Alpendre

Três poemas de Rubens da Cunha

Curadoria de Camillo Cesar Alvarenga – 22/6/2020

1

no Recôncavo
a tarde

– ao se despedir –

não desaponta
quando

– sem pensar –

passa pênsil
sobre a ponte

Há uma mulher que cuida da cabeceira da Imperial Ponte Dom Pedro II.

Seu corpo arqueado, o queixo quase sempre grudado ao peito, o olhar de baixo para cima e o cenho franzido disfarçam os conluios que esta cuidadora tem com o Rio Paraguaçu.

Em noites desestreladas, ela mergulha na salobridade do rio. Passa horas entre pititingas, camarões e siris. Atravessa-se na poluição oleosa e fecal das águas.

Sabe de peixes e de crustáceos tanto quanto sabe dos restos de homens e mulheres que habitam às margens.

A cada um de nós, ela desvela com seu olhar salobre
e a loucura de quem pode guardar pontes
sem nunca ter que atravessá-las.

2

nos pés

o ritmo
do pescar
amaro

o peso
do se saber
percurso

o preço
de sangrar

a sola
a carne
o osso

o cerne

No balaio, caranguejos barulham-se em desespero.

Elza oferece aos passageiros e funcionários da rodoviária de Santo Amaro. Ignora a placa avisando que não é permitido comércio no local.

A atendente da Viação Santana compra uma dúzia.

Elza retira os caranguejos do balaio. Um deles, mais vivo, arranca-lhe a carne do dedo.

Ela reclama, ri e entende.
Devolve o caranguejo ao balaio.

Vai esperar que o bicho amanse antes de morrer.

3

o rio Subaé é um palco tenro
com restos e rastos do mundo

são margens espraiadas nos avessos
feira e chumbo ao vento
carnavais e canaviais
feitos em doçuras dançantes
em contornos e entornos
de carne e sombra

o rio Subaé é um corte aberto
nesses azuis puros demais

É manhã.

Pedro tem as pernas,
a pélvis,
a cintura
afundadas no rio.

Ele pouco sabe das cinzafezes que escorrem ali.
Pouco faz nojo o lodo margeando seus baixos.

Tarrafeia.

A tarrafa afunda. Pedro arrasta-a para si. Ela vem prenhe de peixes.

A fé na pescaria nunca trai um homem que tarrafeia
como quem desenha círculos límpidos em água imunda.

*

Os poemas estão no livro A guardadora da ponte e outras biografias inventadas.

***

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Rubens da Cunha é poeta, cronista e docente da Universidade do Recôncavo da Bahia – UFRB. Doutor em Literatura na UFSC, com tese sobre a obra teatral de Hilda Hilst. Atua também como crítico teatral. Com Marco Vasques, é editor do Jornal Brasileiro de Teatro Caixa de Ponto (http://caixadeponto.wix.com/site). Possui sete livros publicados: Campo Avesso, (2001); Casa de Paragens (2004); Aço e Nada (2007); Vertebrais (2008), Crônica de gatos (2010), Curral (2015),Breves exercícios para fugitivos (2015) e no prelo: A guardadora da ponte e outras biografias inventadas (Andarilha Edições, da poeta baiana Deisiane Barbosa).

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