Alpendre poesia

Dois poemas de Jeanne Callegari

Foto: Noell Oszvald

a teus pés

trago um pássaro morto entre os dentes.
eu o deposito a teus pés
como um presente
e em teus olhos pálidos vejo
: não é o que esperavas.
as asas manchadas. pupilas congeladas.
o fio de sangue entre as gengivas.
não, não é o que esperavas.
mas trarei outros, de novo e de novo
até que possas ver, no corpo morto
o bote. o salto
o vôo

*

chamada de jornal

ninguém a matou
ela é que morreu
foi encontrada morta
em seu apartamento

ele não a estrangulou
não montou sobre ela na cama
e quando viu
já estava feito

ela é que morreu
e seu corpo tinha sinais
de violência
e os vizinhos chamaram a polícia
dois dias depois
quando sentiram o cheiro

ele não matou
no máximo confessou o crime
chorou, tentou o suicídio
com veneno de rato
sem efeito

ela, ela disse que queria vê-lo morto
ela não o deixava ver as mensagens
no celular

ele se mostrou arrependido
chorou e pediu para que sua família
e a dela o perdoassem

ele não a matou
ela é que morreu
foi encontrada morta
em seu apartamento

***

.

Jeanne Callegari (Uberaba/MG, 1981) é poeta, jornalista e produtora cultural. Publicou os livros Amor eterno 2 (Garupa e Pitomba!, 2019), Botões (Corsário-Satã, 2018) e Miolos frescos (Patuá, 2015), todos de poemas, e Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável (Seoman, 2008), perfil biográfico do autor gaúcho. Em suas performances ao vivo, trabalha com os cruzamentos entre palavra, voz, ruídos e paisagens sonoras. É curadora, organizadora e poeta residente da Macrofonia!, noite de poesia e audiovisual ao vivo, realizada em São Paulo desde 2017. Foto: Liliane Callegari.

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