#indica

#indica nº 1 – Jorge Ialanji Filholini

Filmes:

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Retrato de uma jovem em chamas (2019), de Céline Sciamma

Foi o último filme que assisti no cinema antes da quarentena e, realmente, não foi uma mera sessão. Considero uma das melhoras obras do ano passado e, com certeza, uma obra-prima do cinema. E que perdurará. A direção segura e brilhante de Céline Sciamma beira à perfeição, o uso dos enquadramentos abertos e locações externas mostram a grandeza de um amor aprisionado entre duas personagens que se encontram por causa de um segmento cultural: a pintura. E o amor, mesmo que impossível, fica marcado, igual uma tela atemporal em uma galeria esquecida no tempo, não para quem ama. Destaque para a incrível cinematografia de Claire Mathon.

Atlantique (2019), de Mati Diop

As dívidas são cobradas mesmo depois da morte. E com razão, e é este o insólito que orbita a narrativa de ‘Atlantique’ – muito bem desenvolvida, por sinal -, é no amor e na perda que são motes deste maravilhoso filme. O extraordinário tem os pés cravados na realidade, sem pressa, Diop nos apresenta relações formadas pelo desespero financeiro, tradições, dilemas, desigualdade social, amizade e amor. Não se pode revelar muito da trama, mas tenho certeza de que ‘Atlantique’ fornecerá uma ótima reflexão, após os créditos finais, inclusive neste momento em que vivemos, sobre o verdadeiro desequilíbrio afetivo do mundo.

Livros:

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As mulheres de Tijucopapo (1982), de Marilene Felinto

“Quando eu chegar lá, e com certeza já terei visto flores, quero ver flores vermelhas, quando eu chegar lá depois de ter passado por canteiros de flores no meio das campinas, vou passar a carta para o inglês e enviar”. Este é o parágrafo inicial de “As mulheres de Tijucopapo”, romance de estreia de Marilene Felinto e vencedor do Prêmio Jabuti. Entramos nesta viagem de narrativas e expressões, em uma mescla de tempo e linguagem, construindo uma leitura sociológica, abordando a migração e a solidão na São Paulo cada vez mais opressora e caótica. Tenho em “As mulheres de Tijucopapo” uma das melhores leituras da vida. Uma viagem de retorno de Rísia, personagem principal da obra, uma viagem de análise e de grandezas literárias.

FELINTO, M. As mulheres de Tijucopapo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Um Exu em Nova York (2018), de Cidinha da Silva

As obras de Cidinha da Silva são marcantes pelas experiências fundamentais apresentadas por seu texto dos cotidianos contemporâneos. Sim, cotidiano no plural, pois Cidinha explora e nos mostra o que somente uma excelente autora consegue abordar sobre o nosso tempo. E com “Um Exu em Nova York” não foi diferente. Primeiro livro de contos de Cidinha e vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, a autora concretiza a sua fundamental importância na literatura. E como eu disse no começo sobre pluralismo, na obra acompanhamos contos sobre política, racismo, religião, ancestralidade e afeto em um admirável desenvolvimento de escrita.

SILVA, Cidinha da. Um Exu em Nova York. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2018.

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Jorge Ialanji Filholini é escritor, editor e produtor cultural. Autor dos livros de contos “Somos mais limpos pela manhã” (Selo Demônio Negro, 2016) e “Somente nos cinemas” (Ateliê Editorial, 2019). Foto: Ciete Silvério.

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