Coluna Romero Venâncio

Se tivéssemos no Brasil hoje um jornalismo investigativo. Uma nota

Por Romero Venâncio – 27/4/2020

Tenho plena consciência de que nosso problema urgente é o coronavírus e seu combate racional e planejado num esquema de quarentena. É fato e não desconsidero. Mas temos esse (des)governo furioso & perigoso pela frente. E isto parece ser tão grave quanto o vírus nessa conjuntura de abril de 2020.

Digo isto porque o que quero chamar a atenção nesse textinho para a necessidade de termos nessa hora fatídica um jornalismo investigativo e sério.

Por que digo isto? primeiro, diante dos últimos acontecimentos de denúncias desse governo bolsonaro, a demissão de Sérgio Moro e suas insinuações (do assassinato de Marielle e o papel da polícia federal).

Justifico isto a partir desses dois livros publicados nesses dois últimos anos e que poderiam ser fundamento de um possível “terceiro livro” que desmascarasse com fontes seguras as relações entre a família bolsonaro, sua ascensão na política, sua relação com milícias e o projeto de destruição das instituições que seguem algum rito democrático no pouco que ainda resta…

Por que cito esse dois livros como inicio de um processo? porque os dois tratam de momentos diferente do mesmo bolsonaro e de sua política.

Um trata dele no quartel e sua chegada ao parlamento como vereador no Rio de Janeiro. “O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel” (editora Todavia, 2019) de Luiz Maklouf carvalho. Resumidamente, o livro trata de como Jair Bolsonaro tornou-se uma figura pública em 1986, quando assinou na revista Veja um artigo sobre o baixo soldo pago aos militares. Um ano depois, reapareceu em reportagem que revelava um plano de estourar bombas em locais estratégicos do RJ. Considerado culpado e mais tarde inocentado pelo Superior Tribunal Militar (STM), Bolsonaro deixou a farda, passou à reserva e ingressou na política.

Com evidências da documentação e das mais de cinco horas de áudio do julgamento, o livro, que traz ainda 88 páginas de imagens e documentos, é a mais completa reportagem do caso decisivo não apenas para a trajetória do presidente, mas também para a redemocratização e o jornalismo do Brasil.
Uma pesquisa das mais importantes nessa hora.

Já o “Tormenta: o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos” (Companhia das Letras, 2020) de Thaís Oyama trata de como chegou esse presidente a presidência e seu “método” de trabalho. Revelador em muitas coisas…

O livro traça uma fisionomia dessa figura desde seus tempos de deputado na câmara federal. De uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história republicana, como ele sai vitorioso. Um ex-capitão do Exército que chegou a defender publicamente a tortura, autor de não mais que dois projetos de lei aprovados ao longo de 27 anos de mandato como deputado!!! e merecedor de apenas três dos 512 votos de seus pares na última vez que tentou se eleger presidente da Casa, em 2017.

A partir de um rigoroso trabalho de reportagem, “Tormenta” revela como opera o governo bolsonaro, que forças se digladiam entre as paredes do Palácio do Planalto e de que forma as crenças e os temores – reais e imaginários – de Bolsonaro e de seus filhos influenciam os rumos do país.

O livro traz detalhes surpreendentes sobre a crise interna de seu mandato, revelando segredos dos generais que o cercam no Palácio, intrigas que corroem o primeiro escalão do poder e bastidores que não chegaram aos jornais.

Mais do que mostrar as peculiaridades e a dinâmica do governo de Jair Bolsonaro – e de nos situar no calendário dos atribulados primeiros 365 dias de sua gestão –, a narrativa de Thaís Oyama ajuda o leitor a compreender o ano que passou e a vislumbrar o que nos aguarda.

Temos esses dois livro e com farta documentação do que afirmam. O que falta agora? um terceiro livro que entre nas atividades públicas da família bolsonaro nos últimos anos. Rachadinhas, Queiroz, milícias, propriedades, grilagem de terras no Rio de Janeiro o assassinato de Marielle Franco, o apoio ainda de uma extrema direita militante e a penetração em instituições…

Esse livro ainda nos falta. Imagino que o problema não seja apenas a competência profissional. Tenho certeza que temos ainda jornalistas capazes de algo assim (esses dois livros que cito aqui já demonstra isto). Mas tem o problema de risco de vida. Vejo que o problema é mais fundo do que podemos imaginar. Essa gente é muito perigosa e tem ramificações e esquemas maiores do podemos supor num simples texto de rede social.

Mas se o Brasil quiser sair da desgraça em que tá metido, será preciso enfrentar essa monstruosidade. O problema do Brasil nesse momento não é “apenas” o coronavírus, mas é também de uma lata de vermes prestes a explodir. E já sabemos por experiência histórica: a lata de verme na história desse país sempre começa a explodir por dentro. Lembremos desse detalhe.

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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