Entrevista

“Clarão”: Uma entrevista com May Honorato

Foto: Amanda Bambu. Arte: Rodrigo Brandão

Quando você iniciou a gravação do CD “Clarão”?

Comecei a gravação do CD em 2018, na casa do meu diretor musical, Janeo Amorim. Nós começamos a fazer os esboços das músicas fazendo gravações caseiras. Interrompemos esse trabalho algumas vezes. Um tempo depois começamos a trabalhar com o Toni Augusto, que viria a ser o guitarrista do CD, um músico sensacional, com ele, fizemos possíveis arranjos para o CD. Foi sempre um processo muito harmônico, muito simples e orgânico.

Como se deu seu processo criativo ao longo do tempo?

Eu escrevo muito, embora nem tudo que eu escreva consiga transformar em música. Componho desde a minha adolescência e nesse CD, eu gosto de brincar que é como se fosse a luz viajando no tempo até chegar aos nossos olhos. Tem composição minha de quase 10 anos e tem composição muito recente, feita quase que durante o processo de gravação de gravação do CD. É uma sensação de estar fazendo uma coisa que eu desejava muito sinceramente e uma coisa verdadeiramente minha.

Eu falo no sentido de eu estar compondo, que dentro do meu processo isso foi significativo para eu me sentir à vontade para fazer. Depois de interromper minha carreira como intérprete e cantora várias vezes, eu percebi na composição a coragem de finalmente cantar minhas músicas, de falar sobre as coisas que eu penso, que eu sinto, por mais íntimas que sejam.

Como foi seu início na música?

Meu início na música tem a ver com meu contato com outras linguagens artísticas, principalmente a literatura e o teatro. A literatura através da poesia do meu pai que é escritor, poeta matuto, Audálio Honorato. Desde criança tivemos contato, encenando as poesias, decorando as poesias, sendo desafiados a escrever, sendo provocados. Já no teatro, comecei a trabalhar com meu irmão, Maylson Honorato, fizemos teatro de rua.

No dia que bati na porta da literatura, fui recebida pela literatura, me sentei a mesa com o teatro e descobri no final que minha anfitriã, de fato, era a música. Eu estava encenando uma peça, junto com meu irmão e nessa peça colocamos uma composição chamada “Felicidade”, que eu cantei e meu outro irmão, Maylton Honorato, que é violinista, me acompanhou. Foi a primeira vez que cantei em público e ali foi como se eu tivesse tido, de fato, meu primeiro clarão, um momento de perceber onde eu me sentia inteira, mais à vontade. Eu e o teatro nos afastamos um pouco para dar espaço a uma ligação que seria muito mais significativa para mim.

Foi a primeira vez que cantei em público e ali foi como se eu tivesse tido, de fato, meu primeiro clarão, um momento de perceber onde eu me sentia inteira, mais à vontade.

Em 2009/2010 fiz meu primeiro show, em que eu já tinha posto algumas composições minhas, de um tempo ainda mais longínquo, que eu tinha composto no começo da minha adolescência e as coisas foram mudando, as situações foram mudando, os clarões foram mudando e culminou nesse CD.

Foto: Amanda Bambu. Arte: Rodrigo Brandão

Quais as principais influências e inspirações no seu trabalho como cantora e compositora?

Com a relação às minhas influências, vou começar falando da composição, que é algo que me liberta muito. Lembro de ter lido um livro que gosto muito da Simone de Beauvoir, chamado “Memórias de uma moça bem-comportada” em que ela falava que tinha uma pulsão, um ímpeto de fazer alguma coisa, de criar, de dividir e como isso ajudaria a vida dela a fazer sentido. Lembro de ter lido isso e me identificado muito.

Sempre senti vontade de escrever, de dizer de algum jeito, mas para mulher são tantas inseguranças, tantos questionamentos e, sobretudo, a sensação de lutar em muitas frentes quando você quer compor e falar o que você quer. Isso me lembra de ter lido Perto do Coração Selvagem, da Clarice Lispector e lê-la dizendo que talvez procurasse por alguma coisa que não tem nome, talvez a liberdade fosse pouco, talvez não fosse isso, uma coisa ainda não nomeada.

Eu diria que me inspiro muito no que leio. Somo isso ao fato de meu pai ser escritor e com nosso sotaque nordestino e a literatura nordestina. Junta uma coisa com a outra, sem pensar muito sobre isso. Eu só penso nessas imagens bonitas que me inspiram, do que eu apreendo das coisas que leio, principalmente e do que vivo, sonho, sinto.

Eu diria que me inspiro muito no que leio. Somo isso ao fato de meu pai ser escritor e com nosso sotaque nordestino e a literatura nordestina.

Que momento você considera marcante na sua carreira?

Eu considero marcante na minha carreira um show chamado “Perto” que fiz no Teatro de Arena, em que foi a primeira vez que cantei músicas minhas em Maceió. Outras coisas que considero marcantes são parcerias musicais, é muito gostoso compor em parceria, é um momento de comunhão artística. É sempre importante para que eu possa me abrir para outras formas de escrever, de cantar, outras sonoridades. Eu fiz parcerias com Rodrigo Avelino, Júnior Almeida, Davi Ferreira.

Que parcerias musicais te ajudaram na construção desse trabalho?

Vou falar especificamente desse CD. O diretor musical que é um grande amigo, o Janeo Amorim, a gente se conheceu num bar, fui dar uma canja e ele estava tocando piano eletrônico e eu me apaixonei pelo jeito que ele tocava, pela sutiliza, fazendo a canção mais bonita. Uma pessoa muito humilde. Não tenho palavras para agradecer.

Meus dois irmãos, Maylson Honorato e Maylton Honorato que me acompanharam em algumas situações de divulgação, para tocar, apesar deles terem outras ocupações, a gente ainda toca juntos. Maylson Honorato que é jornalista me ajuda nas divulgações e escreve de um jeito muito bonito e sensível e acaba me inspirando no meu trabalho.
Rodrigo Avelino que é uma pessoa que participa do CD, ele canta, faz backing vocal em uma faixa e faz um dueto comigo em uma canção, Canção de Partida.

Todos os músicos que participaram, Roberi Rei, Alysson Paz, Félix Baigon, Wilbert Fialho, Félix Santana, Antônio Augusto, Misael Dantas, que além de ser baixista e participar do CD é meu companheiro, uma pessoa sensacional, que contribuiu muito no processo de gravação. Myrna Araújo que fez a produção vocal no CD. Meus dois irmãos com participação vocal na música Vento e meu grande amigo Del Cavalcante, que além de participar do CD também foi responsável por algumas filmagens, fotos que tenho usado na divulgação. Amanda Bambu, que fez a foto da capa, uma fotografa com uma trajetória bem consolidada de retratos femininos.

Não posso esquecer do Técnico de Masterização sensacional, Marcelo Saboia, que é uma referência imensa para gente e que já trabalhou com diversos artistas como Ivete Sangalo, Djavan, muita gente que tem trabalhos gigantes.

Fala um pouco da sensação de lançar o primeiro CD.

É diferente do que eu pensava, porque o processo de gravar ele acaba sendo mais arrastado. É empolgante, é envolvente estar fazendo o que você gosta, mas é desgastante de certa forma, é exaustivo, então terminar o CD é o ápice da felicidade. Eu retomo a história do ímpeto do artista de dizer, a sensação é essa de ter dito um pouquinho.

Vou parafrasear um autor/ artista que eu não sei que é, mas ele diz que se lança um CD, um livro para você se livrar dele. Na verdade, você já sentiu aquilo, já ressignificou aquilo e claro que as músicas vão se ressignificando no decorrer da vida da gente e outras vem, outras querem ocupar espaço, outras querem dizer também.

Então, esse vai ser o ciclo de “Clarão”, mas à medida que “Clarão” vai passando no céu, digamos assim, da minha vida artística, vai dando espaço para outras experiências, de composição, sonoras, de parceria, e a sensação de ter começado, de ter sido gentil e leal a mim mesma e as coisas que eu queria dizer e a todas as pessoas que me ajudaram nesse processo.

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