Alpendre poesia Rio Grande do Norte

Live 17 poetas do RN – 10/4: Anna Zêpa, Eveline Sin, Leonam Cunha, Maíra Dal’maz, Maria Luiza Chacon e Regina Azevedo

pelas peles
o abraço dela
cemitério de saudade

pela fenda
sinto o mundo
ela em mim ainda é tarde

mordo o vazio
dou nó no pingo
do que finjo entender

canto no cio
cheiro o destino
neste fim de bem querer

Anna Zêpa atua nas expressões de teatro, literatura e cinema. É autora dos livros “Primeiro Corte” e “aconvivênciadosnossosrastros” pelo selo DoBurro; “Da perda à pedra a queda é livre” pelo selo Demônio Negro; e “Instantes Manhãs” pelo editora comma. No cinema dirigiu o curta documentário “Adelaide, aqui não há segunda vez para o erro” (Arenga Filmes), sobre a escritora paulista Adelaide Carraro.

*

Luiza 1924

quando soube
que seu coração estava fraco
o meu cambaleou,
quis cair em você,
entrar
corpo adentro.
caberíamos folgados,
o seu coração e o meu,
no continente peito seu.
é que pessoa como você,
forte com a vida,
gasta mesmo o coração,
quem sabe dois dão conta,
dão, num dão?
quando soube
que faltava ar pra você,
respirei cada vez mais forte,
pra guardar o máximo de ventania
que couber em mim
e soprar em você.
quando nos encontrarmos
será como aquelas catástrofes naturais,
conheceremos a força dos ventos.
tudo preso aqui.
só posso respirar quando nos
olharmos.
minha falta de ar
é todo ar que guardo pra você.
quando soube
que tinha água no seu pulmão,
pensei,
água procura mesmo jeito,
caminho
pra desaguar no mar
e você é esse mar inteiro,
cada vez mais cheio.
denso.
calmo.
calma,
meu mar.

Eveline Sin é artista e poeta. Nascida em Natal, Rio Grande Do Norte, em 19 de fevereiro de 1982. Desenvolve sua pesquisa artística, principalmente com o graffiti, desde 2007, onde descostura dores e agonias com muita força e personalidade do feminino. Já como poeta é autora de “Capim Santo – Eveline Sin Até Aqui”, ano 2017. “Manga Espada”, ano 2015. “Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem”, ano 2014. “Devolva Meu Lado De Dentro”, ano 2012, “Ensimesmada” – coleção PortaPoema, ano 2012. Seu último livro é “FEVEREIRO”, lançado em 2018. Em 2016 criou a AREIA inutensílios, que são seus poemas em colares. Em 2018 lançou o disco 37GRAUS – poesia em vinil, juntamente com a poeta Anna Zêpa, com quem também possue o espetáculo literomusical 37GRAUS. Ainda é “Menor Slam Do Mundo”, “Sarau DoBurro” e “Selo DoBurro”.

*

POEMA PARA O BOY QUE QUERO BEIJAR

Quando te olho pela casca não te vejo
te vejo é quando te olho com olhos de noite
e busco teus escombros de luz interior.
É que eu te chupo com o sorriso de minha retina
é que eu te toco com a palavra dilúvio
é que eu te amanheço com uma mão
que flutua e não chega nunca a aterrissar

E com os olhos quase não tenho certeza se te vejo:
vou ter que inventar um telescópio de mansidões.

Leonam Cunha é poeta, com três livros publicados (Gênese, 2012; Dissonante, 2014; Condutor de tempestades, 2016) e textos esparsos que rodam por algum lugar do mundo. Por algum acaso, também é graduado em Direito e mestre em Estudos de Gênero.

*

Itinerário para as cinzas

parece que este bar já vai fechar
e há sempre uma canção para contar…

(Tom Jobim)

o domingo de nossos dias
preenche o que ouvimos:
sons desconhecidos e acertados
na escuridão oblíqua da sala de estar

o pouco de duran duran,
de café,
e de suede

neste dia de nossas vidas
qual clichê doce novembro
transmuta-se em um quê de glória eterna
e também de despedida

um tanto de nostalgia,
incêndios,
e de retinas encarnadas

o vale do pitimbu marcou nossos carros e
brônquios,
em uma irreconciliável
ternura

no entanto,
o cenário de buracos, serras, pássaros e árvores
começa, então,
seu itinerário para as cinzas

Maíra Dal’Maz tem 28 anos, é professora e mediadora do Leia Mulheres Natal/RN. Poemas: mairadalmaz.blogspot.com

*

O olho

Teu nome Esclerótica, chego perto toco o teu nome que também é membrana parte corpo o nome que é Coroide ou Esclerótica ou imagino as imagens de dentro penso em qual local estão armazenadas e sei que no olho está teu cofre ou rio, Esclerótica, Coroide, acima do nariz esse teu nariz aquilino circuncisões do teu rosto teu olho me olha sério no horto ou no teu olho sério está também minha solidão a inaugurante a original a primeira entre as solidões a progenitora a matriarca a patriarca também mas a matriarca principalmente a de que da água veio o mundo todo redondo e bom com criaturas terrestres e marinhas que antes eram terrestres teu olho Horto das Oliveiras tu Esclerótica, Coroide tu te sendo ao avesso teu olho sério que depois sorri para mim porque pisca ou lacrimeja ou mostra para mim o que olhar porque teu olho antes de olho foi ancestral dedo indicador de Adão e tu Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea apontavas para que eu visse cores as cores adensando minha visão a minha mão queixosa e sempre disposta a mais receber do que dar ou a minha mão branca erguida sendo um pedaço de cor para cima depois dizem que cão só vê em preto-e-branco Esclerótica, Coroide, minha Mácula Lútea queria ver que nem cão depois ladrar porque vi ou ladrar porque nunca ladrei chego perto de ti teu cofre ou rio ou planta carnívora está mais perto de mim agora mas não sei embora desconfie que haverá o dia entre todos os dias em que recostarei um dos meus dedos sobre o teu olho ou teu horto e tu Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea irá fulgurar todas as espécimes florestais evocando primeiro planta carnívora meu dedo no teu olho fecho teu olho mas fecho o teu olho com o meu dedo-cadeado dentro e primeiro teu olho que antes de ser olho foi dedo indicador vai engolir meu dedo e vai doer ou eu vou dormir acidentalmente com o dedo no teu olho que antes era dedo indicador e vou dormir o sono que não permite que eu sinta dor um sono entre tantos outros um sono-hanseníase e teu olho que antes era dedo indicador vai absorver cada um dos meus dedos até que resulte em minha mão e minha mão dará lugar à sua grandiosa fome ficarei sem uma das mãos o ato de escrever será mais árduo e escreverei com a boca porque vi outro dia uma mulher que pintava com a boca ou vou encostar o topo de minha cabeça no teu olho Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea para que teu olho me degluta inteira em ritual antropofágico teu olho teu dedo indicador teu olho tu Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea estrutura de músculo e líquido irá adquirir de mim as particularidades a minha força trapezista em que inscrevo minhas acrobacias lanço-me aérea e compenetrada para de cócoras chorar e chorar depois no camarim era trapezista e esquecida e tinha segredos segredos que coexistem detrás dos teus olhos no teu cofre aquele que desejo ter nas mãos que mais recebem do que dão que desejo tatear até compreender as formas exatas de um segredo suas depressões planícies e montanhas e teu olho Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea, Nervo Óptico vai sair de órbita vai pular para fora passarei lâmina no teu olho como personagem de Buñuel e Dali para que teu olho cortado e gelatinoso ceda espaço para minha mão inquiridora e preta-e-branca para um cão vou costurar teu olho depois para que ele remende vou deixar um talho no teu olho vou roubar de ti Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea, Nervo Óptico, Humor Vítreo o teu cheiro de maresia e teu marulho teu olho oco verá mas não registrará então esquecimento precederá esquecimento teu olho irá se comover mas não chorará vou arrancar teus dutos lacrimais vou te deixar ausente feito um deserto vou tirar de ti as intumescências vou tirar de ti as estruturas delgadas porque Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea, Nervo Óptico, Humor Vítreo eu pego nas mãos atiro contra o chão e estilhaço em incontáveis pedaços teu Humor tão fácil de destruir e de refazer em remendo mal feito colhendo os cacos grudando-os com merdas do olho do teu cu ou minha mão mais adepta a receber do que dar pretendia acarinhar teu olho que foi dedo indicador ou osso ou gente mas por fortuito te converteu em deserto Esclerótica, Coroide, Mácula Lútea, Nervo Óptico, Humor Vítreo, etcetc para que a solidão se insinue primeiro e depois o olho

Maria Luiza Chacon é natalense, tem 29 anos, é escritora, professora e doutoranda em literatura comparada pela UFRN. Publicou o zine Amasyrma (2017), além de contos em antologias como a Granja (2014), Revista Vida Secreta (2016) e Revista Intempestiva (2019). Possui um livro de narrativas que deverá ser publicado em breve.

*

O sertão sou eu

capim seco
corta pele
atinge carne
longe gado cai,
gado só fica em pé com água
vovó quase não conhece
terra molhada
sandália minha brilha,
pé de solas avermelhadas
desci do salto
passeio na estrada do tempo
corpo tem necessidade
de estar perto da alma
corpo quer morar em casa
corpo precisa adormecer
ouvindo sua voz
canto do galo celebra milharal
água chegando na caixa
paredes ficam frias
afundo surda em colcha de pano
cada retalho tecido pela desistência
de um bicho
afogo muda em cílio de pavão
pés repousam na rede
chaleira geme
capim santo
alma despida de cidade
dor se despede
deixa corpo aos poucos
chove

Regina Azevedo é natalense do ano 2000. Técnica em Multimídia pelo IFRN e graduanda em Letras – Português na UFRN, como poeta publicou três livros, o mais recente “Pirueta” (2017, selo doburro), e alguns fanzines. Mais em http://www.reginazvdo.tumblr.com

*

%d blogueiros gostam disto: