Lançamento

Cangaço Afrofuturista – A Luta Antirracista e a Narrativa do Fato Ancestral

Frame de Sun Ra retirado do filme “Space is the Place” (1973).

Por Camillo Cesar Alvarenga – 2/6/2020

Para o Lançamento da Revista de Tradução Ponto Virgulina.

Das esfíngicas pirâmides keméticas-kushitas aos bosques sagrados iorubás-nagôs de Osogbo, do “menino que descobriu o vento” aos rastafáris jamaicanos, dos jacobinos negros ao EZLN, do funaná caboverdiano ao RAP da Cova da Moura, do Harlem de Langston, Baldwin e Baraka a Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Glissant, D. Wallcott, de Fanon, Beatriz Nascimento e Milton Santos a Malcolm X, Marcus Garvey e W. E. Du Bois, de Dr. Umar J., Will Smith e “Run” à M. Ali, Jesse Owens e Dayane dos Santos, de Marimba Ani, Assata Shakur e Seb à Huey P. Newton, Kwame Ture e Nkrumah, de Abdias, Mestre Didi e Nego Bispo à Dona Dalva do Samba, Aqualtune e Nizinga, de Oxum, Oyá e Iemanjá à Maat, Sekhmet e Hator, do Saara aos desertos aborígenes da Oceania, da Ilha de Páscoa às florestas Incas da América Central, de Palmares ao Quilombo Rio dos Macacos, da tupinambá Serra do Padeiro à aldeia Yanomami Demini, do Recôncavo da Bahia à Amazônia, do Baile Charme aos ritos Massai, do obi, orobô à jurema e ayahuasca, do cosmo à cultura, da natureza à humanidade, da história ao presente, entre o oceano africano de corpos povoado e o sangue preto que jorra nos asfaltos estão o futuro e o destino sob ameaça de extinção.

Frame de uma das páginas da Revista de Tradução Ponto Virgulina, Jun. 2020. (Org. Tomaz Amorim Izabel).

Em tempos em que, a Peste e a Besta se apropriam de maneira pragmática da Babilônia, e aplacam aos povos africanos no continente e na diáspora junto a indígenas do mundo entre tantos sofrimentos humanos, depois da escravização, via Atlântico Negro, e da 2ª Guerra Mundial ainda é possível ainda ver os graus mais radicais do espírito populista do fascismo e da retórica racista que são o terrorismo bioecológico, a desumanização e coisificação do ser humano, expressões de um anti-futuro étnico e genocida ecossitêmico.

O que leva ao risco da perda da capacidade de intercambiar experiências ao qual se referiu um filósofo judeu alemão que se matou perseguido pelo nazismo. A transformação do africano em mercadoria e seus usos como cobaias (vide o ginecologista belga), a expropriação e genocídio de indígenas de suas terras e os testes com sangue e DNA de parentes yanomamis, a transformação e as experiências científicas com grupos raciais como judeus tornados rivais raciais dos supremacistas brancos, sendo escravizados, torturados e assassinados em campos de concentração, tumbeiros e plantations, revelam assim a distopia pseudo-democrática derivada do choque, devido à ideologia da violência do contato, tanto entre nazistas e judeus quanto entre os racifascistas e os africanos e ameríndios, através de verdadeiros holocaustos étnicos e ecológicos

Contra o “governo de guerra” e à luz de uma filosofia política ancestral afrofuturista, as lutas por autodeterminação identitárias (cidadania étnica), soberania alimentar e autonomia territorial (autogovernanças), guerras revolucionárias e de libertação colonial (retomadas e quilombismos) contra o imperialismo genocida, escravagista e racista são desideratos do imperativo de uma outra narrativa clandestina e popular contra-o-Estado colonial e o grande capital sobre e a partir das fundações destas relações produzidas pelos fundamentalismos político e racial. Manifestando-se a partir do horror e da dificuldade em enunciar sua ancestralidade e, ao experimentar sua existência total ao compartilhar suas heranças históricas e ancestrais através de suas visões de mundo tornadas assim futuristas e ancestrais. As perspectivas de futuro diretamente atacadas pelo desmonte e destruição da memória através da colonização cultural e da desconstrução dos costumes naturais, através do racismo, anti-semitismo e do etnocídio, no contexto das formas de sociabilidade moderna e contemporânea.

O reconhecimento da catástrofe do humanismo ocidental e das suas mais vis faces dialoga como estabelecimento de formas políticas de enfrentamento e confrontação, de reação e autodefesa no escopo do pensamento e ação pretas africanas que encontram ecos e diálogos nas formações de quilombos como em Palmares, no Banditismo do Cangaço de Virgulino Lampião, nas revoltas negras como a dos Malês, na Resistência etíope ao fascismo italiano, em toda uma série de lutas pela libertação nacional no continente, no Pan Africanismo (desde a Revolução do Haiti), passando pelo Garveyismo, pelo Partido dos Panteras Negras, na luta pelos direitos civis nos EUA, na luta contra o apartheid na África do Sul, , na organização Reaja, em Salvador, na resistência argelina contra a guerra colonial francesa, no exército de libertação curdo ou até mesmo na vitória de Ho Chi Minh contra os americanos no Vietnã, entre outras manifestações de resistência.

Tanto o silenciamento genocida, quanto à necessidade de se reimaginar nesta “nova barbárie”, ambos inscritos no fato ancestral , condizem e respondem ao radicalismo da experiência que expõe a arbitrariedade do uso da violência como recurso à recuperação autoritária e arbitrária do vivido. A relação algorítmica de influência psicoemocional entre consumo e a solidariedade social conduz a adesão de códigos alienados de conduta ideológica pragmática de modelos fascistas de comportamento, como o “estilo de vida” do “cidadão de bem” construído pela mídia e pela reprodução enquanto signos-virais, ícones, tokens.

O lançamento da Revista de Tradução Ponto Virgulina, é uma expressão do desenvolvimento e popularização de formas narrativas afrofuturistas desde a ficção científica passando pelo cinema e artes integradas, teatro e poesia, enquanto dados de uma reencarnação da imaginação histórica e existencial da subjetividade africana no mundo cultural moderno revestida de valores e motivos filosóficos ancestrais e espirituais ligados às mais firmes tradições cosmológicas africanas que atravessam como rajadas de contraviolência epistêmica, conceitual e estética. A capacidade da recuperação recursiva do poder da narrativa capaz de dizer e expressar o sujeito em seus dramas e traumas, suas virtudes e vinganças, suas superações e talentos, sua beleza e sua tragédia alimentam a fúria dos ventos da história para que os crimes não sejam esquecidos mas que também um imaginário possível seja reescrito e rearticulado no contemporâneo.

Frame de Sun Ra retirado do filme “Space is the Place” (1973)

Toda a potente efervescência do mundo negro africano com a diáspora em emergência no complexo técnico-político hi-tech desde as freqüências moduladas das rádios rurais do blues até a parafernália meta-galática de Sun Ra em direção ao cosmic jazz, o sample, o scratch, a grafitagem, a soul music, o rock and roll, o break dance, o pixo, é tudo isso, e muito mais, Afrofuturismo. Bacurau é afrofuturismo. A presença da ação social militante no âmbito da cultura digital e das artes redimensiona a política da relação crítica dos sujeitos com o mass media, com a tecnologia eletroeletrônica e com a virtual manipulação e inerte consentimento da opinião pública (e do público). Por vezes, a fachada fascista das redes sociais questiona o lugar profundamente enraizado dos intelectuais tradicionais, com uma indagação sobre qual o grupo humano ou onde está (em quais instituições) ou quem é o (sujeito histórico) depositário do conhecimento humano (o Google?) e extrahumano de saber-se natureza orgânica da terra ainda com toda ciborguização racializada das pessoas.

A força anarquista da torção anticolonial afrofuturista da narrativa ancestral consubstancia as experiências do universo da memória genética e cultural numa uma atualização atemporal de redefinição do cotidiano seja através dos hieróglifos keméticos ao afrografismo neo-expressionista de Basquiat, das narrativas reencontradas de escravizados aos blogueiros e youtubers pretos e pretas atuais nas redes sociais. A ciência dos antepassados é a arte espiritual de conservação e transformação do todo social – histórico e cosmológico, cultural e mitológico, medicinal e espiritual, elétrico e digital, político e tecnológico, ideológico e ancestral.

Contra a colonização do imaginário, o conhecimento ancestral e afrofuturista é uma tecnologia política que atravessa a realidade como uma caixa de ferramentas da desambiguidade da narrativa supremacista branca e dispositivo da descompressão das contradições inerente às relações sociais alargando condutas éticas e posturas políticas para a re-imaginação moral do mundo cultural e espiritual. O fluxo da narratividade permite a mediação das temporalidades ancestral e contemporânea (a se reproduzirem há mais de 5 000 anos através de gerações) ao elaborar a experiência e sua constituição de sentido. A música é também forma ritual de recompor os sentidos dos sujeitos ancorados na linguagem, para alcançar uma reconstrução de si – ontológica – e do mundo – cosmogônica. Este saber-fazer reflete também a capacidade de projetar novos sentidos possíveis na realidade.

A ontologia afrofuturista dessas manifestações políticas, artísticas e espirituais desde o Culto de Ifá ao Hip Hop são experiências elaboradas pela filosofia ancestral africana e indígena que desdobram e reabrem e disparam o gatilho contra a face mais fascista do sistema supremacista branco, o capitalismo, que é o racifascismo chauvinista endógeno a nacionalismos políticos eugenistas e ao fundamentalismo racialista e aprofundamento da decadente globalização colonizadora ante a irreparável conseqüência da destruição da natureza e das promessas da modernidade.

Prédio incendiado na cidade de Mineapólis, no estado de Minessota EUA, maio de 2020 durante protestos antirracistas conta o assassinato de George Floyd por um policial.

É possível encontrar orientação à conduta dos sujeitos históricos através da guerra das ruas e dos campos (guerrilhas), da linguagem filosófica e ritual do xamanismo ameríndio e das tecnologias espirituais africanas, contidas e componentes na consideração da configuração de sujeitos atrelados a um território, a uma comunidade de uma sociedade onde há uma ética válida no cotidiano das relações sociais.

Falar em Quilombo aqui é falar em futuro, e assim o pensamento indígena africano e ameríndio incide uma crítica na epistemologia moderna ao questionar a lógica formal, a representação moral, a validade ética de um conhecimento pautado na divisão entre sujeito e objeto, entre o ser e o não-ser e na persistente dialética do senhor e escravo que rege o Estado-de-pesadelo policial e necropolítico das xenofóbicas nações ocidentais que se dá entre “eles” e “nós”. O que leva a percepção de uma crise dos sentidos e um divórcio anunciado entre o tempo, a natureza e o ser.

A população preta e ameríndia é sistematicamente dizimada em todos os cantos do planeta, como se vê agora de maneira ainda mais violenta e perversa com os assassinatos (entre outros) de George Floyd, nos Estados Unidos e de João Pedro, no Brasil, e de grande parcela da população pobre e lideranças indígenas e quilombolas expostas ao estabelecimento deliberado deste estado-pandêmico no qual um vírus é usado como arma política e biológica de destruição de diversos segmentos sociais. Assim, que possamos ser aqui, também, escuta e agência, ser arma e instrumento aos pés do Oráculo e as vozes ancestrais e agentes dos futuros, dos diplomatas do tempo cósmico, xamãs, pajés, griôs, yalorixás, babalaôs, sujeitos afrofuturistas políticos radicais e revolucionários ativistas postos entre o dado e fato, responsáveis por narrar a volta do futuro ao futuro das experiências interditadas ao traduzir os códigos-signos ancestrais e sociais de comunidades e territórios de existência dos povos em regime de ação direta.

Por isso, que do quilombismo de Zumbi ao cangaço de Virgulino, do sistema binário de Orunmilá-Ifá ao .com da deep web continuamos a senda do banditismo afrofuturista, da pirataria digital e da macumbaria afroancestral para reinscrever no horizonte de nossos povos múltiplas raias de afrofuturos onde possam brilhar novamente sobre a Terra a verdadeira Luz do ainda Oculto Sol Ámon-Rá.

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Camillo Cesar Alvarenga é pai, poeta, músico e filósofo africano guajajara-nagô.

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