Colaboradores Glória Damasceno

Enigma da palavra: traduza-me, e eu te devoro

Foto: Glória Damasceno. Arquivo Pessoal/ Trecho do livro “As palavras andantes”, de Eduardo Galeano.

Traduzir. “Traducere”, do latim. Exprimir. Interpretar. Expressar. “Transpor de uma língua para outra”. Transpor! Ir além de um vasto alfabeto, e comunicar um querer, uma direção, um sentimento, ou contar uma história nascida de outro imenso modo de dizer, outro mundo de palavras, arranjos, sentidos, referências, sons, origens.

Para se ter uma ideia, em todo o planeta existem 6912 idiomas (ou mais), de acordo com o livro Ethnologue, que mais parece a “Bíblia da Linguística” dada a quantidade de informações que são encontradas por lá. Surpreendentemente — ao menos para o meu termômetro afetado pelo imperialismo americano — o idioma mais popular do pedaço é o mandarim (cerca de 860 milhões de falantes), depois vem o hindi, o espanhol e somente em quarto lugar aparece o inglês e na sétima posição a Língua Portuguesa. No Brasil há 188 idiomas em uso, sendo o português a língua oficial e mais 187 indígenas. Aproximadamente 47 dessas línguas um dia já faladas no país desapareceram no mar ingrato da extinção.

Extintas também são as palavras oriundas do “branco” que dá na gente! São ou não são incontáveis as vezes ao longo da experiência humana, especialmente linguístico-sistemática, que nos encontramos tentando achar as tais “palavras certas”? Os tais gestos precisos ou as sentenças e os movimentos que ao menos se aproximem daquilo que há de ter um nome ou uma frase inteira no abecedário estrangeiro aos limites não só geopolíticos do corpo? E de quebra, talvez!, até dito de um jeito ainda mais encantador!

Como é que a boca explica um arrepio se no âmago ele, o arrepio, não é uma palavra? Aliás, no princípio, quem nasceu primeiro: as palavras ou as coisas? Quem deu nome a quem? As coisas deram nome à palavra ou foi a palavra que deu nome à coisa?

Por falar em nascer, em 2017 resolvi me dar a chance de ler em inglês e espanhol. Nascia ali outro olhar! A leitura de estreia foi o “O ano do pensamento mágico”, da escritora americana Joan Didion. Eliane Brum, uma das mais lúcidas e brilhantes jornalistas do Brasil, foi quem me instigou a esse desafio ao costurar suas impressões sobre esse livro a uma de suas colunas de opinião. A dor da perda, a vida que fica, a vida que — às vistas da aparência — segue, os nuances desse momento, sempre me tomaram pela mão, e de mãos dadas a essa obra de Didion, como também à maneira que Eliane o trouxe à mesa, descobri que quando alguém traduz um livro/texto, outro texto/livro nasce de novo. É e não é do mesmo trabalho que estamos falando, é e não é o mesmo livro que estamos lendo, porque quem o pensou primeiro, o concebeu com as palavras que nasceram junto a ela ou ele. Quem o pensou de novo, traduziu com o seu respectivo olhar, com o seu próprio background sociocultural, deu o seu próprio peso, a sua própria leveza. Então uma tradução é sempre uma leitura de um universo particular sobre outra galáxia também singular, de um par de olhos mais ou menos próximo ao autor ou autora que está sendo traduzido, e nunca, pois, uma cópia literal. Por isso há traduções e traduções! Um livro pode ser considerado bom ou ruim a depender do repertório de quem o traduz, mas também de sua conexão com o texto que se pretende ser traduzido. Ler direto da fonte é também uma experiência rica, quase sempre o é!, não só do ponto de vista gramatical. A ampliação do entendimento não se dá apenas na esfera da decodificação engessada das palavras. “Se eu te amo em espanhol é ‘ti quiero’, então onde quer que eu leia ti quiero vai ser sempre eu te amo”, e não é verdade. Nem sempre ti quiero é eu te amo. Às vezes é “eu te desejo” — assim, puro, sem amor, e com muito hormônio! Parece óbvio, mas às vezes nos escapa do horizonte o que sempre esteve na paisagem. Certas interpretações parem livros ainda melhores, ou os empobrecem, mas isso também vai da afinidade que os leitores têm com um e outro idioma.

Ter lido, a exemplo, “As palavras andantes” de Eduardo Galeano, na língua originária dele, ou seja, em espanhol, não foi tão fácil quanto parece para uma falante da Língua Portuguesa, mas também foi ainda mais bonito estar mais perto de Galeano, poder “ouvi-lo” falar a sua maneira, com “b” no lugar do “v”, ou “j” onde na minha cabeça se consagrou dígrafo. Evidente que nem tudo se alcança em razão das limitações; tampouco aqueles que comungam da mesma língua de berço compreenderão em absoluto, embora também deva assumir, com as palavras de Aldir Blanc e João Bosco, que certas horas a Língua Portuguesa parece ser a única capaz de dizer:

“[…]

Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.

Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

%d blogueiros gostam disto: