Colaboradores Isabella Ingra

Três poemas de Isabella Ingra

Imagem da série Space 2, Providence, Rhode Island, 1976. Francesca Woodman.

1- nosso

era como abrir a janela e enfrentar uma parede
era como me sentir boba diante das minhas utopias, eu que sempre quis me sentir grande.
era como derrubar leite quente nas minhas pernas – quando eu era criança, sempre acontecia e eu nunca entendia por que
te amar era como derrubar leite quente nas minhas pernas – como morder um biscoito murcho, como acariciar lenha, como sustentar um vício.
nosso último diálogo foi: eu te amo, se cuida.
“Se cuida” significa: olha pro copo de leite, segure-o, deixe o leite amornar, assopre até que ele perca a graça e não beba mais dele.

2 – a terra prometida

Eu sei, nós todos somos filhos do barulho, da conversa, das pernas andando na frente das pernas, do abraço antes do abraço, do beijo de línguas perdidas – mas olha, um instante, esse mapa sem rota, vazio, sem ilhas, sem direção.
olha esse mapa, não há nada, só silêncio, belchior de fundo, tudo que a gente sabe indo por água abaixo – chegamos no ápice e não há nada a ser dito.

3- pra ser brega e assim: total eclipse.

O coração está dolorido
mas está longe
longe de não querer mais aquilo que o machuca
longe de não querer conquistar novas épocas
longe de esquecer, de querer esquecer
longe de abandonar a revolta de acordar domingo
longe de se neutralizar

o amor. o amor não se neutraliza.

***

Isabella Ingra (1993) é poeta, escrivinhadora de palavras, atriz quando convém, mãe e feminista. Nascida em Brasília e no mundo todo.

%d blogueiros gostam disto: