Colaboradores Stéfany Caldas

O que você faz para aliviar o stress?

Eu corro.
Então você é uma dessas pessoas que anseiam por produtividade?
Seria o mesmo que fazer faxina na casa para espairecer.

A conversa é dos personagens Mel e Jack, em um dos primeiros episódios da Virgin River, série da Netflix que assisti ainda ao final do ano passado. Sim, antes de começar esse texto quero dizer que eu sou uma dessas pessoas que acreditavam que fazer faxina na casa inteira em um único dia era uma das formas de aliviar o stress acumulado da semana. E quero dizer que eu era porque a minha relação com o Covid e esse isolamento social me fizeram rever tudo. (Não vai embora não, eu prometo que não vou mais falar diretamente nesta palavra que a gente tanto ouve diariamente).

Acontece que, atualmente, além de sermos ensinados a lavar a mão, não escutar o presidente, usar álcool em gel e continuar em casa, estamos sendo bombardeados por lives, videoconferências e cursos à distância. De gente que quer ajudar, e de gente que também está com medo de ser esquecido.

Nunca esteve tão ao nosso alcance aprender um novo idioma, encontrar um novo hobby, ler, iniciar uma série, ver um filme, fazer até uma graduação EAD. Inversamente, nunca foi tão difícil – ao menos para mim – manter o que chamam de produtividade nestes dias de isolamento.

Humberto Gessinger, compositor e instrumentista, tem realizado pocket shows pelo Youtube para os fãs. Num deles, em um bate-papo durante o intervalo de algumas canções, foi perguntado aos fãs sobre as últimas leituras – ele é conhecido por aqueles que os acompanham como alguém que está sempre com um livro a tiracolo, lê o tempo inteiro – e respondeu que, particularmente neste período, tem lido menos, devido ao “clima de tensão no ar”. É sobre essa mesma sensação e desobrigação em estar produtivo que eu gostaria de tratar.

Nosso modelo de comportamento social absorveu que é completamente nocivo estar em nossa zona de conforto. A competitividade do mercado de trabalho nos ajudou a entender que temos a constante necessidade de nos movermos, os conhecimentos sempre se ampliam, as novidades chegam, quem não se move junto, fica atrás falando sozinho.

A obsolescência programada que já observamos constar nos objetos e itens comercializados, estão também em nosso modelo profissional – ser um funcionário modelo é ser um funcionário multitarefa, produtivo, aquele que otimiza seu tempo das melhores formas possíveis, e, com isso, economiza inclusive dinheiro.

Como diria Eliane Brum, parecemos “exaustos e dopados e correndo”:

[…] Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco para alcançar a meta de trabalhar 24X7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. (BRUM, Eliane, 2016).

O fato é que, com todas essas cobranças a que estamos sujeitos – ser socialmente bem relacionado, profissionalmente realizado, fisicamente atrativo, afetivamente bem sucedido – jamais chegaremos nem perto da nossa zona de conforto, afinal, existe um alarme que não irá parar de tocar, acionando a próxima área a ser solucionada. Com isso, a gente naturalmente faz um exercício de “prioridades”, e começa a negligenciar algumas coisas. O tempo do ócio parece ser o primeiro deles.

Estamos nos esquecendo de que esse período é fundamental para a nossa recuperação mental, ou, a tal “saúde mental”, tão discutida atualmente, mas ainda de forma individual que coletiva. Se eu estou constantemente me cobrando para dar conta desta ou daquela área da minha vida, eu não saberei lidar com o tédio. E é sobre isso que estamos nos dando conta nesse período em que não é permitido estar em contato social fisicamente.

Dialogamos por internet, trabalhamos em sistema de home office, defendemos nosso direito de prevenção de doenças ao ficar em casa, enquanto muitos empresários se manifestam contrário e ordenam que “tire a bunda da cadeira”, como se, mais uma vez, fosse tranquilo o tempo que passamos. E como se, caso estivéssemos realmente descansando, fosse isso considerada uma coisa negativa. Trabalho é para incomodar?

Ainda não entendemos que a vida segue fluxos e conta com variáveis que não estão sob nosso controle – ainda que dominemos todas as estatísticas e saibamos calcular riscos – e que, contrariados ou não, estamos lidando agora com a suspensão da vida que conhecíamos até aqui. Tentando nos adaptar e lidando com novas questões.

No meio de tanto barulho, de tantas possibilidades de caminhos e de tanta cobrança, o que a gente precisa é de um pouco de silêncio e de busca por ar.

***

Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

%d blogueiros gostam disto: