Colaboradores Glória Damasceno

O desassossego de Pedro – um garoto contador de histórias

(Arquivo Pessoal)

Pedro Neres Guimarães (8) tinha entre 4 e 5 anos de idade quando começou a ler, hábito este estimulado especialmente pela mãe, Vilmaria Costa Neres (39), desde as primeiras sílabas do menino, que como todo homem, um dia foi bebê a tatear os fonemas em busca de recompensas. Dentre outros personagens do dia a dia, como a escola, Pedro conta com o incentivo de duas tias, a “Biluca” (por onde constantemente aventuras literárias desembarcam nas mãos do garoto), e a poetisa Kalil, que certa vez — numa dessas noites de autógrafo — o convidou para declamar uma das poesias dela. Ele não pode fazê-lo no lançamento da obra por contratempo da vida, mas noutro momento assim o fez, sem sequer dar uma pescada no papel. Memorizou tudo! Os versos estavam na ponta da língua!

Poeta também era Ititica Moreira — um dos personagens das histórias que Pedro aos oito anos tem escrito. Ititica era brasileiro, nasceu em 1937 “com o olho grudado na poesia” e seu grande sonho era abrir uma “loja”, claro, de poemas, e por aí a se apaixonar ao longo de quase dois minutos e meio de um vídeo em que o Pedro conta a trama que ele próprio imaginou, e escreveu — muito seguro em sua fala dando uma ou outra explicação de suas escolhas narrativas.

O pequeno leitor vive entre finais de semana na fazenda da família, em Passagem Franca, interior do Maranhão, e dias úteis no Instituto Dom Barreto, onde ele estuda lá em Teresina, capital do Piauí. Apesar dessa vocação para as letras, quando indagado se gostaria de escrever livros quando gente adulta, Pedro surpreende: quer se tornar jogador de futebol. Aliás, foi a partir do interesse por esse esporte que o pai orgulhoso, Joaquim Carvalho Guimarães (58), despertou para a singularidade do filho. “A mãe tinha dado a ele — à época com seis anos de idade — o álbum de figurinhas na última Copa, em 2018. Numa dessas idas à Teresina, ele me falou o nome dos 32 países (participantes do evento) guiando-se apenas pelas bandeirinhas”, conta Joaquim abismado. Curioso, por tudo se interessa, e para tudo sempre está disposto, atento; a tudo nomeia, se por acaso nome ainda não tiver. Conhece o atlas do mundo de um hemisfério ao outro. A capacidade de memorizar as coisas de uma maneira extraordinária vem dos tempos em que não sabia ler ainda, mas tomava por referência as ilustrações das histórias. Era capaz de contar o que estava dito ali, naquela página, pelo que via. Atualmente está lendo o Sítio do Picapau Amarelo — obra de Monteiro Lobato, e tem como leitura predileta “Os homens que mudaram o mundo”, e os cita, tais como: Albert Einstein, Santos Drummond, Isaac Newton, Sebastião Salgado, Spinoza. “Ele vive o tempo dele, brinca com a molecada, mas quando está entre adultos, ele cresce”, observa Joaquim.

Pergunto ao Pedro qual é a importância da leitura para ele. Sem titubear, e como bom assimilador que é, diz: “quando você lê, além de você se inspirar, você inspira os outros, porque daquele assunto, você vai fazer outro assunto e é assim que todo mundo aprende”. Anteriormente eu tinha perguntado quem eram as inspirações das histórias que ele se propõe a escrever. Ele não sabia ou não lembrava o que era inspiração, mas pelo dito, aprendeu rapidinho!

“Quando você compartilha o que você aprendeu, você muda o mundo, tia!”.

Então nos despedimos de uma chamada de vídeo — esse jeito que a inteligência humana encontrou de encurtar as distâncias, os distanciamentos sociais em tempos de pandemia; esse jeito que o Pedro me ensinou a renovar as esperanças.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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