar o isolamento. Com isso, pode se abrir uma perspectiva para os autores e autoras. Mas isso tudo é uma suposição, uma visão entre a ingenuidade e a esperança. Neste momento em que escrevo, 17/06, ainda estamos muito dentro do túnel.

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Camillo Cesar Alvarenga é pai, poeta, músico e filósofo africano guajajara-nagô.

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