Alpendre Crônica

[Crônica] Retrato e Veleidade inconsciente, de Lucas Radí

Foto: Pixabay

RETRATO

Câmeras são tipo crônicas. Crônicas são tipo câmeras. E são? Algumas câmeras retratam bem o cotidiano ou, no mínimo, um instante. Algumas crônicas retratam bem o cotidiano ou, também, no mínimo, um momento. Ou destratam. Entendo como maldade de minha parte, charme puro, ousadia pedante. Assim como especular, coisa que fiz desde a primeira linha deste texto e que faço sempre no dia a dia. É como aquela fotografia tremida, tirada por acidente ou propositalmente, ou propositalmente por acidente, mas que não integra seu álbum. Não sei se vale a pena comparar, já que ambas tem seu tempo, seu momento de maturação, temas, subdivisões, métodos, técnicas e formas de fazê-lo e colocá-lo em prática. Seria um pecado, talvez até dos capitais. Retratar um momento não é o mesmo que escrever sobre ele, por mais que esse momento seja um… retrato — e apesar de usarmos sempre o verbo no intuito de falar sobre representações ou simbolizações. Seria erroneamente? Sei lá. Portanto, por que a comparação inicial?
Diria que, se há alguma semelhança, seria por pensarmos muito indiscriminadamente, com exceções válidas, que o cotidiano é parado, moroso, o-mais-do-mesmo e estático como uma fotografia. Como um instante que pode-se acessar e deixar afetar-se, de um dia que você sequer lembra a data exata. Um afeto magoado, alguém que não volta mais, e que nem adianta olhar pro relógio: simulacro largado às ruínas e memórias do passado, inacessível, inabitável, imutável à photoshop e aplicativos de edição, possível apenas aos olhos. Por vezes nem isso. O retrato que habita agora na galeria do seu celular, preso num porta retrato de imã, na carteira de alguém, em algum documento, ou que dialoga com você por meio de palavras. Talvez não exista nada parecido entre crônicas e câmeras, somente compartilham, de formas distintas, maneiras de reconhecer um ser humano.

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VELEIDADE INCONSCIENTE

Em semanas repetitivas firmaremos o trato de atribuir recorrentes más memórias e eventos traumáticos ao tédio diário — e evitaremos pensar que, na real, o que traz as pestes à tona é ficar sozinho consigo mesmo, lidando com um Outro Eu. Nos últimos dias (e aqui nem digo ‘’últimos’’ em sentido apocalíptico) meu único esforço foi subir escadas pra pegar cerveja na geladeira, além de ter tempo pra observar o que está em volta de nós.
Os sonhos, anotem, serão cada vez mais sobre o tema da reclusão e isolamento. Iremos, sim, sonhar que estamos abraçando alguém. Pessoas queridas ou algum inimigo, pra quem tem. Ou aquele típico sonho que estamos caindo num buraco imenso, sem fim. Talvez até enchendo-a-cara-com-pessoas-queridas e rindo de coisas sem sentido. Histórias silenciosas. Sonhos que nos deixam pensativos, melancólicos, e catatônicos.
Confesso que tenho apostado na tentativa de ser vidente, por motivos óbvios: estamos tentando ser tudo e um pouco mais nestes dias reclusos, mesmo que pareça ridículo. Ser pouco do que somos de fato e muito do que gostaríamos de ser. Desenvolvendo teses e argumentos sólidos, sozinhos ou acompanhados, durante o banho (uma das grandes diversões ultimamente), enquanto consumimos nossas refeições em silêncio ou em chamadas de vídeo por aplicativos.
Enfrentar uma pequena caminhada até o supermercado numa nova cidade, num-mundo-quase-hostil, na distopia nunca pensada mas já reproduzida em partes pela cultura pop, entre olhares e repulsas do contato físico, tudo faz o cotidiano parecer cada vez menos cotidiano. Parece díspar, como que nos dizendo que nada será como já foi um dia.
É um passado que ainda dá as caras no agora, mas indica que logo vai sumir de vez. Puff!
Há dias sigo atrás de histórias, pra ouvir ou contar: necessito e elas fazem falta. Fico beirando janelas em busca de captar, do 14º andar, algumas delas. Subo e desço pelo elevador, será que deixam devaneios aqui? Infelizmente, necessito de pessoas pra contá-las. E se for um novo código? E se mensagens chegam por meio de balões, são trazidas por pombo-correio, telefone sem fio, internet ou coisa assim? Não encontrar pessoas cara a cara, passear pelas ruas ou beber em lugares insalubres tem lá sua vantagem, sim. Mas não fazê-lo significa também perder algo. O mesmo que, surpreendentemente, nos visita em sonhos que esquecemos ao despertar de um sono irrequieto.
Um testemunho silencioso. Mera veleidade inconsciente.

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Lucas Radí tem 22 anos e é cronista em plataformas digitais. Observa ruídos e narrativas cotidianas em evidência. É estudante de História e baterista de uma banda goiana.

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