Coluna Fiquei pensando Lorena Portela

Religião e política: outro perigo em plena pandemia

Por Lorena Portela – 23/4/2020

“Deus nos proteja”, “Vamos orar por um milagre”, “Entrega nas mãos de Deus”. Essas são algumas frases muito comuns, para citar poucas, em comentários de portal de notícias sobre a atual crise causada pelo Covid-19. Também é fácil ouvi-las em conversas com familiares ou nas mensagens matutinas nos grupos de Whatsapp. Excetuando-se as ocasiões em que o uso destas se dá apenas por força de expressão, as frases acima são o indicativo de outro fenômeno, também perigoso, que pode ser observado no Brasil hoje.

Segundo o IBGE, o Brasil tem atualmente 42 milhões de evangélicos, divididos em diferentes vertentes. Este número pode aumentar consideravelmente em dez anos, ultrapassando pela primeira vez os católicos, ainda maioria no Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo doutor em demografia, José Estáquio Alves, e divulgada pela Folha de S. Paulo. Entretanto, católicos são maioria numérica, apenas. E números, sabemos, não significam necessariamente a detenção do poder.

O pesquisador usou algumas palavras-chaves para explicar esta aceleração de crescimento: “ativismo evangélico”, “maior interação entre igrejas evangélicas e política” e ainda “o apoio em massa dos maiores líderes do segmento ao presidenciável Jair Bolsonaro em 2018”, destacou Estáquio, referindo-se ao atual presidente, eleito com 57 milhões de votos. E sobre os maiores líderes do segmento, tomo aqui a liberdade de citar o pastor Silas Malafaia – rico, famoso e polêmico no Twitter, onde não raramente destila mais ódio do que amor – e o bispo Edir Macedo – bilionário, dono de um conglomerado de comunicação, preso em 1992 por estelionato, charlatanismo e lesão à crendice popular. Juntam-se à lista de crentes poderosos, nomes como R. R. Soares e bispa Sônia.

Passei por estes dados para observar que, talvez, tanto dinheiro, tanto poder e tanto apoio dê a alguns (muitos) a sensação de totalidade ou de onipotência, aquela característica geralmente atribuída a Deus, mas comumente vista em homens. Recentemente, Bolsonaro – batizado nas águas do Rio Jordão dois anos antes das eleições – disse que ele era a própria Constituição. Sim, a Constituição Federal, aquela que abriga as leis soberanas e supremas da nação inteira. Também é comum, vejam só, em meio a uma pandemia com características nunca antes vistas, que evangélicos exijam que as igrejas se mantenham abertas para o exercício da fé. Como se a fé – essa mesma que, dizem, é tão poderosa a ponto de mover montanhas – fosse limitada a um espaço físico. Ou como se Deus, Aquele mesmo cujas características inclui a onipresença, só pudesse ser acessado de um único lugar.

Não tive notícias de outros religiosos pedindo direito ao culto coletivo, nem protestando em massa pelo fim do isolamento, medida sugerida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por diversas autoridades ao redor mundo. Não vi líderes espíritas levantando essa questão. Nem umbandistas. Nem católicos, maioria numérica do país. O próprio Papa Francisco se recolheu humildemente, compadeceu-se da devastação que assola o mundo e, como bom cristão, orou pelos fiéis (e infiéis), sozinho, isolado no Vaticano, numa das imagens mais marcantes desta crise.

No Brasil, no entanto, há um fator extra que não ajuda os cristãos a seguirem o exemplo do Papa: a mão do mercado, vulgo ricos. Algo maior do que deuses, papas, coronas, constituições. Mão firmemente amparada nos discursos de um presidente que parece não se importar com a morte dos trabalhadores – que diz proteger – porque, palavras dele, não é coveiro. Amparada também por uma multidão que diz ser guiada por Cristo, enquanto se distancia da mensagem divina na velocidade da luz. Enquanto escrevo esta mensagem, um amigo evangélico e empresário diz em seu perfil no Facebook que está de luto pelas empresas que fecharam e trabalhadores que perderam seus empregos. Os mais de 220 mortos pelo Covid-19 no Ceará não são assim tão dignos de luto, ao que tudo indica.

Evangélicos apoiam Bolsonaro diante de qualquer absurdo, seja lá qual for, o que é perigoso por si só. E Bolsonaro sabe disso. Sabe que está amparado pelo clube da Bíblia, do qual fazem parte muitos que não a leem, certamente. Acontece que num cenário de pandemia, esse problema se agrava. Doido para se livrar do peso do colapso da economia, o presidente parece ter mesmo a chave do coração dos seus fieis: apoia a reunião em massa dos seus, coloca Deus em tudo e que se dane o bom senso. O povo, então, se rende ao jogo, pede o fim da quarentena, a volta dos empregos e o reaquecimento do mercado, enquanto passa a bola da sobrevivência para Deus, esperando um milagre. Que ainda não chegou.

Ao redor do mundo, 170 mil mortos pelo Corona (números de hoje) não tiveram a chance de ver o milagre acontecer. A vida vencer a morte. Um número que reforça aquele versículo bíblico que diz que “a fé sem obras é morta”. Ou seja, só orar não adianta. Jogar a responsabilidade toda pra Deus também não. Muito menos achar que tem o corpo blindado por Ele, enquanto outros, aparentemente não blindados, morrem aos milhares todos os dias.

Daqui eu suponho que Deus não está lá muito feliz com a ideia de ter que fazer tudo sozinho, enquanto os que se dizem eleitos por Ele tentam atrapalhar o trabalho de especialistas e autoridades que, na falta da evidência da mão divina, têm feito muito para minimizar danos. Arrisco dizer que talvez o Todo-Poderoso esteja esperando o milagre vir de nós mesmos: o momento em que, finalmente, agiremos como sociedade e cuidaremos uns dos outros.

Agora, sim, acredito que orar é importante. Ter fé também. Pensar positivo. Meditar. Acender vela. Colocar o joelho no chão. Falar as línguas dos anjos. Em outras circunstâncias eu diria que fazer jejum também, mas, neste caso específico, o melhor é se alimentar bem e fortalecer o corpo. Todo o resto citado acima é válido, faz parte da nossa busca humana por algo maior, algo que deixe esse mundo menos difícil de encarar. Mas a presunção da superioridade da fé sobre os fatos nos traz muitos problemas, sobretudo em tempos de crises graves.

Além disso, existem outras coisas comprovadamente benéficas, que têm se mostrado eficientes na luta contra um inimigo mortal: lavar as mãos, ficar em casa, ouvir os especialistas, ajudar os mais necessitados, não seguir charlatões como se fosse uma seita, não achar que sua religião o coloca numa categoria superior, exigir que seu pastor não ocupe cargos públicos, não votar em políticos lunáticos e não se aglomerar em multidões gritando “Glória a Deus” e pedindo a volta da ditadura. Esta última, especialmente, previne muitas outras doenças, igualmente devastadoras. E que Deus também nos proteja. Amém.

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Lorena Portela é jornalista e redatora. É cearense, como Belchior. Viveu em Lisboa, terra de Fernando Pessoa, por quatro anos e hoje mora em Londres, cidade de Virginia Woolf.

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