Coluna Fiquei pensando Lorena Portela

Homens que agridem mulheres estão em todo lugar. E os que não agridem, estão onde?

Crédito ilustração: Imagem de Uboiz, por Pixabay.

Por Lorena Portela – 28/5/2020

Enquanto mulheres ocupam espaços – na arte, na mídia, nas novas mídias – lutando contra a morte umas das outras, os homens – agressores ou não – seguem indiferentes ao movimento. Por quê?

Os números de morte e violência contra a mulher não mentem: os homens são os nossos algozes. Homens, só isso. Nem monstros, nem necessariamente psicopatas. Mas parceiros, maridos e namorados, pais, filhos, irmãos e vizinhos. A mão que nos agride e nos mata é, por vezes, aquela mesma que já nos deu flores ou nos amparou na nossa primeira queda. Nossos agressores são aqueles que aparecem ao nosso lado nas fotos das redes sociais, seguidas de declarações de amor. Muitos são homens admirados por outros homens, cheio de amigos, venerados pelos pais. E por isso, por sabermos que os agressores estão em todo lugar e têm os mais diversos rostos e classes sociais, nós nos unimos em protestos que ocupam grande parte dos meios disponíveis: debates, artes, mídia e redes sociais. Não é preciso fazer qualquer esforço para ver nossas bandeiras erguidas nas ruas, nos filmes, novelas, festivais, livros e nas centenas de perfis no Facebook, Instagram e Twitter. O problema é que, quando olhamos para o lado, só estamos nós ali, um mar de mulheres. Uma realidade que nos obriga a questionar: por que não há homens ao nosso lado quando pedimos que parem de nos matar?

Pensando nesta pergunta – e partindo da máxima masculina “nem todo homem” – analisei publicações recentes de mais de 20 perfis bem-sucedidos voltados para os caras nas redes sociais, esse canal de pautas livres e diversas. E vi, com certa satisfação, que papos importantíssimos estão acontecendo por lá. Homens falando para outros sobre a importância do autoconhecimento, do prazer feminino, da necessidade de terapias, da questão de gênero, da masculinidade tóxica, da paternidade e por aí vai. Tudo válido. E, sim, já existem movimentos, grupos e coletivos masculinos que debatem o machismo com certo êxito. No entanto, na minha pesquisa, apenas um canal (o Papo de Homem) abordava a violência contra a mulher de forma clara, objetiva, combativa e frequente.

Por que é difícil ver homens falando sobre isso? Existe alguma dificuldade específica em usar seu alcance de influenciador ou comunicador para conscientizar homens sobre a vertente mais mortal do machismo? Por que homens permanecem calados fingindo que não estamos falando com eles?

Conversei com três caras sobre isto. Todos inteligentes, bem-informados, amorosos, que questionam o machismo e entendem a importância do feminismo. Os três admitiram a sensibilidade do assunto. E se mostraram confusos, sem entender, de fato, porque este tópico é tão escasso entre os muitos que eles consomem. Também não sabiam dizer por que outros homens não usam a voz que têm para este fim. Talvez por se enxergarem muito distantes do perfil do agressor, disse um deles. Será mesmo? Será que os homens estão assim tão distantes do agressor? Será que não reconhecem ninguém na violência que acontece dentro de casa? Ou do outro lado da parede vizinha, no grito que fingem não ouvir à noite, nas marcas do corpo da colega de trabalho, naquela conversa no Whatsapp sobre sexo violento, na discussão que acontece no carro ao lado, naquele puxão de braço no meio da festa depois de umas doses de uísque, naquele corpo silenciado para sempre, estampado nas páginas do jornal. Se nós, mulheres, estamos cercadas de agressores, por que homens se sentem distantes deles?

São muitas perguntas para poucas respostas, por isso eu vou logo ao que interessa: homens, inserir essa pauta clara e objetivamente no meio masculino é urgente. É legal que você sigam perfis no Instagram que os ensinem onde fica nosso clitóris? Sim. É legal que vocês leiam sobre a importância de uma paternidade que diminua o fardo das mães? Absolutamente. Acontece que mulheres estão morrendo, então meio que temos um problemão aqui. Vocês precisam falar sobre isso uns com os outros. Assim como alguns brancos debatem racismo e se unem à luta dos negros – embora esteja longe do ideal, obviamente. A luta não pode ser uma responsabilidade só da vítima. Se homens não estão atentos às vozes das mulheres, que pelo menos o Clube do Bolinha seja útil para alguma coisa. Conversem entre si e troquem, uns com os outros, informações que ajudem a construir um mundo em que continuaremos vivas. A você, digital influencer, psicólogo, terapeuta e comunicador, um apelo: inclua essa pauta nos posts, nos stories, nas lives, nas palestras.

Informem-se sobre isso, se surpreendam com os números, se indignem com os dados. Estejam a par, por exemplo, de que durante esta pandemia e devido ao isolamento os números de agressões aumentaram – como se não tivéssemos problema suficiente. Sugiram assuntos do tipo aos perfis e veículos que vocês consomem. Sigam e apoiem mulheres que discutem sobre, ampliem o repertório, chamem os amigos para a roda. Quando a crise da Covid passar, vão aos protestos, se envolvam, nos queiram vivas.

E se vocês precisam de uma motivação para se enxergar como parte fundamental da mudança, aqui vão algumas: 536 mulheres são agredidas por hora no Brasil. 177 são espancadas. Um total de 5 milhões de agressões por ano. Fora as que não falam, nem denunciam. Uma mulher é morta a cada sete horas. É um homem que mata. É triste, você pensa. Mas se não foi você que levantou a mão, nem puxou o gatilho, não tem nada com isso, certo? Errado. Neste caso, como em tantos outros, fechar os olhos, calar a boca e continuar inerte conta ponto para o time do agressor, lamento informar.

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Lorena Portela é jornalista e redatora. É cearense, como Belchior. Viveu em Lisboa, terra de Fernando Pessoa, por quatro anos e hoje mora em Londres, cidade de Virginia Woolf.

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