Entrevista

Em três dimensões: Uma entrevista com Zéis

Foto: Anderson Severo

Conte um pouco como começou a sua ligação com a música.

Tenho recordações de que ainda na infância comecei a despertar maior interesse por música. Meu pai ouvia muito Raul Seixas, Tim Maia, Benito di Paula… esses são artistas que eu me recordo bem dessa época. Mais tarde, já na adolescência eu comecei a ouvir muito Legião Urbana, porque meu irmão tinha o álbum “As quatro estações”. Aí eu ouvia tudo que chegava até mim do rock nacional e internacional: Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Nirvana, muita banda, basicamente de rock. Nessa época foi quando comecei a aprender a tocar violão em casa com o auxilio das revistinhas de cifra. Foi nesse período que comecei a ter um interesse não só de ouvir e reproduzir, mas de começar a compor minhas músicas.

Você lembra qual foi a sua primeira composição?

Eita. Não tenho certeza. Mas a primeira que me recordo é uma canção chamada “Do mundo”.

Quais são hoje as suas principais influências musicais?

Pra esse disco eu ouvi muitos cantores da música folk internacional: Tim Buckley, Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, principalmente os dois primeiros da lista. Ouvi também muito dos que considero grandes representantes da música folk aqui do Ceará que são o Belchior e o Ednardo. Eu queria uma produção pra esse álbum que utilizasse muito de instrumentos acústicos, como o violão, o banjo a gaita e que tivesse também muita guitarra com slides e piano. Apesar de usar recursos da cultura digital (plugins e softwares) eu tava mirando no analógico.

E sobre outras influências artísticas, quais você destacaria?

Eu tenho visto muita série. Gosto muito das séries “Dark”, “The Handmaid´s Tale”, “Mr. Robot”, pra citar algumas. Gosto muito dessas produções que nos transportam pra realidades possíveis e que nos colocam numa posição reflexiva sobre nosso entendimento de realidade. Tento fazer isso também no meu trabalho. Claro observo muito também as trilhas sonoras. Acho que no cinema, e nas séries consequentemente, é onde a música contemporânea conseguiu mais espaço. Se a gente observar existe muita produção de Teatro Contemporâneo circulando, Arte Contemporânea nas galerias e nas ruas, mas a música que de fato circula ainda é sobretudo a canção produzida dentro dos parâmetros tonais. No cinema e também no teatro a Música Contemporânea consegue de fato existir, acho que por conta dos elementos visuais que ajudam a deixa-la mais tragável. Acho que o rock tenta por vezes, através do experimentalismo, se colocar nesse papel de produzir algo dentro da lógica contemporânea, mas a maioria dos trabalhos não fogem muito da lógica que o mercado acolhe mais.

Como é o seu processo de composição?

Varia muito pra o que eu tô compondo. No teatro, as composições são muito produzidas coletivamente e, quando são canções, elas geralmente já partem de uma temática já determinada e as vezes já de uma letra determinada também. Já as minhas composições pro meu trabalho solo partem de outras reflexões e muitas vezes são influenciadas por experiências pessoais. Antes, quando eu não trabalhava de maneira profissional com música, as composições dependiam muito de um momento de “inspiração”, digamos. Hoje, como eu produzo com regularidade, objetivamente reservo algum tempo pra trabalhar nas composições. Umas partem de harmonias que construo, aí depois tento criar uma melodia acompanhada de letra. Outras eu venho com um tema melódico e a partir dele desenvolvo o resto, essas geralmente são as músicas que as pessoas costumam assimilar melhor. É mais raro eu fazer uma letra antes e depois musicá-la, isso dificilmente ocorre. Por isso não acho que minhas letras são poesia ou pelo menos não pretendem ser. O que acontece com certa frequência é que eu parta de uma temática que eu deseje tratar.

Hoje, como eu produzo com regularidade, objetivamente reservo algum tempo pra trabalhar nas composições.

O contexto social e político brasileiro tem influenciado de alguma forma em suas composições?

Acho que sim. É certo que de uns 7 anos pra cá o pessimismo se tornou algo muito forte. Acho que mesmo quando a gente não trata de temas políticos objetivamente nas músicas, o contexto do momento tem influência na atmosfera do trabalho. Quando eu fazia as músicas na época do Capotes Pretos na Terra Marfim, que era uma banda de indie rock que integrei por 6 anos, havia um clima muito mais otimista no ar e isso aparecia na musicalidade da banda. Já meu trabalho enquanto artista solo apresenta muitas vezes preocupações sociais e políticas, sobretudo no meu primeiro disco de 2017. O “Caim” já é um disco que apresenta mais camadas. Acho que o Caim tem três dimensões. Uma pessoal, quando eu falo de questões íntimas e de como o mundo me afeta, outra dimensão mais social, onde trago questões contemporâneas que nos afetam enquanto coletivo e por fim uma dimensão espiritual que discute a relação que a gente tem com forças sobrenaturais e da natureza. No fim das contas essa atmosfera pessimista se apresenta no trabalho porque ele é todo calcado na ideia de fim, o fim também nessas três dimensões que falei anteriormente. Mas o mais importante é que esse fim na verdade é uma possibilidade de recomeço, porque o fim é um rompimento com algo que está estabelecido para a tentativa de algo novo.

O “Caim” já é um disco que apresenta mais camadas. Acho que o Caim tem três dimensões.

Banda Capotes Pretos na Terra Marfim. Foto: Divulgação.

Quando e como começou a sua ligação com o teatro?

Em 2011, eu acho, trabalhei na criação musical de um espetáculo chamado “Entre Sonhos e Lençóis”, que era a partir de poesias de Bertold Brecht, Fernando Pessoa e outros autores e que era produzido por duas amigas a diretora Thais Paz e a atriz Samanta Sanford. Na época eu tinha comprado um contrabaixo e tava criando muitas coisas com ele, quando elas me convidaram (na verdade eu meio que me convidei) eu achei que a sonoridade dele iria cair muito bem pra estética do espetáculo. Então a trilha é basicamente executada toda a partir desse instrumento.

Em sua percepção, o contato e a ligação com o teatro, trouxe algo para o seu processo de composição musical?

Acho que sim, mas antes do meu trabalho com teatro acho que a teatralidade do Raul Seixas já me influenciava. Porque as composições deles muitas vezes tem uma narrativa e ele trabalhava muito com a coisa de incorporar personagens, o caubói fora da lei, o pastor João, o sábio chinês, o diabo, o maluco beleza, pra citar alguns. No clipe da minha música “De preto em blue”, que da título ao meu primeiro álbum, eu interpreto um ET que recebe a missão de destruir a raça humana, então ele decide descer a Terra pra fazer uma inspeção pra ver se ainda vale a pena apostar na humanidade. No meu trabalho novo eu apresento o Caim, que é uma parábola bíblica que remete aos tempos primórdios da humanidade. Pra apresentar esse personagem a gente se preocupou com uma visualidade que tivesse essa dimensão meio mitológica. E aí a Renata Froan produziu a arte do disco onde ela traz esse ser que é meio humanoide. Acho que sou influenciado muito pelo Teatro no que se refere as performances ao vivo. Sempre tento trazer pra perto do processo profissionais pra cuidar de elementos como figurino, a luz, o cenário, que contribuem pra estabelecer uma coerência estética com a musicalidade e pra facilitar o processo de imersão do público.

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Quais foram os principais festivais de música que você participou?

Eu toquei em vários festivais juntando o período dos Capotes, Minha carreira solo e também como guitarrista da Luiza Nobel, aqui a lista de alguns deles: Manifesta, Festival de Culturas da UFC, Mostra Petrúcio Maia, Conecta, Feira da Música, Maloca Dragão, Grito Rock, A reedição da Massafeira, WOW, Festival Elos, I Music.

Você destaca quais desses festivais como os mais importantes em sua carreira?

Vou citar um de cada fase: O Maloca Dragão em 2016, porque foi a oportunidade de tocar em um festival importante a nível nacional e pra premiar os Capotes que vinha numa crescente dentro da cena. A Feira da Música em 2017, porque pude me apresentar com meu trabalho solo pra um bom público dentro de um festival também de caráter nacional. O Festival Elos em 2019, tocando com a Luiza Nobel no mesmo palco da Elza Soares, depois do show a gente ainda conheceu ela, foi incrível.

Como foi o processo de produção de seu novo álbum?

Eu reuni composições que vinha escrevendo nos últimos anos, ou que eram mais antigas, mas que dialogavam com a proposta que eu tava querendo pro disco, no total foram 11 músicas. Apesar de ter composições de vários períodos da minha vida, a produção dele começou efetivamente em meados de 2018, quando eu e o Artur Guidugli, que é baterista e co-produtor do disco, começamos a criar os arranjos das músicas e a gravar as guias. A gente começou com o Artur gravando as baterias no “Comu Studio”, que foi um estúdio que foi parceiro do início ao fim do projeto. Aí a gente seguiu gravando o restante do instrumental. Primeiro gravei os baixos e os violões, depois muitas guitarras base e gaitas. Depois que a base instrumental já tava levantada o Tiego Martin gravou as guitarras com slides e também vários dos solos do disco. A guitarra dele deu uma alma mais rockeira pro disco. Depois seguimos com o Artur gravando as partes de piano e percussão. Eu toco piano em apenas uma única faixa que é a faixa instrumental “Na sua ausência”, que encerra o álbum. E por fim gravei todas as vozes. Esse processo todo demorou mais de um ano, nesse meio tempo também fiz uma campanha de financiamento coletivo pra custear a parte de mixagem e masterização e também a produção do material gráfico do disco: Pôster, Camisas e Fotos de Divulgação. Ao final de todo material levantado, a gente partiu pra mixagem e masterização do disco que deve ter demorado mais ou menos seis meses. O Titi, do Comu Studio, foi quem mixou. Eu fiquei durante todo esse período em diálogo com ele pra ir fazendo os ajustes.

Capa de “Caim” com a chamada para o lançamento. Arte: Renata Froan

“Caim” foi gravado quase que integralmente em seu homestudio. Comente sobre essa experiência

Poisé, com exceção da bateria, que foi gravada em estúdio profissional, todo o restante do disco foi gravado com meu equipamento, ou com equipamento emprestado. O meu homestudio se chama “O Pássaro”, é o que eu chamo de estúdio fora da gaiola, porque ele não é necessariamente um lugar físico. Quando a gente precisava gravar algum instrumento com o microfone condensador, que capta muita ambiência, a gente gravava numa sala da escola de música BSB Musical, onde a gente dava aula de música na época, eu levava minha placa de áudio, microfone, etc, e o Artur levava o computador dele e fazíamos a gravação lá. Já guitarras, baixo, alguns pianos a gente gravou no meu apartamento. É uma experiência muito legal porque a gente passa a ter dimensão de todo o processo e aprende pra caramba, mas é extremamente cansativo. Ainda aconteceram alguns imprevistos como o amplificador de guitarra do Tiego que queimou em uma das sessões de gravação, isso atrasou pra caramba o processo. Quando você ouve o resultado final você fica lembrando do processo e fica feliz porque conseguiu fazer algo muito legal mesmo com recursos escassos.

Como irá ocorrer o lançamento do álbum? Será realizada alguma programação online?

Sim. O disco está nas plataformas de música a partir do dia 22 de abril. Neste dia faço uma live no meu canal do Instagram, zeis_musica, com a participação da galera que participou da construção do disco. Aí faço mais duas lives tocando músicas do disco e outras da minha carreira, uma no dia 24 de abril pelo Centro Cultural Belchior e outra no dia 25 de abril pelo Sesc Ceará.

Em 2017 você lançou o seu primeiro álbum solo, “De Preto em Blue”. Quais são as principais diferenças entre o Zéis do primeiro álbum e agora, com “Caim”?

Acho que eu passei por muita coisa de lá pra cá, coisas que fizeram com que eu mudasse minha percepção sobre mim mesmo. Acho que isso mudou minha maneira de enxergar meu trabalho e fez com que eu me sentisse mais à vontade pra apresentar no “Caim” algo de mais pessoal. No “De preto em blue” eu tava muito conectado com coisas que me atravessavam, mas que estavam externas a mim e ainda muito preocupado em querer apresentar uma imagem de mim que covinha mais. Por exemplo, eu já vivenciei algumas situações de racismo por ser preto. Algumas situações mais moderadas e outras mais graves. Por eu ser um artista preto penso que as pessoas muitas vezes esperam que eu vá tratar de temáticas ligadas a representatividade preta ou de racismo. Esperam ainda que eu apresente um repertório que traga referência da musicalidade afro-brasileira. No “De preto em blue” eu entreguei um trabalho que dialoga com todas essas questões. Foi massa, mas apesar de considerar isso algo muito pertinente e importante no “Caim” eu decidi que eu não queria abordar mais isso. Nesse trabalho eu preferi dá mais vazão pra subjetividades outras que têm uma relação mais com minhas questões pessoais, que naturalmente não estão isoladas do mundo exterior. Acho que daí vem aquilo que eu falei anteriormente sobre aquelas três camadas que este trabalho apresenta. As dimensões pessoal, social e espiritual.

Eu já vivenciei algumas situações de racismo por ser preto. […] Por eu ser um artista preto penso que as pessoas muitas vezes esperam que eu vá tratar de temáticas ligadas a representatividade preta ou de racismo.

Em tempos de quarentena, como você tem lidado com o isolamento social?

Eu tenho lido menos do que eu desejava, assistido mais do que deveria, produzido não mais que o suficiente e dormido até que muito bem, apesar dos fascistas estarem soltos por aí.

Quais bandas ou músicos solo você tem ouvido nesses últimos dias? Algum álbum em especial?

Apesar de não ter o hábito de ouvir playlists no modo aleatório, geralmente eu ouço álbuns inteiros, ultimamente tenho ouvido bastante duas playlists da música independente em que eu estou incluído. “A melhor playlist de Fortaleza” que tem mais de 50 trabalhos artísticos de Fortaleza e playlist “Stay Home Safe” que tem também um monte de bandas do Brasil e da Argentina.

No último mês foi lançada A melhor playlist de Fortaleza, que inclusive você inclusive participa. Qual a importância de uma iniciativa como essa em período de isolamento social?

Olha aqui eu preciso ressaltar o esforço do Berg Menezes que foi quem idealizou a playlist e juntou todo mundo e do Álvaro Abreu, da banda Rematte, que trabalhou muito na divulgação. Acho que tem sido uma experiência bastante democrática e o mais legal é que para além da playlist os artistas têm se comunicado entre si e contribuído com os trabalhos uns dos outros. Acho que essa união é fundamental num momento como esse.

Qual a sua percepção sobre as alternativas (lives, cursos online etc) encontradas por alguns artistas durante o isolamento?

Eu penso que é fundamental encontrar outras maneiras de atuação e essas lives e cursos online são as saídas mais instantâneas. Acho que aos poucos podem surgir aprimoramentos. Tenho achado louvável os esforços que alguns espaços culturais e órgãos incentivadores de cultura têm tido no sentido de criar estratégias, sobretudo em forma de editais e contratações de apresentações via lives, para ajudar os artistas no enfrentamento dessa crise. Acho que o abismo entre os artistas do mainstream e nós, reles mortais, fica bem evidente nesse momento. Na cena independente o que ainda impera é um esforço enorme pra conseguir alguma pequena audiência. Isso mostra que não é uma crise no mercado cultural global que pode proporcionar uma nova maneira de fruir arte, ou pelo menos com a fruição de novos trabalhos artísticos. São muitos anos de uma indústria que ataca pesado no imaginário e nas subjetividades das pessoas estabelecendo parâmetros em relação ao que se deve ou não ser consumido.

Quando a quarentena acabar, qual vai ser primeira coisa que você vai fazer?

Devo querer ficar a maior parte do tempo que eu puder por perto da Renata.

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