Coluna Romero Venâncio

Glauber Rocha e o cinema político português dos anos 70. Nota miúda

Por Romero Venâncio – 25/4/2020

A revolução dos cravos de 1975 em Portugal teve a participação de vários brasileiros e brasileiras. Dentre eles, um ilustre que merece destaque: Glauber Rocha.

Ele participou de um registro coletivo no ano de 1975 num documentário histórico: “As armas e o povo“. Trata-se de um documentário que junta as grandes movimentações de massas aos discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal e a libertação dos presos políticos às entrevistas de rua conduzidas por um grupo de cineastas portugueses e do brasileiro Glauber Rocha.

‘As Armas e o Povo” é um documentário de realização coletiva produzido pelo Sindicato de Trabalhadores da Produção do Cinema e Televisão durante as manifestações da Revolução dos Cravos em abril de 1974, que derrubou o regime fascista implantado em Portugal desde 1920 por Antonio Salazar.

Trata-se de um filme-intervenção, em que Glauber Rocha assume um papel de destaque como entrevistador nas ruas de Lisboa, durante a celebração do 1 de Maio, quando o povo sai às ruas de braços dados com os militares revoltosos para consagrar a Revolução de “25 de Abril”, que marcou a queda da ditadura salazarista. A participação ativa de Glauber em “As Armas e o Povo” antecipa a sua performance como “ator-autor” em “Claro” realizado por ele em Roma um ano depois.”

Acredito que Merece uma breve nota sobre esse cinema político que se fazia em Portugal no fim da ditadura portuguesa. O “cinema da Revolução de Abril” é herdeiro do Cinema Novo da década de 60, do cinema de uma geração de cineastas em ruptura com o conformismo vigente durante o “Estado Novo”. Entre o fim da década de 50 e o início da década de 60, são vários os elementos que contribuem para a emergência do Cinema Novo.

O primeiro desses elementos é o aparecimento de uma nova geração de cinéfilos formada nos cineclubes e pela crítica cinematográfica. Alguns desses jovens recebem bolsas de estudos para frequentar escolas de cinema no estrangeiro, como o IDHEC, em Paris, ou a London Film School, em Londres. António da Cunha Telles, uma das figuras mais importantes dessa geração, produziu os primeiros filmes do Cinema Novo.

Em 1968, é publicado um texto fundamental: “O Ofício do Cinema em Portugal”. Depois de cerca de um ano de negociações, a Fundação Calouste Gulbenkian decide financiar a primeira cooperativa de cineastas portugueses, o Centro Português de Cinema (CPC).

As primeiras produções dos “anos Gulbenkian” estreiam entre 1971 e 1972. A criação da primeira cooperativa de realizadores e as suas produções, quase sempre censuradas ou mal recebidas durante a Primavera Marcelista, são sintomáticas quer da desagregação do regime, quer da possibilidade – é certo que requerendo uma grande dose de discrição, abnegação, organização e unidade – de produzir imagens de outro tipo, logo, de criar outro cinema.

A conquista da liberdade de criação travava-se, então, através de atos, mas também através de imagens. Os cineastas da revolução eram maioritariamente militantes ou autores engajados, sensíveis à situação sociopolítica do País.

Os filmes da revolução surgem dentro de estruturas específicas – cooperativas de cineastas, como a “Cinequipa”, a “Cinequanon” ou o “Grupo Zero” -, algumas delas fundadas antes do 25 de Abril.

Entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, mais de cem filmes são realizados. Depois do PREC, a produção de obras cinematográficas dentro desta linha de continuidade persiste – é o caso de “Bom Povo Português”, de Rui Simões, finalizado em 1980.

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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