Alpendre Crônica

[Crônica] Como os gatos, de Kah Dantas

Foto: Reprodução Fiveprime

Esses dias eu desejei, tecendo preces silenciosas, ser como os gatos sobre os telhados lá embaixo, soltos em plena luz, espichados ao sol da tarde desconfiada com os rumores do mundo. Eu desejei alcançar a rua como se fosse um dia comum, desses em que talvez até preferisse estar em casa, e caminhar alheia ao vento e à minha própria e mascarada respiração, respeitando cegamente as vontades do universo para os modos de este meu corpo operar a vida.

Eu desejei me conectar às calçadas pelo tato, causando estranheza às solas dos pés e, mesmo nesse ato de surpreendê-los, saber-me viva e livre como os gatos, ainda que afirmá-lo seja uma dessas verdades impossíveis. Eu desejei não me sentir como este aparelho toda hora preso à tomada, de estar o dia inteiro encarcerado em informações e compromissos falsamente remotos que não descansam, mas estão entranhados aos nervos como se fossem uma teia elétrica constantemente à beira de uma pane.

Como aquele gato, eu desejei ser, passeando com solitária elegância num quintal não frequentado e sentindo a grama crescida ao redor de uma piscina descoberta, enquanto observado por outro felino, de cima das telhas, interessado por um pouco de tempo. Tive ímpetos de saltar desta janela do oitavo andar e me juntar ao tranquilo desconhecimento desses animais, indo e vindo por direito e sob ordenamento próprio e estrangeiro nesta terra de que os nossos espíritos escravizados creem ter a guia.

Aqueles gatos, cuja liberdade eu desejei como quem cava uma parede à unha, caminhavam rua, grama e telhados com a benção dupla e invejável que ninguém jamais poderia fazê-los saber: a de ignorar os crimes dos homens e a sabedoria de que toda consciência tem um fim.

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Kah Dantas é cearense, mestre em literatura, professora da rede pública de ensino e autora dos livros Boca de Cachorro Louco e Orgasmo Santo.

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