Alpendre poesia

Dois poemas de Daniel Grimoni Alfarella

estávamos ainda ontem falando sobre
ir ao bar e hoje acordamos para
outro céu outra cidade
as coisas pequenas ou grandes
rindo de nossos planos
amanhã não será diferente
teremos ainda que levantar da
cama teremos ainda que tecer projetos
sonhos de operário vislumbres
cultivar ao menos um segredo
sem relevância derramar silêncio
pelas janelas fabricar tardes como quem
joga dados organizar gavetas com papéis
grampos canetas reconhecer que nem sempre
estará presente o glitter o alarido e ainda assim
teremos que chamar isto de vida apenas vida
ainda assim alguma coisa se apresentará
salto de fé entidade a revolução comunista
alguma coisa deve vir tão bonita
que amanhã tampouco teremos escolha
ao final do dia pensaremos
sobre o mergulho que vem sendo nascer

*

se você quiser eu também
posso ser bélico
eu também posso me enfiar nas trincheiras eu
também posso levantar barricadas afiar
as baionetas calibrar a mira das
armas de fogo arremessar explosivos
na direção dos rostos
inimigos pilotar tanques caminhonetes
aviões puxar gatilhos

se você quiser eu também sei
endereçar a morte
eu também sei de lugares que
poderiam ser chamados terra de
ninguém sei como narram as estatísticas
histórias de genocídio sei que
há sofrimento e indiferença neste
mundo para dar e vender e
que poderíamos estar
reinaugurando guilhotinas e
que desilusões espreitam e botas
tratores fuzis punhos se encarregam
continuamente de violar o brilho
das vidas em resistência

se você quiser eu também posso
ser muito duro muito realista
eu também posso ser outro
cronista do apocalipse também posso
ser um corpo cartesiano também posso
medir os dias com instrumentos de minha
prepotência salgar as noites com
vazios de minha indiferença eu também
posso ser aquele que não está rindo
enquanto todos à sua volta
gargalham ou aquele que enxerga a inutilidade
de todas as coisas aquele que sabe muito
mais do que a maioria das
pessoas ignorantes que habitam à
sua volta levando suas vidinhas
de pessoas comuns posso ser aquele que jamais
beberia uma xícara de café após
as oito horas da noite

mas então você será responsável
por dizer as palavras da minha boca
movimentar minha língua já acostumada
a hospedar a vida possível

***

.

Daniel Grimoni (1999) é poeta, contista, professor e estudante de Letras na UNIRIO. É autor de “Todo (o) corpo agora” (2019), livro de poesia. Já foi publicado em revistas como Gueto, Ruído Manifesto e Mafagafo e em coletâneas de contos e poesia. Cultiva silêncios e vislumbres.

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