Coluna Romero Venâncio

Nota sobre Hilda Hilst nesse 21 de abril de 2020

Por Romero Venâncio – 21/4/2020

Hilda Hilst nasceu em Jaú, São Paulo, em 21 de abril de 1930. Era filha do poeta, jornalista e fazendeiro de café Apolonio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso. Seus pais se separaram em 1932. Em plena Revolução Constitucionalista, a mãe, que já tinha um filho de um relacionamento anterior, se mudou para Santos. Em 1935, seu pai foi diagnosticado com esquizofrenia paranóide.
Já em 1937, Hilda ingressou como aluna interna do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo. Em 1948, assim que ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles, que se tornou sua amiga de toda a vida. A produção literária de Hilda Hilst começou ainda em São Paulo, com o livro de poemas Presságio , em 1950, e Balada de Alzira , em 1951. No ano seguinte se formou na USP.
Em 1964, na Ditadura Militar, Hilda decidiu deixar os agitos de São Paulo e passou a viver na sede da Fazenda de sua mãe em Campinas. Dois anos mais tarde, a Casa do Sol, que estava em construção em uma parte da propriedade, ficou pronta. A casa foi planejada minuciosamente para ser um local de inspiração artística. Lá, ela recebeu diversos artistas e escritores, como Caio Fernando Abreu e Bruno Tolentino.
Assim que se mudou, passou a viver com o escultor Dante Casarini, com quem casou dois anos mais tarde. O divórcio aconteceu em 1980, apesar de continuarem morando juntos. Na nova casa, Hilda se dedicou totalmente à produção literária, tendo escrito ali cerca de 80% de toda sua obra.
Dona de uma linguagem inovadora e abrangente, Hilda produziu mais de quarenta títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários do Brasil, como o Jabuti. Criadora de textos em que atemporalidade, real e imaginário se fundem, e os personagens mergulham no intenso questionamento dos significados, Hilda retratou o humano como ninguém.
Olga Bilenky, artista plástica e amiga pessoal da escritora, é uma de suas herdeiras e mora atualmente na Casa do Sol. “A Hilda era o sol da Casa do Sol. Uma pessoa muito generosa, muito afetiva, muito expansiva. Uma pessoa muito especial. Me lembro da Hilda no escritório dela com aquela mesa cheia de livros abertos e rodeada de amigos”, rememora. Ela refuta a tese de que a escritora buscava solidão na casa.
“Quando ela veio morar aqui muita gente achou que era a busca da solidão do escritor, mas foi o contrário. A Hilda foi produzir a obra, construiu a casa para focar, mas sempre viveu rodeada de amigos”, destaca. O legado Hilda sempre foi um sucesso de crítica, mas o público pouco tinha acesso a toda sua obra. “O livro não era distribuído. Isso é um gargalo que não era da Hilda.” A história do velho gargalo do sistema editorial brasileiro… Mas isto é a outra parada.

Dois poemas marcantes na trajetória da autora:

AMAVISSE

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

TENTA-ME DE NOVO

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

***

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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