Alpendre poesia

Dois poemas de Marcio Dal Rio

Quarentena

O corpo teso, coberto por capsulas de café
Desde que me tornei um cadáver vivo
Minha casa, meu vaso, meu cárcere
Vivo a ver a vida vazia, defenestrada
A ver o vazio, a rua vazia, planta seca
Cubro teu corpo com cápsulas de café
Como um jeito ingênuo de te manter viva
Deito com teu cadáver toda noite, digo dorme bem
Retiro as cápsulas, te cubro com o cobertor felpudo
Enquanto meu sono te vela pela madrugada adentro
Enquanto a tosse é a minha única companheira.

*

Conversas com o demônio

Proteja-se
Isso é tudo o que me diz, proteja-se?
Eu sei que pretende acabar com minha vida
Eu só não esperava que surgisse assim
Invisível
Meu corpo tomado de demônios invisíveis
Colocam-me acamado e me dizem
Proteja-se
Sentença que mingua meu corpo
Febrio e trêmulo, tomado por delírios
Proteja-se
É minha vida que escorre,
É minha vida que escarra,
Da boca que não beija

***

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Marcio Dal Rio nasceu em Mococa-SP, em 1973, e vive em São Paulo. Participou das coletâneas “Palavras de Poetas” 3 e 4 (Editora Physis, 1994 e 1995), “Transitivos” (Off Produções Culturais, 2011), “Curva de Rio” (Editora Giostri 2017) e “Carne de Carnaval” (Editora Patuá 2018). Em 2016, venceu o Premio Maraã de Poesia, promovido pela Editora Reformatório, com apoio da Academia Paulista de Letras, por meio do qual teve seu primeiro livro solo publicado, “Balada do Crisântemo Fincado no Peito” (Reformatório 2017). Desde 2006, escreve o blog Bloganvile, atualmente alojado no site http://www.marciodalrio.com.br.

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