Coluna Romero Venâncio

Um Cemitério nas Costas. Da Memória de Regina Duarte. NOTA

Por Romero Venâncio – 8/5/2020

“Os nossos mortos vão conosco
para que ninguém fique pra trás.”
Antonio Machado

Esse governo bolsonaro é pródigo em ser esse laboratório da crueldade social tanto de um ponto de vista econômico como de um ponto de vista cultural. Impressionante. A tragédia no pior sentido do termo em que estamos vivendo com esta política econômica em plena pandemia é um horror. Estamos no horror. Mas de um ponto de vista cultural é um horror, uma lástima, uma vergonha e uma desonestidade. São palavras que dizem muito do que é hoje a secretaria especial da cultura do governo brasileiro Regina Duarte.

Em todo o tempo que durou a entrevista neste dia 7 de maio na CNN a três jornalistas durou 36 minutos, ela tava tentando fazer um estranho papel: de atriz que vive um papel em um cargo politico. O mínimo que podemos dizer. As falas políticas dela foram todas desastrosas e com esse misto nojento de auto-ajuda, sorrisinho idiota e previsível.

A fala dela é irresponsável e desumana sobre as mortes desses dias onde o país dela tá vivendo um pandemia e morrendo muita gente todo dia e pela irresponsabilidade do governo que ela faz parte. A fala dela sobre o covid 19 é triste e desonesta. Ela falando da pasta dela é de uma superficialidade que beira a tolice completa. Mesmo com a “colinha” na mão, não temos nada de significativo. Ela diz que tá trabalhando muito e em muitas coisas, e nem sabe o que diz que tem feito. Terrível. Toda a entrevista só demonstra uma coisa: ela é uma completa incompetente para o cargo.

Em qualquer governo que levasse cultura minimamente a sério, Regina não poderia ocupar cargo algum público e a bem do serviço público… Mas por incompetência, ela não é solitária. quase todo o governo é um desastre generalizado em termos de o que fazer no cargo que se ocupa. A começar do presidente. A novidade não é essa. O pior da entrevista não é a incompetência dela, sabermos isto.

A jornalista da CNN disse a secretária que “não existe cultura sem memória” e pediu que a secretária se pronunciasse sobre o passado histórico desse país, das mortes de artistas que tivemos recentemente, etc… Aqui ela se perdeu de vez e revelou a face idiota que ela tem. Burra, ela não é. Ela sabe onde pisa e sabe do governo que faz parte e isto é mais cruel.

Agora, tem uma fala dela que foi pior de todas as bobagens que falou: sobre os mortos da ditadura e de maneira jocosa… Na idade dela, no que ela viu da ditadura, nos colegas dela de profissão que foram perseguidos pela ditadura… Ela clamou para não se “carregar um cemitério nas costas” se referindo aos assassinados pela ditadura e ainda cantou a musiquinha propagandista do governo Médici em pleno terror. Que fique claro: ela não se referia apenas aos mortos pelo covid 19, mas a ideia de que jornalistas adoram “desenterrar mortos”. Sabemos bem o que significa isto.

Mas penso eu o que significa isto para parentes de mortos políticos assassinados pela ditadura… Essa dor que carregam… Regina Duarte faz parte de um governo e o defende em tudo… E esse governo faz apologia da ditadura e de seus torturadores. Ela conseguiu, numa fala só, ser desonesta com os assassinados da ditadura e com os mortos pelo covid e tornou-se a carinha do imbecil brasileiro de plantão.

É notório que já virou “politica cultural” do governo da Regina Duarte o escárnio com os perseguidos e massacrados pela ditadura de 1964 e a atriz acrescenta apenas o risinho ao escárnio. Tripudia da memória e torna-se cúmplice do terror do passado e no presente. Triste fim…

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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