lide liquido Rio Grande do Norte

Live 17 poetas do RN – 24/4: Ana Luiza Souza Dantas, Gonzaga Neto, Michelle Ferret, Olga Hawes, Pedro Lucas e Renata Marques

[o poema mais difícil do mundo]

sinto uma necessidade
de contar histórias
talvez porque meu rosto diga
muito pouco do que quero falar

ele não diz sobre
os seus dias de sertão escuro
sem luz sem água
mas com muita farinha e feijão

você me diz que nunca passou fome
mas já quis comer bolachas que não podia

depois do luz para todos
água para todos
bolsa família para todos
fome zero para todos
me pergunto todos os dias
[mesmo sabendo que não há favores aqui]
como você ainda votou naquele
projeto de fascista que não
serve pra ninguém muito
menos pra nossa gente

o sítio agora é outro
com luz energia até uma piscina
há uma magia no cloro
misturado com o barulho dos grilos
e o sabor do caju tirado do pé
os espaços se transformam
e isso aconteceu diante
dos meus olhos viagens e pastéis de tangará

vejo tudo como
um destino feito
pelas nossas mãos
como belchior diz
naquela música que eu
e você ouvíamos quando faltou energia
aqui em casa e você me disse
parece que estou no sertão

sei que a cidade te doeu lá no início

quando viajo pra maior metrópole
da América do Sul não deixo
[nunca, nunquinha]
de pensar o quanto
agarrei minhas chances
improváveis pra honrar
o impossível que você
conquistou com seu suor

em cada voo tem um muito de você
eu juro

compartilhamos dores parecidas
em especial uma
[aquela que mói a alma]
e teorias dizem que tem algo
a ver com genética por isso o
mundo me doeu tanto desde cedo
penso que se for verdade digo
obrigada toda vez que você
saía pra jogar bola
ou dava uma risada sincera eu
tive dentro da minha casa
um exemplo de como vencer essa merda

penso em te falar como
foi esse sistema que
te adoeceu mas você
iria dizer que eu sou muito
pra esquerda e sim eu sou
em parte porque me doeu
demais te ver doer por eles

se lembro da sua história
da nossa história
esqueço dos dias de dores e distâncias

queria conseguir mostrar
como nasci pra ser quem sou
e como quem sou também é
boa parte do que você é

faço tanta questão
assim de aceitar
a aventura de me ser
porque tá no meu sangue
no nosso sangue sertanejo
isso não de aceitar
uma realidade que dói
como se ela fosse
a única possível.

Ana Souza é poeta, tem 22 anos e mora na Zona Norte de Natal. Escreve e publica em seu blog (https://medium.com/@anacomluiza) há mais de um ano. Em breve, lançará seu primeiro zine “Entre essa coisa cintilante e os meus olhos”.

*

quando falaram que o mundo ia acabar
imaginei que estaria a olhar pela janela
e uma bola de fogo do tamanho de são paulo
se chocaria com o prédio mais alto da minha cidade
imaginei que alienígenas surgiriam do asfalto
no fim de uma tarde de calor e nos fariam de escravos
ou de pilhas para recarregar as suas naves neom
imaginei novas hiroshima novas nagasakis
mísseis americanos coreanos e russos
fazendo arco-íris nos céus avermelhados
imaginei que pudesse ser algo lento e doloroso
como uma pandemia com nome de cerveja
ou uma guerra biológica em prol da liberdade
de um país no oriente médio rico em petróleo
ontem eu vi espancarem um homem com um cassetete
do conforto do meu sexto andar eu vi espancarem um homem
e nada fiz além de me sentir mal
hoje cedo chorei por conta de tudo aquilo que sinto
e não pelo homem espancado
ou pelo projeto ditatorial que está a se instalar no brasil
quando falaram que o mundo ia acabar
eu imaginei que saberia a hora
e que daria tempo de me despedir daqueles que amo
agora sem poder dar adeus a ninguém
percebo que provavelmente
o mundo já acabou

Gonzaga Neto, 26, poeta, autor de hipérbole. para mais: @gonzaganneto e gonzaganneto.tumblr.com.

*

Todas as coisas estão sujeitas
A desabamentos
Prédios, pontes, desejos
Todas as coisas tem limites
Margens
Estamos sempre à beira
Do rio, da rua
De atravessar a casa
O pensamento
Nas madrugadas estreitas
Os alargamentos podem não ter portas
E entramos em pequenos curtos
Circuitos de nós
De voz, da avó, dos ancestrais
Que tocam os tambores na memória
Na veia
E correm soltas na nossa capacidade de sonhar
E remar
Irrigar as seivas calmas do corpo
Do centro
Nos infinitos movimentos de ir
Vir
Permanecer
Tudo está por um triz

Já diz Maluz
Tudo que reluz
Pode ser espelho
Banho de mar
Delírio
E esses desabamentos
Servem para lembrar
Da fragilidade de tudo o que é suporte
Seja a perna da cadeira
Ou a minha
Seja aquele muro de concreto
Ou o braço suado do rapaz
Que carregava o saco de cimento
Para a construção do prédio que se ergue na esquina.

Michelle Ferret: poeta. Formada em Jornalismo e Artes Cênicas com doutorado em Ciências Sociais. Sua formação sempre esteve ligada às palavras, tanto em composições como ex integrante do grupo Rosa de Pedra, com em atuações com os grupos Poesias e Flores em Caixas e Os Insurgentes que tem a poesia como essência. É roteirista dos curtas “Adeus, te amo” (2016) e “Enquanto o Sol se Põe” (2019) do Coletivo Caboré. Atualmente prepara seu livro intitulado “Febre” e lançou recentemente junto com o filho Pedro Ferret o livro “Amor substantivo abstrato”, primeiro da editora Burritos, de São Paulo.

*

Metafísica

Há poucas coisas tão boas nessa vida
quanto atravessar o corpo, a dança, o suor.
Dois quadris se encaixando perfeitamente em uma ladeira,
nenhuma camada além da pele.
As mãos de uma senhora redescobrindo
a pronúncia correta da palavra clitóris.

Não ele, ela, ou você,
mas a grafia da palavra crepúsculo,
e o poder que tem o crepúsculo de confundir
o sol se pondo e o primeiro raio da manhã.

Olhar para o horizonte no pé do morro, onde a praia faz a curva,
só pra ter a certeza que o mar, ainda que gigante,
nunca se esvazia,
mesmo que não se alcance fundo o suficiente
para colher as flores.

Andar nas ruas presenteando cada calçado com uma história
e, com a destreza de quem passa pela vida como num sopro,
ser todas essas histórias.

Gigante, e não vazia.
Potente, e não cansada.
Sensível, e nunca frágil.

Uma árvore caindo na floresta.
Mais de centenas de anos de história caindo na floresta.
Ninguém que a escute.
Ainda assim,
acredite ou não, ela existe.

Olga Hawes, 1998, é nordestina, potiguar, feminista e poeta. Estuda psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e publicou trabalhos em zines como “Vidraçaria” (2014), “Entre seios (2015), “Iapois poesia” (2015), “Dente Canino” (2017), e na antologia potiguar “BlackOut” (2018), além de revistas, jornais e exposições. Gosta de poesia falada e acredita que arte feita de gente pra gente é o que muda o mundo. Publica em http://www.hawess.tumblr.com

*

tábuas de maré e tábuas de horários, velas alçadas a pique na contramão do rio, disciplinas de navegação e cursos de rios de abolir o tédio, invadir os navegos da rua santo antônio onde os primeiros negros foram extintos, ouvir os galos tecendo manhã nenhuma, acordar com os pórticos da alvorada abertos a ribeira alguma, guiar-se pelo baldo dos além-baldos, travestir de cinza uma manhã de sol sem nuvens, seguir a maré de longe, afogar-se no rio sem ver seu verde desabando, pisar os becos com o mistério sacro que todo beco mantém, mirar-se nas pedras e ver margem alguma, tábuas de maré, rios e tempestades de sol.

Pedro Lucas é natalense, doutorando em Literatura Comparada pela UFRN, e publicou os zines terceira miopia (2014, em parceria com Maíra Dal’Maz e Silvia Macedo), Pequeno Livro da Musa Invisível (2016, com ilustrações de Andressa Dantas), e Cidade / Sargaço (2019, com fotografias de João Patriota e projeto gráfico de Clarisse Bezerra). Escreve bissextamente em waltzforaidan.tumblr.com

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Furta cor

furta cor
zanza pelos ares
carrega sorrisos estampados de surpresa
na espuma
o movimento das mãos
dimensiona suas esferas
o movimento das pernas
persegue sua leveza
bolhas filhas das bolas
acendidas pelo vento

Renata Mar é produtora, comunicadora e poeta. Formada em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, atua a 15 anos no campo da produção cultural em Natal através de participação em coletivos autônomos e produções na linguagem do circo, audiovisual, poesia, música, artes visuais e políticas culturais. No universo da poesia, seus escritos estão reunidos no blog Versos Poti e atualmente é integrante do Rava, um coletivo de poetas.

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