Alpendre poesia

Dois poemas para o fim do mundo, de Ana Maria Vasconcelos

I.
da clausura, onde as horas roem
as pegadas ainda nos sapatos
limpíssimos
não estou, e abafo
com as coxas teus ouvidos, a saber
desse ângulo
(nunca te disse) teu rosto parece
dois versos do Pasolini.

II.
tarefa inútil, catar arroz no caos: dizer
à tua falta, é o que me sobra
dizer não diz
e ainda assim tento pétala por pétala este buquê de eu-te-amos sem relevo
– teu nome, esse eclipse –
procuro em gavetas o conceito exato, o remate, a explicação de todas
as coisas ou só
da minha profunda vulnerabilidade atrás da meia mal lavada e esbarro
(inútil)

coço a minha cabeça num gesto automático
o ruído me avisa que não é a tua, e isso dói;
a unha por dentro, afundada na solidão de ser alguém coçando a própria cabeça
quanto tempo faz desde que os teus dedos?
ergo-me nestas pernas que desafortunadamente são as minhas
engulo esta saliva que não é a tua, existo este sangue que não é o teu
(quis requentar teus percursos, beber o caldo velho)
acumulo dores e respiro teu nome, tão fresco como a manhã ainda azulada antes de arder, e arde.
varro as tuas cidades e entupo meus poros com o lixo
recolho relíquias para deixá-las de lado, como conchas da última ida à praia
(já cacos esquecidos na prateleira, sem função)
porque não me contam a minha história
e sou eu o que procuro ali desde o teu nascimento

(abstêmia, espero com magreza o novo lote da tua presença
antes que o mundo.)

***

Ana Maria Vasconcelos (1988, Maceió/AL) escreve, ensina e pesquisa literatura e outras artes. Doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp), publicou Grão (2014) pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, além de poemas em revistas como mallarmargens, Germina e A Bacana. Também publica no instagram: @longarina.s

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