Alpendre poesia Rio Grande do Norte

Live 17 poetas do RN – 17/4: Carito Cavalcanti, Gessyka Santos, Marina Rabelo e Thiago Medeiros

ADRIANO ADRIÁTICO

Adriano se perdeu em sua Veneza interior. Adriano, o imperador? Aquele de Roma? Ou aquele jogador? Ou aquele poeta potiguar? Dizem que no pós-modernismo a referência se recria. Então prefiro o poeta de Alexandria. Cidade do interior do Rio Grande do Norte. Eu nunca estive lá. Qualquer dia vou bater lá. Não vou bater à máquina, pois agora todos usam computador. Nem vou bater em ninguém. Nunca fui de brigar. Só vou bater lá. A língua portuguesa tem dessas coisas. E meu espírito aventureiro também. Um dia eu estava na estrada de Mossoró para Natal e ao avistar uma serra resolvi entrar. Só pra ver onde ia dar. Só pra ver e sopra o vento. A língua portuguesa tem dessas coisas. E meu espírito aventureiro também. Então entrei naquela estrada só pra ver onde ia dar. Deu em Santana do Matos. O vento não soprou, mas a serra é bonita. A geografia tem dessas coisas. E eu pensava que era Santana dos Matos. Mas parece que nesse Mato não tem cachorro, e sim tem uma pessoa historicamente importante: o português Manoel José de Matos. A história tem dessas coisas. Talvez o jornalista Tácito Costa possa me explicar. Ele é de lá. Eu queria ser de nenhum lugar. E eu entrei nesse improviso só pra ver onde ia dar. Meu texto tem dessas coisas. Um texto sobre Adriano Adriático que se perdeu em sua Veneza interior. Um texto filho do trocadilho e da aliteração. Mas filho porque qui-lo. Eu gosto. Minha poesia tem dessas coisas.

Carito Cavalcanti (Carlos Estevam Dantas Cavalcanti), 56 anos, é um artista multimídia: cineasta, poeta, letrista, vocalista, compositor, fotógrafo, ator, performer e arquiteto. Nasceu em Natal-RN, em 1964. Como poeta lançou dois livros de poesia pela editora “Jovens Escribas”: “Atestado de Órbita” (2012) e “Entendeu ou quer que desenhe?” (2017) – esse último realizado em parceria com o artista plástico Flávio Freitas que fez as ilustrações.

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seus movimentos leves
carregam em si dinamites
fazendo tudo que é chão
dançar pelos ares
como pequenas bailarinas
furta-cor

Gessyka Santos, 29 anos, graduanda em Produção Cultural e poeta autora do livro Autópsia (2019) e dos zines; “Peito aberto por metro quadrado” e “Ponto e vírgula”. Também possui o zine “Cópula”, em parceria com Gonzaga Neto, e Anzóis e Ginga com o mesmo e Guilherme Henrique.

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tão engraçado
nós dois sozinhos por aí por aqui
tão engraçado
moramos na mesma cidade
mas a gente nunca se vê
tão engraçado
temos tanto a dizer um ao outro
mas a gente não diz
tão engraçado
quanto um bicho ferido
agonizando na linha do trem
do meu coração que chora e ri

Marina Rabelo é formada em Engenharia Química pela UFRN, agora coleciona poemas e silêncios Autora do livro “das coisas que larguei na calçada” (Caravela Selo Cultural, 2016); e dos zines todo tipo de ardor (2018), “desde que vim, o amor é aflição” (2019) e “CRUA” (2020), todos pelo Selo Insurgências Poéticas. Colaboradora das peças Memórias do Alecrim (Natal/RN, Agosto/2015) e de João ou Eu só queria ver os pássaros (Natal/RN, Novembro/2016). Desde 2016 compartilhando das dores e delícias no Sarau Insurgências Poéticas junto a outros artistas que acreditam no “amar e mudar as coisas”.

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joão do sertão

a pino
o sol arde na pele
desde
o dia da tua partida
meu corpo só lateja.

arranhei a pele
ate ser osso
continuo a travessia
até não sobrar
nenhum ferimento
de você
e desse fim.

Thiago Medeiros é ator, poeta e mediador cultural. Nasceu no bairro do Alecrim, em Natal/RN no final dos anos 80. Autor de Meio-Dia (2018), Para Eu Parar de Me Doer (2016) é do inédito Ardência. Criou e mantém o projeto Insurgências Poéticas junto com outros artistas, em 2016.

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