Coluna Romero Venâncio

Se não agora, quando?

Imagem: Reprodução.

Por Romero Venâncio – 30/5/2020

Nessa semana que está passando nesse maio cruel, tivemos momentos reveladores do que é, de fato, essa gente que está no governo e seus apoiadores de plantão. Primeiro foi a “live” de um grupo que parece ser o núcleo “pensante” dessa extrema direita na terça passada: o astrólogo olavo de carvalho, um filho de presidente e parlamentar, uma deputada de Brasília, um blogueiro idiota e um psiquiatra de direita que só sabe de coisas de auto-ajuda.

Essa gente com esses currículos conversaram umas duas horas sobre “tudo”. Um festival de mentiras (são mentirosos contumazes), xingamentos, teorias da conspiração, moralismos vários, vitimismo hipócrita, preconceitos a torto e a direita, tudo isto com cara de jornalismo ou teoria política… Terrível.

Vi do começo ao fim. Por conta da operação da polícia federal numa decisão do ministro Alexandre de Moraes essa gente ficou furiosa. Muito revelador do que pensam. Espumavam o ódio de sempre e os velhos discursos toscos requentado dessas velhas direitas europeias ou dos EUA. Só não nos iludamos: eles sabem o que fazem e como querem. E estão operando diariamente e com dinheiro e postos do estado.

Ficou nítido essa semana: destruir esquerdas; desmontar as instituições democráticas; deslegitimar formas de conhecimento; perseguir universidades e espalhar terror.

Essa investigação de fake news nas mãos do ministro Alexandre de Moraes pode ter algum efeito (não tenho grande ilusões com a lentidão do STF brasileiro), por conta de um detalhe: o próprio ministro. Não esqueçamos de onde ele veio e o cargo que ocupou antes de ser indicado por M. Temer para ser ministro do STF. Ele sabe de coisas e tem meios de saber que nós não temos.

Com o que já foi apreendido em termos de celulares e computadores ele já deve ter conhecimento de coisas que o deve ter impressionado. O que ele fará, não tenho a menor ideia. Até nada pode ser feito nessa hora. Paciência.

A segunda coisa é a “brincadeirinha debochada” de aparecer em rede social bebendo um copo de leite. Os seus bajuladores de sempre disseram que foi uma propaganda de marca de leite. Pode ser, não duvido. Mas sabemos do significado simbólico do copo de leite em mãos de suprematistas brancos nos EUA ou o que nos mostrou Tarantino em seu “Bastardos inglórios” no inicio do filme: o personagem nazista antes de fuzilar uma família judia, bebe um simbólico copo de leite. Tarantino conhece bem a história dos EUA, não esqueçamos.

E na mesma semana em que na cidade de Minneapolis ocorreram os protestos contra o que vimos com a divulgação de um vídeo que mostra o policial Derek Chauvin, que é branco, com o joelho no pescoço de George Floyd, negro – que morreu em seguida, após dar entrada no hospital. Nessa mesma semana. Sintomático, não?

Não saberia dizer exatamente a data de quando essa gente da extrema direita brasileira vem tendo essas formações de cunho nazi-fascista Imantadas com pseudo-filosofias e muita teoria da conspiração de cunho racista, anti-comunista e autoritária.

O resultado estamos vendo de perto agora no Brasil e com um virulência nunca vista. Os gestos desse pessoal em redes sociais ou nas ruas não nos deve enganar mais sobre seus objetivos obscuros: simpatias para com suprematistas brancos dos EUA, uso de simbologias nazistas, práticas de intimidação fascista e a tentativa diária de deslegitimar as instituições (ainda que capengas) democráticas desse país.

Arrematando: na prática ou no simbolismo, a extrema direita mostra o que é todo santo dia e já faz tempo…

Nesses dias pensei aqui com meus botões num livro do escritor Primo Levi que li na década de 90 e que seu título pode ser um chamado ou um projeto: “Se não agora, quando?”. Nele, Levi conta-nos a história de um grupo de judeus que, desgarrando-se do Exército Vermelho na Bielorrússia, em 1943, atravessa a Polônia e a Alemanha rumo à Itália. Ao longo dessa caminhada de dois mil quilômetros, as personagens juntam-se à luta da Resistência, vivem o medo, entram em conflito ou solidarizam-se entre si, mas sempre rodeados pela morte… Também não foi obra do acaso lembrar de Primo Levi nesta semana…

***

.

Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

%d blogueiros gostam disto: