Colaboradores Ricardo Escudeiro

rá, de Ricardo Escudeiro

Colagem: “Mãos que tocam o sol”, de Mariana Godoy.

“[…] reza a correnteza, roça a beira, doura a areia
marcha o homem sobre o chão
leva no coração uma ferida acesa […]”
(In: “Caetano Veloso”, Caetano Veloso, 1986)

para Mariana Godoy, caminho possível em terra devastada.
desde 31 de maio de 2019.

era um sol de pedra e o reflexo
num espelho d´água era o sol ele mesmo

entra na sala a escrita dela entra na sala a minha escrita
assumem as posturas dos martírios
e caminham e caminham em mundo aberto

junto dessa cena
ou imagem no caso de considerarem
isso um poema
ou ato
no caso de considerarem isso uma peça
como notações emparelhadas aos nossos lados
duas crianças que lançavam ao lago um patinho de borracha
e se riam e se se riam
iluminavam por inteiro um parque onde talvez nem estavam
um parque que sequer existia talvez porque fabulado

dramaturgia enquanto
ação naquilo que ela pode de representativa

ria-se também a estrela que lhes tocava as frontes
será que era isso um deus
numa desproporcionada demonstração de poder
ou um deus num de seus maiores lamentos

como fosse o mundo um canto
onde as crianças que saíram outrora
estão lá fora brincando sobre esta terra ainda
e não precisam
por conta das preocupações ou dos eventos alarmantes
por conta das intempéries desreguladas ou dos desarmistícios
ou até mesmo por conta das pandemias
serem chamadas de volta no contratempo

em duetos essas escritas
nossas mãos se seguram nossos olhos tocam as vistas
cantam a pedra que mergulha-se a ela mesma
e se fascinam e se fascinam em mundo aberto
o beijo de metrônomo o céu de declínio

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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