Colaboradores Stéfany Caldas

Futebol é música!

De início eu não entendia, mas acreditava que faria bem. Ele passava com seu apito estridente, vários de seus netos, amigos dos netos e vizinhos. O encontro era lá no campo. Eu, ainda criança, procurava eufórica e rapidamente uma roupa que me permitisse realizar movimentos de maneira confortável, calçava um tênis e saía correndo para integrar o elenco.

Suava muito pouco, tocava na bola raríssimas vezes quando alguém muito simpático resolvia me mandar, e perdia logo em seguida. Pedia pra sair antes de a partida chegar ao final, alegando cansaço, pois era o que se chamava “café com leite“. Mas acreditava ter cumprido o meu dever, afinal, aquilo era importante pra vida, repetia o meu avô.

Ao reunir a meninada semanalmente, ele não exigia que nos tornássemos craques de bola. Não esperava que fosse sair dali um Camisa 10, apesar de elogiar muito as jogadas bem feitas. Acontece que o meu avô era médico. O lance dele era fazer a gente pegar gosto pelos exercícios físicos, e, consequentemente, incorporar as atividades ao nosso dia a dia.

Depois, bronca mesmo a gente levava se não tocasse bola. Perder aquele gol feito era motivo de piada até o jogo seguinte, quem sabe até o resto do ano. Perder gol na cara da trave enquanto algum companheiro estaria em melhor condição de chutar se você simplesmente olhasse para o lado e tocasse a bola, seria motivo de puxão de orelha até a volta para casa.

Saber matar a bola era importante. Saber matar a bola e tocar decentemente, sem fazer o outro se desdobrar inteiro para pegar, era um dos requisitos. Seu papel, então, seria o de se colocar em um lugar favorável para receber novamente o passe. Um time entrosado era um time que sabia tocar bola.

Futebol é música, meu avô dizia: “Não dá pra jogar futebol sem ter intimidade com a bola, nada de ficar com o corpo tenso, travado, deixe que o seu corpo dance com a bola, não tenha medo, se aproxime dela” (posso visualizar ele matando a bola no peito e ela caindo bem pertinho de seu corpo enquanto escrevo).

O motivo de eu resolver contar tudo isso?

Mais um devaneio do isolamento social. Não sei se devaneio tolo, como diria o , mas, fruto de um mergulho interno cada vez mais profundo. Num papo com a psicóloga, ouvi bastante sobre nos voltarmos para dentro durante esse período. Sobre a necessidade de estarmos conscientes de nossas lacunas. Encontrei fotos, objetos diversos de meus avós, e venho ressignificando diversos momentos de minha existência através de momentos como esses.

Ao passo em que busco silêncio em meio ao surto de notícias barulhentas, presto atenção em quem sou, no que venho cultivando até aqui, no que quero continuar cultivando, e o que espero ver continuar comigo ao final de tudo isso. E foi numa dessas conversas durante uma madrugada insone que o futebol novamente deu as caras em minha vida.

Ao sentir que eu estava no limite da compreensão, enquanto recebia respostas vazias, fui direta: isso é uma retranca? Eu ainda lembro como é jogar na defesa, também sei recuar. Recebi como resposta: Não tô na retranca, é que eu jogo driblando. Fui invadida por uma melancolia junto com a constatação: eu não fui incentivada a driblar. Até hoje, no racha das meninas, só o faço quando é necessário. Meu estilo de jogo, que, entendi, também se reflete na vida, é trocar passes. Estou sempre me preocupando em que condições eu entrego a bola ao meu companheiro da vez. Foi uma bola boa ou o deixei encrencado? Pra onde eu corro, a fim de que ele não fique acuado pelos adversários, mas, tenha condições de  me devolver, e, assim possamos continuar a jogada?

Nunca na vida uma metáfora foi tão eficiente para exemplificar uma situação. É, Vô. Futebol é música. O que me foi explicado na infância continua sendo aplicado em minha vida. Marina Lima continuou aquela conversa no whatsapp por mim – eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar – E eu quero continuar arrumando gavetas, redescobrindo passagens, me aproximando de quem sou. E que a melodia do esporte, do futebol e do autorespeito, do autoamor, da cooperação, jamais deixem de serem ouvidas por mim.

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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