Colaboradores Glória Damasceno

A pandemia do corpo

Foto/arte: Arquivo Pessoal / Glória Damasceno.

Sou um corpo de mulher, o feminino é o onde em que habito, e aqui se inclui o extraordinário substantivo-casa — a Terra, que ora queima o arco-íris inteiro, ora descongela a água pedrada. É também desse corpo celeste que estou falando para além de minha biologia humana em que outros corpos — das mais diversas potências, cores e legados — vivem por temporadas que nem sempre a calculadora convencional do tempo é capaz de quantificar com justiça.

Sou um corpo de sobreviventes 29 anos de vida, tenho vários sinais de nascença espalhados ao longo da minha pele pouco queimada de sol, sinais estes, aliás, sinônimo de riqueza de acordo com a sabedoria de minha avó. Além disso, tenho também alguns órgãos funcionando relativamente bem, e dois pulmões super agitados, pois asmáticos, pois ainda mais ansiosos em tempos de Covid-19. Quero acreditar que eles estariam mais relaxados se não fosse a ameaça de uma invasão, que como toda invasão, não é consentida, não é bem-vinda, e se apresenta funesta para um organismo com o condicional que o meu, “tão novo!”, carrega. Quero acreditar que eles estariam mais calmos, se não tivessem que usar máscara para ir ao supermercado, se não tivessem que manter distância física das pessoas que apontam na mesma sessão de skin care ou caminham na mesma calçada, outrora tão larga. Agora tudo parece assustadoramente perto. Uma paranoia por centímetro.

Sou um corpo descrente que ainda quer acreditar que estaria menos apavorado ao voltar pra casa, sem pensar freneticamente se não está trazendo na bolsa além do que o dinheiro pode comprar, mas também o que nem mesmo ele pode pagar por. Escrevo isso não para espalhar o medo da perda nos corpos que pelo meu cultivam desejos, e sentimentos. Mas para desafogar a angústia dessas mãos que aprenderam a escrever quando eram pingos de gente, e que segundo meu avô, foram feitas exatamente para isso: ocupar com palavras as linhas de quaisquer folhas.

Sou um corpo que entendeu que o mundo depois da quarentena será outro, que tenta imaginá-lo melhor não só depois deste luto, mas enquanto o vivemos, cada um em sua casa, com ideias engavetadas ganhando vida, oxigenando as desesperanças; sem desperdícios de comida, lendo o que ainda dá pra ler, ignorando quem há muito tempo lhe come a paciência. Um corpo que reforçou a importância do voto pensado e não-barganhado, de uma sociedade construída a partir do coletivo, e para ele pois é ele, o NÓS, quem viverá com menos ou mais brutalidade as decisões de poucos disfarçadas de maioria, e via de regra advindas de famintos egoístas.

Sou um corpo saturado de “updates” que no decorrer desse texto chora por um parágrafo inteiro, e ri sonoramente antes mesmo do ponto continuativo quando uns memes sabidos saltam à memória. É verdade que nunca na história de centenas de cozinhas ao redor do mundo metemos tanto a mão na massa do bolo literalmente, e que meu peculiar abraço — o terror da roupa engomada! — anda fazendo falta como não se imaginava sentir, assim, tão cedo. Justo quando eu mais queria abraçar os corpos agora amarrotados é quando eu menos devo. Por NÓS todos.

Sou um corpo insone que se recusa a pensar em alguém como um número, sem nome, sem rosto, sem voz, porque até o número em si mesmo tem uma história sobre ele pra contar, um útero de onde veio e por lá foi esculpido. Sou um corpo tatuado pelo que certa vez a escritora americana Joan Didion sentenciou em seu livro, O ano do pensamento mágico: “Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends”. A vida, inteira ela, sempre foi assim, este corpo é que só veio dar conta hoje sobre os dias injustamente tomados por iguais.

Não sou um corpo imortal, e portanto como qualquer outro corpo parido da mesma matéria finita, com menos ou mais money no bolso, um corpo mais lúcido, e com tempo — não sei quanto — para acordar para o bagel com cream cheese e café com leite, mas também para o derradeiro punhado de areia da ampulheta dos tempos inimagináveis lá fora.

Sou um corpo de mulher, que como diriam as palavras andantes de Eduardo Galeano, é habitado, e sendo, “sabe quando e o quê”, mas nem sempre, Galeano, nem sempre em um planeta moribundo.

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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