Colaboradores Ricardo Escudeiro

Um Dia pra Anne Frank, de Charles Kenneth “C. K.” Williams // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Media newyorker

Charles Kenneth “C. K.” Williams (1936-2015), poeta, crítico e tradutor norte-americano. Ganhador da tríade dos prêmios literários norte-americanos: o National Book Critics Circle Award, o National Book Award e o Pulitzer. Foi membro da Academia de Artes e Letras dos Estados Unidos, professor na Universidade de Princeton e beneficiário dos mais importantes fomentos e citações a poetas. Publicou 21 livros de poemas, além de ensaios, traduções, dois livros infantis e outros. Williams era conhecido por sua abordagem insistentemente ética na escrita da poesia (“Temos a obrigação de disciplinar a nós mesmos e aos nossos poemas moralmente, ao ponto de aparente crueldade”, ele escreveu uma vez). Nascido em Newark, em 1936, apenas três anos depois de Philip Roth, com quem compartilha muitos temas, Williams foi um poeta do social e do sensorial. “Frequentemente ele nos entrega não o sol, mas o relógio solar que o registra”, escreveu Richard Eder em uma resenha do “Collected Poems”, para o New York Times. Embora Williams não os mencione explicitamente, seu trabalho parece dialogar com grandes modernistas como Woolf e Stein (e seus descendentes pós-modernos, os poetas da Escola de Nova Iorque). Em 2005 recebeu o prêmio Ruth Lilly, entregue anualmente pela Poetry Foundation. (Fonte: Katy Lederer, em texto para o New York Times)


A Day for Anne Frank

God hates you!
-St. John Chrysostom

1.

I look onto air alley here
where, though tough weeds and flowers thrust up
through cracks and strain
toward the dulled sunlight,
there is the usual filth spilling from cans,
the heavy soot shifting in the gutters.
People come by mostly
to walk their dogs or take the shortcut
between the roaring main streets,
or just to walk
and stare up at the smoky windows,
but this morning when I looked out
children were there running back and forth
between the houses toward me.
They were playing with turtles –
skimming them down the street
like pennies or flat stones,
and bolting, shouting, after the broken corpses.
One had a harmonica, and as he ran,
his cheeks bloating and collapsing like a heart,
I could hear its bleat, and then the girls’ screams
suspended behind them with their hair,
and all of them: their hard, young breath,
their feet pounding wildly on the pavement to the corner.

2.

I thought of you at that age.
Little Sister, I thought of you,
thin as a door,
and of how your thighs would have swelled
and softened like cake,
your breasts have bleached
and the new hair growing on you like song
would have stiffened and gone dark.
There was rain for a while, and then not.
Because no one came, I slept again,
and dreamed that you were here with me,
snarled on me like wire,
tangled so closely to me that we were vines
or underbrush together,
or hands clenched.

3.

They are cutting babies in half on bets.
The beautiful sergeant has enough money to drink
for a week.
The beautiful lieutenant can’t stop betting.
The little boy whimpers
he’ll be good.
The beautiful cook is gathering up meat
for the dogs.
The beautiful dogs
love it all.
Their flanks glisten.
They curl up in their warm kennels
and breathe.
They breathe.

4.

Little Sister,
you are a clot
in the snow,
blackened,
a chunk of phlegm
or puke
and there are men with faces
leaning over you with watercans

watering you!
in the snow, as though flowers would sprout
from your armpits
and genitals.

Little Sister,
I am afraid of the flowers sprouting from you

I am afraid of the silver petals
that crackle
of the stems darting
in the wind
of the roots

5.

The twilight rots.
Over the greasy bridges and factories,
it dissolves
and the clouds swamp in its rose
to nothing.
I think sometimes the slag heaps by the river
should be bodies
and that the pods of moral terror
men make of their flesh should split
and foam their cold, sterile seeds into the tides
like snow
or ash.

6.

Stacks of hair were there
little mountains
the gestapo children must have played in
and made love in and loved
the way children love haystacks or mountains

O God the stink
of hair oil and dandruff

their mothers must have thrown them into their tubs
like puppies and sent them to bed

coming home so filthy stinking
of jew’s hair
of gold fillings, of eyelids

7.

Under me on a roof
a sparrow little by little
is being blown away.
A cage of bone is left,
part of its wings,
a stain.

8.

And in Germany the streetcar conductors go to work
in their stiff hats,
depositing workers and housewives
where they belong,
pulling the bell chains,
moving drive levers forward or back.

9.

I am saying goodbye to you before our death. Dear Father:
I am saying goodbye to you before my death. We are so
anxious to live, but all is lost – we are not allowed! I am
so afraid of this death, because little children are thrown
into graves alive. Goodbye forever.
I kiss you.

10.

Come with me, Anne.
Come,
it is awful not to be anywhere at all,
to have no one
like an old whore,
a general.

Come sit with me here
kiss me; my heart too is wounded
with forgiveness.

There is an end now.
Stay.
Your foot hooked through mine
your hand against my hand
your hip touching me lightly

it will end now
it will not begin again

Stay
they will pass
and not know us

the cold brute earth
is asleep

there is no danger

there is nothing

Anne

there is nothing

*

Um Dia pra Anne Frank

Deus te odeia!
-São João Crisóstomo

1.

Eu olho aqui de cima pro beco
onde, apesar da dificuldade musgo e flores avançam
através das rachaduras e da tensão
em direção a uma luz do sol desbotada,
há a imundície de sempre escorrendo das lixeiras,
a fuligem pesada se movendo nas calhas.
As pessoas vêm geralmente
pra passear com seus cachorros ou pegar o atalho
entre as barulhentas ruas principais,
ou só pra caminhar
e admirar as janelas enfumaçadas,
mas essa manhã quando olhei pra fora
crianças corriam ali de um lado pro outro
entre as casas na minha frente.
Elas brincavam com tartarugas –
as arremessavam rua abaixo
como fossem moedas ou pedras achatadas,
e corriam, gritando, atrás dos pedaços de corpos.
Uma delas tinha uma gaita, e enquanto corria,
as bochechas dilatando e contraindo como um coração,
eu podia ouvir sua lamúria, e então os gritos das meninas
pendurados pra trás com os cabelos delas,
e todos eles: sua firme, jovem respiração,
seus pés descontrolados pisoteando a calçada até a esquina.

2.

Eu pensei em você nessa idade.
Pequena Irmã, eu pensei em você,
magra como uma porta,
e como suas coxas teriam inchado
e amolecido feito bolo,
seu peito empalidecido
e um cabelo novo crescendo em você como uma canção
que teria endurecido e ficado mórbida.
Em um instante chovia, e então não.
Como ninguém veio, eu dormi de novo,
e sonhei que você estava aqui comigo,
enroscada em mim como arame,
tão emaranhada em mim que éramos vinhas
ou arbustos um com o outro,
ou punhos cerrados.

3.

Eles estão cortando bebês ao meio em apostas.
O belo sargento tem dinheiro suficiente pra beber
por uma semana.
O belo tenente não consegue parar de apostar.
O garotinho choraminga
que vai ser bonzinho.
O belo cozinheiro está juntando carne
pros cachorros.
Os belos cachorros
amam isso.
Suas ancas reluzem.
Eles se encolhem em suas gaiolas quentes
e respiram.
Eles respiram.

4.

Pequena Irmã,
você é um coágulo
na neve,
escurecido,
um pedaço de ranho
ou vômito
e há homens com os rostos
inclinados sobre você com regadores

regando você!
na neve, como se flores pudessem brotar
de suas axilas
e genitais.

Pequena Irmã,
eu estou com medo das flores brotando de você

eu estou com medo das pétalas de prata
que estalam
das hastes arremessadas
ao vento
das raízes

5.

O crepúsculo apodrece.
Sobre as pontes sebosas e fábricas,
ele dissolve
e as nuvens chafurdam nesse rosáceo
ao nada.
Às vezes eu acho que as pilhas de resíduos ao longo do rio
deveriam ser corpos
e que esse gérmen de terror moral
que os homens produzem da carne deveria se repartir
e respingar suas frias, estéreis sementes nas marés
como neve
ou cinzas.

6.

Amontoados de cabelos estavam ali
pequenas montanhas
as crianças da gestapo devem ter brincado ali
e criado amor ali e amado isso
do jeito que as crianças amam palheiros e montanhas

Oh Deus o mau cheiro
de óleo capilar e caspa

as mães devem ter jogado elas nas suas banheiras
como filhotinhos e mandado irem pra cama

voltando pra casa tão fedidas e emporcalhadas
de cabelo judeu
de obturações de ouro, de pálpebras

7.

Em um telhado abaixo de mim
um pardal vai pouco a pouco
sendo levado pelo vento.
Uma gaiola de osso fica pra trás,
parte de suas asas,
um marco.

8.

E na Alemanha os condutores de bonde vão pro trabalho
com os seus quepes,
entregando trabalhadores e donas de casa
aos lugares aos quais eles pertencem,
puxando as cordas do sino,
movendo alavancas de direção pra frente e pra trás.

9.

Eu estou te dizendo adeus antes da nossa morte. Querido Pai:
Eu estou te dizendo adeus antes da minha morte. Estamos tão ansiosos
pra viver, mas está tudo acabado – nós não somos permitidos! Eu tenho
tanto medo dessa morte, porque as crianças são jogadas
vivas nos túmulos. Adeus pra sempre.
Te beijo.

10.

Vem comigo, Anne.
Vem,
é horrível estar em lugar nenhum assim,
não ter ninguém
como uma prostituta velha,
um general.

Vem sentar aqui comigo
me dá um beijo; meu coração também está ferido
pelo perdão.

Há um final agora.
Fica.
Seu pé enganchado no meu
Sua mão contra a minha
Seu quadril me tocando de leve

isso vai acabar agora
isso não vai começar outra vez

Fica
eles vão passar
e nem vão reparar em nós

a gélida terra bruta
está adormecida

não há perigo

não há nada

Anne

não há nada

***

*o poema faz parte do livro “Lies”, de 1969.
**meu agradecimento à poeta Mariana Godoy, que me apresentou esse autor.

***

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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