Colaboradores Cosme Rogério Ferreira

[Corônica] A Peste de 1915 em Palmeira dos Índios

O Triunfo da Morte (1562), quadro de Pieter Bruegel.

Por Cosme Rogério Ferreira – 21/5/2020

Agosto, o mês do desgosto.
Há versões variadas para a explicar a origem da crendice de que o mês oito seja o mais agourento dos doze do ano. Os antigos romanos criam que durante esse mês um dragão aparecia cuspindo fogo no céu noturno. Em Portugal, no tempo das grandes navegações, era desgostoso se casar nessa época, pois o mês era dedicado às aventuras transoceânicas, e muitas mulheres recém-casadas viam seus maridos partirem nas caravelas com o risco de jamais retornarem, as deixando abandonadas ou viúvas.

Não há dúvida, porém, de que agosto de 1915 foi o mais triste da história da cidade alagoana de Palmeira dos Índios, por mor de um surto de peste bubônica que dizimou a população no período. A doença é um dos três tipos de peste causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida pelas pulgas que parasitam ratos. Desde a Idade Média, quando tornou a morte mais presente no cotidiano da população europeia, a peste afeta o imaginário do cristianismo, no qual a cultura brasileira também é fortemente embebida. São Sebastião, por exemplo, um dos santos mais populares do catolicismo, é invocado na defesa dos três maiores tormentos terrenos que estremecem de medo o cristão: a fome, a peste e a guerra.

Em Palmeira dos Índios, o mal que flagelou a cidade há mais de um século está indelevelmente marcado na memória do povo através de expressões linguísticas que são comuns no Nordeste, e mais ainda na localidade. Se uma coisa não funciona direito, foi porque “deu a peste” ou “deu a bubônica”. Se se quer mandar alguém para algum lugar inconveniente, ordena-se que “vá para a casa da peste”. Se se quer xingar (ou elogiar, dependendo da situação) alguém referenciando a sua genitora: “filho da peste”. Se se quer chamar alguém de doido: “Está com a peste (no couro)”. Se se quer apenas interjecionar contrariedade: um simples e aborrecido “peste” é suficiente. Se se quer interjecionar a contrariedade com mais ênfase: “bouba da peste”. Com mais ênfase ainda: “eita, bubônica da peste” (ah, falar isso com a boca cheia de farinha…). Afora as variações, oriundas do temor de pronunciar o nome da doença, para não atraí-la: “fi da pé”, “casa da peia”, “ó peianca”.

Relatos da época do surto dão conta de que morriam de três a quatro pessoas por dia, e os defuntos eram enterrados imediatamente. Esse dado nos faz calcular que devem ter morrido, no mínimo, entre 93 e 120 pessoas durante a epidemia. O médico Osvaldo Sarmento, enviado da capital, Maceió, para coordenar o combate à doença na cidade, adotou como primeira medida evitar mosquitos nos interiores das moradias. Determinou-se então que os moradores queimassem, à porta de casa, mato verde ou bosta de vaca, para que a fumaça espantasse os possíveis transmissores. No dia 25, o boticário (assim era chamado o dono da farmácia) e então intendente (assim era chamado o prefeito) Tobias Costa enviou um telegrama ao industrial Batista Acioli, então presidente do Estado (e assim era chamado o governador) no qual informava que os gastos despendidos no combate à epidemia – confirmada, por carta, pelo médico Aurélio Brandão – somavam a fortuna de 1.637$920 (um conto, seiscentos e trinta e sete mil, novecentos e vinte réis) e que competia ao governo estadual indenizar o Município, que não dispunha mais de recursos para empregar em ações profiláticas, devido ao seu colapso sanitário e financeiro. Seu Bibiano Goivinho, encarregado do cemitério, com o aumento da carga de seu insalubre trabalho e temendo ser contaminado, pediu exoneração. Em substituição, o intendente nomeou o coveiro Sebastião Ferreira da Silva para o cargo.

O receio do contágio fez o comércio cerrar as portas, os moradores se entocarem em casa e muitas famílias irem embora da cidade. À crise sanitária, somou-se a crise econômica, agravada pela seca que assolou o Nordeste e arruinou as plantações de algodão, base da economia local, e a crise política, que deteriorou as relações entre Tobias Costa e o major José Vieira de Brito, tesoureiro municipal, depois que o primeiro descobriu, no ano seguinte, que o segundo desfalcara o erário em mais de 700$000 (setecentos mil réis). O dinheiro nunca foi devolvido, Tobias Costa terminou renunciando, e Vieira de Brito virou nome de uma das principais avenidas da cidade.

Enquanto a desgraça assolava Palmeira, o jovem escritor Graciliano Ramos, que se tornaria um dos grandes mestres da literatura em Língua Portuguesa, estava vivendo no Rio de Janeiro, centro gravitacional para todo aquele que almejava seguir carreira jornalístico-literária, quando três irmãos e um sobrinho seus faleceram vitimados pela doença, que ainda abalou as saúdes de sua mãe e de mais duas irmãs. Entre o dilema de ser útil aos familiares e levar adiante a tão sonhada carreira, Graciliano assinalou a primeira alternativa: “Não me tenta a Palmeira. Mas acredito que com o sacrificar-me não sacrificarei grande coisa”, confessou em carta. Em setembro ele já estava de volta para se dedicar novamente às atividades comerciais na loja do pai. Acabou reatando o relacionamento amoroso com Maria Augusta de Barros, caso que seus pais não viam com bons olhos, dadas as condições sociais da moça. Desestimular o namorico entre Graciliano e a costureira filha de humildes lavradores foi um dos motivos de o coronel Sebastião Ramos e a dona Mariquinha apoiarem a partida do rapaz para a então capital federal, um ano antes. Sabendo que Maria Augusta arriscou a saúde para cuidar de seus parentes durante o surto de peste, Graciliano viu nesse gesto a prova de que era a mulher com quem deveria se casar. Contraíram núpcias em outubro. Pouco mais de quatro anos depois ela faleceu, devido a complicações no parto.

Quando Graciliano se tornou prefeito, exercendo o mandato entre 1928 e 1930, zelou, de modo exemplar e inédito, pelas condições sanitárias das áreas urbana e rural da cidade construindo postos de higiene, urbanizando áreas degradadas, recolhendo os montes de lixo tradicionalmente mantidos nos logradouros públicos e o cisco preciosamente guardado nos quintais das casas, eliminando possíveis focos de contaminações. Em um dos seus famosos relatórios de gestão, ele escreveu: “Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam”.

A lotação do cemitério São Gonçalo prestes a esgotar, problema persistente até hoje em Palmeira dos Índios, é a triste herança iniciada com uma epidemia de peste bubônica de mais de uma centena de anos, a nos lembrar a catástrofe que pode nos acontecer quando não tomamos os cuidados mais básicos de higiene.

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Cosme Rogério Ferreira é ator, poeta, professor e produtor cultural.

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