Colaboradores Edmar Neves Entrevista

Quadrinhos e representatividade: Uma entrevista com Marcelo D’Salete

Foto: Rafael Roncato.

Marcelo D’Salete é quadrinista, professor e ganhador de diversos prêmios como o Eisner, por Cumbe (Editora Veneta, 2014), o prêmio Jabuti e o Troféu HQ Mix, por Angola Janga (Editora Veneta, 2017). Além disso, ele é o autor de Encruzilhada (Editora Veneta, 2016) e Noite Luz (Via Lettera, 2008).

Confira o nosso bate papo com o autor!


Como foi seu contato com os quadrinhos e quando você decidiu não ser só um leitor, mas também um quadrinista?

Com 5 anos eu já acompanhava alguns títulos e via quadrinhos com frequência. Além disso, tinha uma relação muito forte com o desenho. Um pouco mais tarde, com 16 anos, num curso de artes gráficas, eu decidi trabalhar com ilustração e com quadrinhos. Sabia que seria difícil, mas, mesmo trabalhando em outras áreas, também queria fazer quadrinhos. Já com 18 anos comecei a trabalhar numa editora. Era um trabalho difícil porque eu ficava 8h fazendo ilustrações, mas foi interessante para lidar com um grande ritmo de produção. No começo dos anos 2000 eu comecei a publicar meus primeiros quadrinhos na revista Quadreca, na revista Front e depois em diversas revistas nacionais e de fora. Em 2008 publiquei meu primeiro quadrinho solo, o Noite Luz.

Algo predominante no seu trabalho é uma representação positiva das minorias, em especial das negras e negros que foram silenciados e afastados dos processos políticos. Por que essa escolha?

Não sei se o termo correto seria uma representação positiva de certos grupos, negros principalmente, mas eu penso que é uma tentativa de imaginar esses grupos de uma forma complexa e interessante. Algo diferente dos estereótipos que, dentro da história do Brasil, esses grupos foram relegados.
Hoje estava lembrando de um filme do Nelson Pereira dos Santos, Rio Zona Norte, com uma atuação fantástica do Grande Otelo. Otelo foi um ator formidável mas infelizmente parte do seu trabalho como ator não foi bem compreendido. Ele foi visto de uma forma muito discriminatória e racista por dramaturgos, diretores e outras pessoas que redigiam os textos. Esses profissionais geralmente o colocavam apenas na figura do bêbado, do engraçado, quando na verdade ele é um ator que poderia ter nos deixado muito mais. No entanto, mesmo nessa situação ele conseguiu construir papeis muito interessantes. Então o que eu tento fazer é falar de uma sociedade brasileira, no passado e no presente, e tentar explorar o máximo que eu posso os personagens negros e os diversos grupos que aparecem.

Comente um pouco sobre as influências das culturas africanas em seus trabalhos, como, por exemplo, a do povo Quioco e do povo Cabinda.

A minha forma de narrar é muito visual. Eu costumo pensar na história enquanto imagem, sabe? Ações dos personagens, trocas, objetos e outras coisas. Pra mim isso é fundamental.
Eu já tinha a experiência de trabalhar com símbolos, com objetos, além das personagens, no livro Noite Luz e Encruzilhada. Quando fui fazer o livro Cumbe e o Angola Janga, eu queria que fosse principalmente uma experiência visual. O texto entra, claro, ele é super importante, mas eu queria que a narrativa não fosse conduzida principalmente pelo texto, como às vezes acontece em alguns quadrinhos.
Sendo assim, fui atrás de símbolos e de conceitos na forma de imagens que fossem interessantes pra esses quadrinhos. Dentro disso pesquisei algumas culturas de origem banto, que trazem experiências e ensinamentos que a gente conhece muito pouco, mas que são muito ricos. Por exemplo, os desenhos e provérbios de origem Cabinda e principalmente Chokwe, ou Quioco, pertencente a um grupo da região nordeste de Angola.
Grande parte das pessoas que vieram forçadamente da África para o Brasil saíram de Angola e do Congo, cerca de 60, 70% das pessoas em todo o período do tráfico. Então eu tentei trazer algo que fosse próprio dessas culturas, na forma dos símbolos, dos provérbios, de palavras e de conceitos de origem do Kikongo, do Kimbundu. Por exemplo, a palavra “cumbe”, que significa “sol” e “quilombo” também.

Fale um pouco sobre a sua arte. Quais suas inspirações e quais materiais e técnicas você costuma utilizar nas suas ilustrações?

Depois de escrever a história, faço o primeiro esboço numa folha de sulfite, depois, numa folha de canson eu finalizo o desenho geralmente com caneta nanquim, tinta acrílica ou mesmo nanquim e pincel seco, tirando o excesso da tinta numa folha a parte. As minhas influências vêm desde artistas como Flávio Colin, até Hugo Pratt, Peter kuper, a Laerte, entre outros. Eu também gosto muito de artistas que trabalham em preto e branco, como o Muñoz, Breccia e outros artistas latino americanos.

As HQs nacionais estão ganhando cada vez mais espaço, principalmente lá fora, prova disso são os prêmios que seus trabalhos ganharam, assim como a adaptação que Angola Janga está ganhando para a TV. Fale dessa valorização, da importância dessas premiações e da extrapolação dos quadrinhos nacionais para outras mídias.

Considero que sim, os quadrinhos nacionais estão ganhando espaço. Temos excelentes artistas, cada vez procurando fazer obras mais complexas, extensas, que refletem muito de nossa realidade. Creio que o fato de eu publicar no formato de livro colaborou muito para que meu trabalho fosse publicado fora do Brasil, algo que talvez não acontecesse no formato de revista algumas décadas atrás.
Talvez esse movimento tenha uma relação muito forte com o Brasil da década passada, dos anos 2000 até 2015 mais ou menos. Momento em que tivemos diversos editais financiando artistas que trabalham com quadrinhos. Isso possibilitou aos artistas se dedicarem mais aos quadrinhos.
Hoje estamos num momento político mais conturbado e perigoso pra arte em geral e também para os quadrinhos. Espero que não tenhamos uma grande perda de artistas que se dediquem a essa arte. Uma HQ requer muito tempo de produção e, de certo modo, pode ter um retorno financeiro demorado. Se não tivermos artistas que tenham apoio de editais, ou de outras formas pra publicar suas obras, podemos ter um declínio na produção de quadrinhos como aconteceu nos últimos anos. Por outro lado, o quadrinho tem um alcance muito grande e pode permitir o acesso a, por exemplo, possibilidades de filmes, séries, jogos, premiações, participação em eventos, feiras, entre outros.

Certa vez quando lhe perguntei sobre seu quadrinho Noite Luz, você me sugeriu procurá-lo em alguma biblioteca. Em sua opinião, qual a importância das bibliotecas públicas na formação de leitores e no acesso às obras?

Eu cresci lendo quadrinhos em locais como a Biblioteca Henfil, que fica agora no bairro da Liberdade [São Paulo]. Esse espaço público pra mim foi fundamental, pois conheci outros artistas e pude ler obras que eu não tinha acesso. Por isso eu penso que precisamos fazer com que as obras que criamos cheguem nesses espaços e sirva de formação pra novos leitores e artistas. Por mais que tenhamos a internet e outros meios, a gente não pode esquecer desse espaço que foi e é importante pra formação de muitos leitores.

Por fim, como professor do ensino básico você costuma trabalhar com quadrinhos em sala de aula, certo? Comente como é essa experiência e nos dê algumas dicas para educadores que querem trabalhar com quadrinhos na escola.

Trabalhar quadrinhos com os alunos é sempre uma experiência muito estimulante. Geralmente conversamos sobre a linguagem dos quadrinhos. Eu levo pra sala de aula uma série de HQs, alguns meus e outros da biblioteca da escola, pra eles conhecerem a produção atual de quadrinhos do Brasil.
É sempre muito rico ver a forma como eles lêem e depois conversar com eles sobre essa leitura. Então partimos pra uma ação mais prática, onde eles pensam nas suas histórias e, a partir do que conversamos, criam suas histórias em quadrinhos. Há um retorno muito legal dos alunos sobre a linguagem e sobre a leitura dos quadrinhos.
Os quadrinhos são uma estratégia fundamental pra se utilizar em sala de aula. Não porque o quadrinho seja mais “fácil” que a literatura, ou outras artes, não! O quadrinho pode ter uma grande complexidade, assim como a literatura, o cinema, etc. O que acontece é que ele tem outra dinâmica, outra forma de se apresentar e fazer com que o leitor tenha acesso aquela história. Geralmente é uma leitura mais dinâmica, mas também é tão complexa e profunda quanto uma obra de literatura, onde somente há texto.

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Edmar Neves é filho de Oxossi, se formou em Letras pela UFSCar, foi diretor executivo do projeto ‘UFSCar de Muitas Línguas’ e atua como redator.

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