Coluna Romero Venâncio

Nem Deus, nem o Diabo… E nem a CNBB. Nota

A Decapitação de São João Batista (1608), quadro de Caravaggio.

Por Romero Venâncio – 22/5/2020

Vivemos numa situação muito difícil, hoje não existe possibilidade de diálogo” (Dom Leonardo Steiner – Arcebispo de Manaus, 21 maio 2020).

A frase (óbvia, pela data) vem de um religioso católico sério e bem intencionado… Porém, meu dou o direito de pensar se ela tivesse sido pronunciada aos quatro cantos do Brasil em 2013, em 2016, ou em 2018… Ou até em 2019. Anos chaves. Anos fatais. Anos que se preparou e se consolidou um governo fascista à olhos vistos e sob conivência de instituições, inclusive a que faz parte o distinto prelado da frase: a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)!!!

A frase hoje nos parece mais uma “previsão de Cassandra” (a da mitologia grega) do qualquer outra coisa. O senhor bispo deve saber que fascista não dialoga. Ele destrói as “instituições do diálogo”.

A CNBB tem bispos espalhados por todo o território nacional e sabe-se que é fundamental para qualquer instituição de poder saber ler os “sinais dos tempos” e ainda mais uma instituição religiosa que tem a história que tem. Que combateu a ditadura nos anos 70; que defendeu e promoveu direitos humanos, que defendeu operário e trabalhador rural, que defendeu populações indígenas… Dom Leonardo sabe que foi da CNBB figuras como Dom Helder Câmara (seu fundador, inclusive), Dom José Maria Pieres, Dom Pedro Casaldáliga ou Dom Tomás Balduíno – para ficar apenas nesses 04 Dons… E sabe mais que eu da luta desses quatro citados.

Nessas últimas décadas o que vimos pelas redes sociais e sem nenhuma desfaçatez, foi religiosos católicos fazendo foto com armas, fazendo apologia da violência, elogio a fascismos, reproduzindo textos e discursos de um certo astrólogo e reforçando por interesse próprio os velhos delírios da classe média brasileira e sua vidinha pequeno burguesa. Pergunta dos meus desavisados botões: e a CNBB não viu tudo isto?

Como bem dizia o Pe. Comblin, foi cômodo para a maioria do catolicismo romando bater em retirada da vida pública e de suas contradições desde os tempos fortes de neoliberalismo nos anos 90. E olhe que nos anos 90 ainda teve as “semanas sociais” coordenadas pela saudosa CNBB. Ou fazendo uso de duas metáforas: a Igreja eu um tempo com a cruz de Cristo e voltou paras bodas de Caná nas sacristias e com seus louvores inebriantes. Nem o cristão é de ferro!!!

Enquanto o catolicismo romano foi ser avalista de paranoias como “ideologia de gênero”, o fascismo cresceu dentro desse mesmo catolicismo e ganhou vida pública. E a CNBB sabe que em política profissional não existe almoço grátis. Diante da calamidade pública que o governo militar de bolsonaro junto com o covid19, a Amazônia onde vive e atua Dom Leonardo é terra de clamor, de dor, de tragédia, de abandono.

O horizonte que vemos para uma cidade como Manaus é macabro, para dizer o mínimo. E nesse ponto e nessa cidade, o bispo sabe mais que eu, que nós que não estamos na sangrada Amazônia. Até o Papa na Itália sabe disto. E como disse um dia aquele que o bispo afirma seguir: “se vocês se calarem, as pedras clamarão”.

E pelo andar da carruagem, até as pedras serão capazes de fazer uma inócua nota de repúdio… Paciência.

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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