Coluna Romero Venâncio

Utopia Novos Baianos. Nota noturna

Foto: Divulgação

Por Romero Venâncio – 14/4/2020

O motivo desse textinho foi a morte de Moraes Moreira na segunda, 13/4. Mas não é sobre uma pessoa (singular!) que queria dizer algo. Gosto demais da música de Moraes Moreira pós-novos baianos. Gosto/Gostava demais do lirismo do Moreira. Sempre o via como um poeta da canção. Gosto de ler as suas composições antes de escutá-las. Soube por aqui que seu último escrito foi um cordel. Sintomático isto… Mas nessa quarentena tenho pensado em algo maior do que uma pessoa (famosa ou anônima). Pensado em projeto coletivo como gancho do desejo (mesmo que esse projeto tenha sido derrotado na passado!!!).

A leitura mais uma vez que fiz de dois livros a semana passada me voltaram a pensar nessas coisas. Foram eles: “Impressão de viagem: CPC, vanguarda e desbunde” de Heloisa Buarque de Hollanda e “Anos 70: poesia & vida” coletânea organizada por Alexandre Faria. Esses dois livro e o filme: “Filhos de João: o admirável mundo novo baiano” de Henrique Dantas me fizeram pensar muito e em muitas coisas graves e simples.

A morte de Moraes Moreira, os dois livros e o filme me embalaram num tom saudosista, romântico e contraditório. Um paradoxo: O momento não é para esses temas de utopias e sonhos. Tudo tá muito noturno e com gosto amargo de derrota pessoal e histórica. Mas ao mesmo tempo nossas inquietações colocam essas questões utópicas. Num verso de Cacaso que li e reli vária vezes tá algo disso tudo:

TEMPO
Um dia nos lembraremos desse tempo se lembranças
houver
que estivemos nesta sala que algumas vezes
trocamos
éramos mais felizes mais moços
um dia nos levaremos deste tempo se levar
houver.

Me apeguei ao “se lembranças houver” – e me veio os Novos Baianos.
Sabemos a história dos novos baianos: começo, meio e fim. Acabou. Se separaram. Mas vejamos: não é porque uma causa foi derrotada que nós ajuizamos que ela estava errada. Não existe essa conexão como necessária. Algo pode ter sido derrotado e ter sido bonito e potente… Sempre acredito que eles abriram um “portal” e que abre e fecha na história. Que acontece poucas vezes, mas que acontece e sempre tem pessoas que têm as chaves para abrir.

Portal novos baianos

A ideia de ter um projeto de vida. Esse projeto de vida ser um projeto estético/artístico. Esse projeto deve ser realizado em grupo. Mas precisamos tá junto. Morar junto. Comer junto. Partilhar coisas e vidas. Parece romântico? parece um teorema? É. Mas é bem mais que isto. Essas coisas aconteceram.

Para os novos baianos foi em Salvador; num apartamento no Rio de Janeiro; num sítio ainda no Rio ou em São Paulo. Viveram e carregaram esse projeto. Produziram discos. As fotos revelam uma simplicidade largada, franciscana e utópica em tudo. Assim entrou em minha vida essas coisas nos anos 80 quando já não mais tinham existência.

Todas as vezes que volto a essa história, volta em mim esse sentimento de que se precisa de pouco para grandes coisas. Quando os novos baianos perceberam que precisavam de mais dinheiro para cada um e com o dinheiro veio a desejo de ser celebridade na televisão e rádio, o projeto acabou e virou outra coisa. Cada um na sua. Olho isto sem moralismo ou condenação. Foi assim e isso eles dizem no próprio filme.

Tá em curso um projeto de extrema direita nesse Brasil. Uma epidemia de um vírus novo bate a porta e pode tornar-se uma tragédia. O país se tornou mais careta e egoísta em seus costumes e volta a seduzir valores tradicionais… Jovens com vinte anos defendendo ditadura e se entregando a alucinações religiosas delirantes… Tudo que não fazia parte do projeto dos novos baianos.
Mas quem sabe se o discreto charme dessa gente libertária não esteja ai: quando a coisa está no seu momento mais obscuro de trevas, a utopia envia seu bilhete de passagem. Quem sabe? ou como já disse um outro dessa mesma época: vivamos todas as horas do fim…

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Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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