Colaboradores Edmar Neves

[RESENHA] Violências e contradições em ‘A infância do Brasil’, de José Aguiar

Imagem: Capa da HQ A Infância do Brasil, de José Aguiar.

Por Edmar Neves – 05/06/2020

Eu pretendia começar esta resenha sobre a HQ A infância do Brasil (Webcomic/AVEC Editora, 2017), de José de Aguiar, apontando as diferentes formas como entendemos a infância atualmente. Diria que no dicionário a infância é o período que vai do nascimento à adolescência, onde o ser humano está em desenvolvimento. Já o mercado enxerga na infância o alvo perfeito para o incentivo do consumismo. Depois comentaria que há quem entenda a criança como uma propriedade, ou ainda, as enxergue como seres que carecem de faculdades mentais, onde existe um misto de desdém pela inteligência das crianças com um protecionismo exagerado, já que essas criaturas não seriam capazes de entender o mundo ao seu redor.

Outro dado que eu iria apontar é que, mesmo que essas concepções possuam grandes complexidades que podem resultar em uma série de discussões e ações políticas, elas não dão conta de todas as visões sobre o período da infância que temos nas diferentes sociedades e momentos históricos, além de ocultar toda a problemática da desigualdade social e um sistema de violência física, psicológica e simbólica que praticamos contra as crianças e que também são meticulosamente apagadas do debate público.
Mas por incrível que pareça, ou por mais lamentável que seja, a questão da infância está de certa forma no centro do debate público nos últimos dias, mesmo que o motivo disso seja a nossa monstruosidade, afinal em menos de 1 mês a morte de duas crianças negras ganha destaque no noticiário nacional.

O primeiro caso foi o do menino João Pedro, de 14 anos, que foi assassinado durante uma operação policial em São Gonçalo (RJ), enquanto estava em uma residência brincando com outros jovens. Já o segundo caso aconteceu no dia em que escrevo estas linhas, quando a primeira dama da cidade de Tamandaré (PE), Sarí Gaspar Côrte Real, abandonou o filho de sua empregada – Miguel, de 5 anos – no elevador do prédio onde mora, sendo que o garoto se perdeu no prédio e caiu do 9º andar, morrendo com a queda.

Aqui vale ressaltar que a HQ de José Aguiar escancara essas contradições e violências em nossa sociedade, com tramas que se passam em diferentes momentos da história de nosso país, abordando temas relacionados à infância, que vão desde a concepção de infância em diferentes épocas, até o abandono de incapazes, educação, mortalidade infantil, entre outros.

Trecho A Infância do Brasil, de José Aguiar. Reprodução.

A ideia inicial era fazer um resumo de cada capítulo, comentando alguns aspectos que me chamaram a atenção, mas pularei o 1º – Século XVI Nascer, que retrata os primeiros anos da invasão dos portugueses no território que hoje chamamos de Brasil – e tecerei meus comentários sobre o capítulo 4 – Século XIX Reter. Aqui o autor, inspirado em fatos reais, nos traz uma história ambientada no século XIX em que uma menina nascida após a lei do ventre livre (Lei n° 2.040/1871) é açoitada pelo filho da dona da fazenda onde sua mãe é mantida escravizada.

Nesse capítulo vemos, com uma certa ironia do narrador, como o debate sobre a abolição era travado em espaços jurídicos. Também vemos a hipocrisia da sociedade da época, onde uma família rica e tradicional goza de regalias, enquanto uma família pobre, privada de sua liberdade e de sua humanidade fica a mercê dos desmandos da elite. Velhos hábitos não mudam quando falamos de Brasil.

Volto um pouco para comentar também o 2º capítulo – Século XVII Trocar. Ambientado no momento de nossa história em que o projeto colonizador estava a todo vapor, temos nesse capítulo a descrição do doloroso processo de catequização que as crianças indígenas passavam nas mãos dos jesuítas. Adoecidos pelo contato com os europeus, massacrados e privados de suas culturas, os povos indígenas resistem como podem há 520 anos no território que antes era deles. Mesmo sendo um capítulo relativamente curto, 24 páginas, temos um panorama bastante completo do que esses povos sofreram e sofrem com nosso projeto “civilizador”. (E é assustador perceber que raramente temos notícias das violências praticadas contra os povos indígenas no Brasil).

Trecho A Infância do Brasil, de José Aguiar. Reprodução.

Um elemento da HQ que vale ressaltar é o jogo narrativo que o autor utiliza, evidenciando os contrastes sociais e fazendo paralelos com nosso momento atual, ao mostrar como os temas que foram abordados em outras épocas repercutem hoje em dias. Esse jogo, que junta a narrativa e o layout do quadrinho, vai desembocar no último capítulo – Século XXI Perpetuar – onde há uma colisão das diferentes formas como encaramos a infância, traçando um retrato estarrecedor.

É importante dizer também que, ao contrário do que está em voga no nosso país, José Aguiar teve um grande cuidado ao retratar os momentos históricos em sua obra com o máximo de informações possível, contando inclusive com a curadoria da historiadora Claudia Regina B. Moreira, cujos textos compõem uma sessão de extras que contribuem para o nosso aprofundamento no tema. Além disso, o autor aproveitou as possibilidades que as mídias digitais oferecem e na versão web do quadrinho há uma série de comentários com informações complementares ao que está sendo mostrado nos quadro.

Por fim, eu pretendia terminar a resenha ressaltando a atualidade dessa obra, a importância de debatermos o que estamos fazendo com nossas crianças e citar uma frase escrita pela historiadora Claudia Moreira: “(…) A narrativa [de José de Aguiar] expõe, choca, conduz à reflexão. No espelho está a nossa imagem, e ela não tem apenas beleza.” Mas acho que a melhor de terminar é dizendo que vidas negras importam. Vidas de indígenas importam. Mesmo que nosso presidente desdenhe da morte de milhares de brasileiros, vidas importam.

Para ler, ver e ouvir

Contexto Histórico – Claudia Regina B. Moreira
A violência na infância como uma questão cultural – Janete Ricas; Miguir T. V. Donoso; Mona Lisa M. Gresta
Narrativas da periferia e trabalho de base | FERRÉZ – Canal TV Boitempo
Publicidade vs Sociedade – Canal Meteoro Brasil

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Edmar Neves é filho de Oxossi, se formou em Letras pela UFSCar, foi diretor executivo do projeto ‘UFSCar de Muitas Línguas’ e atua como redator.

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