Colaboradores Stéfany Caldas

Você fura a quarentena pra quê?

Ilustração: Sam Chivers.

Por Stéfany Caldas – 04/06/2020

Neste processo de isolamento – e de ausências – não raro eu me pego fazendo duas perguntas: Se eu soubesse que haveria a impossibilidade de sair de casa a partir de março, lá em janeiro, eu teria feito algo diferente? E, se acordássemos amanhã e nos fosse dado um dia de pandemia suspensa, o que eu faria?

Aí começo a listar as pessoas a que gostaria de encontrar, os abraços, os beijos, os olhares muito mais aguçados valorizando cada detalhe do mundo, um mar pra mergulhar, um pagode pra festejar, um campo pra jogar bola, um jogo pra assistir.

O fato é que a gente está com saudade do que nos conecta a outras pessoas. Do que nos faz sentir gente. A explicação mais legal que eu li sobre estarmos sonhando tanto (e coisas aparentemente esquisitas, de todos os tipos), é que todas essas coisas nos faz sentir vivos. Tipo sonhar beijando alguém que cê nunca nem parou pra pensar a respeito no dia a dia. Não há nada desesperador em sonhar. Em estar sonhando.

As vezes eu me pego pensando que deveria ter saído mais de casa, e aí eu lembro que até o ano passado eram outras as prisões que nos cerceavam. A gente era meio que refém do relógio, “o tempo corre contra mim”, como diz a canção.

O relógio não era o parceiro que jogava a favor. Horário pra levantar, pra pegar trânsito, pra cumprir jornada de trabalho, pára pra comer, esquenta a comida no microondas, volta pra outra metade do dia, pega trânsito de novo, chega a noite, dorme e recomeça a mesma coisa. Até a sexta-feira. Até o pagode, o jogo, o cinema, a praia, o shopping, a faxina, a casa pra colocar em ordem, a desculpa no whatsapp pra não sair de casa, enfim, qualquer coisa que momentaneamente nos anestesiasse até o programa do faustão e a vinheta do fantástico nos lembrarem do recomeço próximo.

Eram outras as prisões que nos cerceavam até 2019.

Aí hoje em dia a pergunta que suponho que os especialistas mais respondam seja: qual a previsão do fim do isolamento? Alguém no Twitter respondeu: Certamente uns dois meses depois de realmente começar. E é engraçado e triste, porém real.

Estamos todos em 2020, porém em momentos muito diferentes do isolamento. Tem gente que começou antes, tem gente que tá mais ou menos participando, e tem gente que coloca a cadeira na porta de casa com os amigos como se vivesse num eterno domingo à tarde. Não tem surpresa alguma à espreita, para estes últimos, está tudo sossegado, uma realidade paralela.

Numa matéria sobre relacionamentos para o portal UOL, entrevistados contam que entendem a gravidade da situação e que inclusive deixaram de sair para diversas finalidades (academias, supermercados etc.), porém continuam recebendo o que chamam de “contatinhos” em casa. Ou amigos. Acreditam que álcool em gel e banho são suficientes para driblar o contágio.

Se como cidadã este pensamento me incomoda, tento imaginar o que sentem os profissionais da saúde que diariamente vivenciam hospitais lotados, enquanto enfrentam um vírus jovem que ainda não tem perspectiva de freio. Seria algo parecido com enxugar gelo, já que a própria sociedade vem deixando a geladeira aberta?

Penso que o principal desafio de líderes da saúde, de estados e municípios (já que o governo federal não acompanha a fala) seja justamente chamar a atenção para a coletividade quando a gente tem um olhar completamente acomodado e viciado à individualidade.

A gente só se afeta com a nossa condição, com a condição de quem está ali, exatamente do nosso lado. Quando vira a rua e o acontecimento fica longe da vista, a realidade já não assusta tanto.

Enquanto tem gente ganhando R$ 80 reais por plantão, dormindo no chão, do lado de fora, com medo de contaminar familiares na volta do trabalho por estar em contato direto com o covid, tem gente entediada, achando que ficar longe fisicamente do crush ou do amigo sejam as maiores tragédias que possam acontecer. Cada realidade, um medo do tamanho da sua situação.

Contraditório pensar que a mesma espécie que passou por outras crises de saúde, que, inclusive, viu chegar o HIV, pra falar de um dos mais recentes, e que possui recursos pra enviar mensagens e informações instantaneamente para qualquer lugar do mundo, esteja também vendo questões como cooperação, solidariedade e empatia, em alguns casos, atrofiarem.

Espero que a gente saia melhor. Espero que a gente entenda que pessoas estão acima da economia. Que viver em função do horário comercial nos adoeceu e vai continuar adoecendo, se depois daqui ignorarmos os fatos e continuarmos tratando pessoas como números. A gente precisa ser capaz de respeitar uma dor que não é nossa. Espero que esse outro mundo, que, talvez seja irreal pra alguns, mas, ainda é o que eu acredito e escolho morar, tenha forças pra dobrar a ignorância e a ganância.
A gente vai matar essa saudade, eu sei que vai.
Respiremos!

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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