Colaboradores Ellen Maria Vasconcellos

Desde que eu tenho memória, de Shirley Campbell Barr // Tradução de Ellen Maria Vasconcellos

Shirley Campbell Barr é descendente de jamaicanos, e nasceu em 1965, na Costa Rica. Estudou Dramaturgia, Literatura e Criação Literária. Trabalhou em programas culturais e sociais como professora em diversos países da América Central. É antropóloga especializada em feminismo africano. É ativista no movimento afrodescendente da América Latina. Tem seus poemas e artigos publicados em diversas revistas, antologias e jornais. Seu livro Rotundamente Negra y otros poemas, originalmente escrito em espanhol, já foi traduzido a muitos idiomas. Também lançou os livros Naciendo (1988) e Desde el principio fue la mezcla (2007).


Desde que tengo memoria

Llevo mi libertad conmigo, y si, la libertad es una puerta,
es una pesada puerta y también la memoria es una puerta, una pesada puerta
.
Eduardo Galeano

Escribo desde que tengo memoria.
Hablo de la memoria
y escribo para no perder la memoria.
Escribo aun antes de la memoria.
Escribo para liberar los fantasmas y
ayudar a descansar los muertos
presentes.

Escribo aun antes de las palabras escritas y de los versos con formas.
Empecé a escribir desde el vientre de mi madre, o aun antes.
Los recuerdos son difusos. Casi irreconocibles.
Mas llegan por oleadas,
en confusas y borrosas imágenes.

Me recuerdo escribiendo formas en negro, en antepasados descalzos,
en mujeres de colores brillantes y fuertes.
Escribía entonces, palabras sin palabras,
significados imprecisos pero llenos de dolor.
Escribo mucho antes de la palabra hablada y mucho antes de la escrita.

Escribo desde que tengo memoria, o aun antes de la memoria.
Empecé a escribir con los ojos
y los recuerdos
y los mensajes escritos vientre adentro
mucho más adentro.

Escribo desde hace cientos de años,
desde el tiempo en que mi abuela más antigua
contaba historias en una aldea lejana
en algún lejano pueblo
de mi lejana África.

Fui yo, quien con las manos de otros
escribí las primeras crónicas que entonces no fueron llamadas de historia.
Fui yo, quien con las memorias de otros y con tinta negra en manos negras
escribí las historias, sin palabras y sin libros
de las más grandes civilizaciones.

Hablé de civilizaciones oscuras y brillantes
que se paseaban por la África de mis antepasados
y atravesaban el mundo dejando su huella impresa
y escribiendo sin lápices y sin tinta alguna
sus propias historias.

Las historias de la África de mis antepasados
describiendo sus vidas mucho antes de ser descubiertos.
Escribí discursos de reinas altas y sabios reyes
que gobernaban con bondad y justicia.
Escribí cuando mis manos aun no tenían manos.

Fui yo quien conté las crónicas de la captura, de la tortura y del viaje.
Conté y del sufrimiento y de los hijos y las hijas que fueron quedando en el
camino.
A mí me toco hablar de la rebeldía, y de la libertad y sobre todo de la
verdad.
Yo conté las fábulas y las historias verdaderas
que nunca fueron colocados en los libros.

Hoy sigo relatando las verdades que tengo amontonadas en la espalda
y sigo reportando de rebeliones y de pobreza.
Hoy continúo hablando de las virtudes
y del amor profundo que nos vive y se nos impregno en la piel y por el cual
estamos vivos.

Hoy respondo en maldiciones y en poesía y en palabras verdaderas.
hoy sigo escribiendo en los arboles
y en las paredes y en la arena
y en la mente de los hijos
y en el alma de las mujeres y en la piel de todos.
Continúo contando sobre pueblos enteros que celebran y cantan y son
desplazados y son muertos y están vivos
Y siguen muriendo y despertando impávidos todos los días.

Por eso escribo, porque la memoria a veces me falla, y la historia me falla y
mi abuela que murió ya hace cientos de años no deja de cobrarme mi parte
del trato.
Escribo porque escribir es la mejor forma que conozco
para no morirme
es la única forma que conozco
para seguir viviendo
junto al resto de mis muertos.

*

Desde que eu tenho memória

Levo minha liberdade comigo, e sim, a liberdade é uma porta,
É uma porta pesada e também a memória é uma porta, uma porta pesada
.
Eduardo Galeano

Escrevo desde que eu tenho memória.
Falo da memória
e escrevo para não perder a memória.
Escrevo ainda antes da memória.
Escrevo para libertar os fantasmas e
ajudar os mortos presentes
a que descansem.

Escrevo ainda antes das palavras escritas e dos versos com formas.
Comecei a escrever desde o ventre de minha mãe, ou mesmo antes.
As lembranças são difusas. Quase irreconhecíveis.
Mas me chegam em ondas,
em imagens borradas e confusas.

Me lembro de escrever formas em preto, nos antepassados descalços,
em mulheres de cores fortes e brilhantes.
Escrevia, naquele tempo, palavras sem palavras,
significados imprecisos, mas infestados de dor.
Escrevo muito antes da palavra falada e muitos antes da escrita.

Escrevo desde que eu tenho memória, ou ainda antes da memória.
Comecei a escrever com os olhos
e as lembranças
e as mensagens grafadas ventre adentro
muito mais adentro.

Escrevo há centenas de anos,
desde o tempo em que minha avó mais antiga
contava histórias de uma aldeia longínqua
em algum povoado longínquo
da minha longínqua África.
Fui eu, quem, com as mãos de outros
escreveu as primeiras crônicas que então não foram chamadas de história.

Fui eu, quem, com as memórias de outros e com a tinta preta em mãos pretas
escreveu as histórias, sem palavras e sem livros
das maiores civilizações.
Falei das civilizações escuras e brilhantes
que passeavam pela África de meus antepassados
e atravessavam o mundo deixando sua pegada impressa
e escrevendo sem lápis e sem tinta alguma
suas histórias próprias.
As histórias da África de meus antepassados
descreviam suas vidas muito antes de serem descobertos.
Escrevi discursos de rainhas altas e reis sábios
que governavam com bondade e justiça.
Escrevi quando minhas mãos ainda não existiam.
Fui eu quem contou as crônicas da captura, da tortura e da viagem.
Contei do sofrimento e dos filhos e das filhas que foram ficando pelo caminho.
A mim coube falar da rebeldia e da liberdade e, sobretudo, da verdade.
Eu que contei das fábulas e das histórias verdadeiras
que nunca foram narradas nos livros.

Hoje sigo revelando as verdades que tenho amontoadas nas costas
e transmitindo rebeliões e pobrezas.
Hoje continuo a promover as virtudes
e o amor profundo que vive em nós e nos impregnou a pele pela qual
estamos vivos.

Hoje respondo em maldições e em poesia e em palavras verdadeiras.
Hoje sigo escrevendo nas árvores
e nas paredes e na areia
e nas mentes dos filhos
e na alma das mulheres e na pele de todos.
Continuo a narrar povos inteiros que celebram e cantam e são levados e são mortos e estão vivos
E seguem morrendo e acordando impávidos todos os dias.

Por isso escrevo, porque a memórias às vezes falha e a história falha
e minha avó que morreu há centenas de anos não deixa de cobrar minha parte
do trato.
Escrevi porque escrever é a melhor forma que conheço
para não morrer
é a única forma que conheço
para seguir vivendo
junto ao resto de meus mortos.

***

Ellen Maria Vasconcellos nasceu em Santos e mora em Brasília. É doutoranda em literatura hispano-americana na USP (estuda as representações do fim do mundo e as formas de sobrevivência diante da iminência do fim), é editora de didáticos em inglês e espanhol, e tradutora (literatura: e-galáxia, ed. Moinhos, etc.; artigos e ensaios: MASP, CULT, etc.). Também é autora dos livros de poemas Chacharitas e gambuzinos (2015, edição bilíngue) e Gravidade (2018), ambos publicados pela editora Patuá. Tem seus textos acadêmicos e literários publicados aqui e acolá. Site: https://ellenmartins.wixsite.com/home Contato: ellen.martins@hotmail.com

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