Coluna Romero Venâncio

Jesus foi um prisioneiro político… E continua morrendo hoje

O ator Jim Caviezel no filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson.

Por Romero Venâncio – 10/4/2020

Quem não é católico romano ou é ateu, a relação com o dia hoje é de mais um feriado. E nessa atitude, não há nenhum problema. Num estado de cultura laica, religião ou ateísmo é uma questão de convicção e sentido pra vida.

Para uma católico romano essa data carrega um simbolismo histórico dos mais profundos. Narra um evento que diz respeito à universal condição de sofrimento: a paixão e morte de Jesus de Nazaré. Julgado e acusado pelos seus, foi entre ao poder romano para momentos de terríveis flagelos como bem atestam historiadores do mundo romano antigo. Tortura ritualizada, humilhação, impotência absoluta e morte numa cruz. Se esses fatos foram exatamente assim e nessa ordem, nunca saberemos exatamente.

Tem-se relatos de testemunhas e a teologia dos evangelhos. Segundo a narrativa de Marcos evangelista, Jesus foi acusado de blasfemo e desordeiro (acusações graves à época)… E foi assassinado na mais profunda solidão. Para conferir a narrativa da carnificina, recomendo os capítulos 15 e 16 de Evangelho de Marcos. E quem quiser ver em imagens, recomendo a “Paixão de Cristo” de Mel Gibson em forma naturalista. Obviamente, todo cristão pode me dizer: mas a história não para ai… Há um segundo acontecimento tão profundo quanto o narrado e que indica a vitória sobre a morte e é a razão de nossa esperança. Sei disto. Mas fica para uma outra história…

Por ora, me interessa interrogar como Jesus continua morrendo, continua sendo humilhado, espoliado, massacrado e assassinado em dias atuais. Isto tem mais relevância e urgência para uma fé que não vive de delírios ou de encenações públicas inócuas. Um fato devidamente registrado me chama a atenção e serve de exemplo nesse circo de horrores que vivemos nesse Brasil atual.

Eu acuso esse (des)governo bolsonaro dos mais nefastos na história e que empodera o que tem de pior nesse país em termos de gente que adora humilhar pobre e desvalido e de incentivar toda essa hipocrisia religiosa das mais desavergonhadas que vemos todo dia. Vamos ao fato.
Começou a circular nas redes sociais nesta quinta-feira (9) um vídeo (a fonte é a revista Fórum, 09 de abril, 2020) onde um homem agride um morador de rua com tapas no rosto, em Sinop, no Mato Grosso. O agressor foi identificado Adonias Correia Santana, um madeireiro de Tabaporã (bolsonarista de primeira hora!!!), que acumula 22 processos.

Nas imagens, Santana pergunta para o morador de rua se ele estaria com fome e lhe oferece uma nota R$ 20. O morador responde que não consegue comprar comida e não recebe ajuda porque quase não há ninguém nas ruas. O motorista do carro sugere que o empresário de uma nota de R$ 50. Santana, então, oferece a nota ao morador de rua e pede para que ele se aproxime. Em seguida, o empresário desfere tapas no rosto e grita “vai trabalhar, vagabundo!”. A vítima parece ficar sem reação. “Quer mais um?”, pergunta o agressor…

Não acredito que isto seja um caso isolado e temos registros vários de mendigos queimados vivos, índios assassinados, mulheres estupradas, racismos, homofobia, transfobia… Será que precisamos procurar onde Jesus morre a cada dia nesse país? Precisamos esperar a sexta feira da paixão de cada ano para encenar esses horrores a partir do corpo de Cristo?

O corpo de Cristo cai abatido hoje. E quem tem olhos para ver, que veja.

***

Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

%d blogueiros gostam disto: