Coluna Romero Venâncio

Cinema e a Ditadura de 1964. Notas

Frame do filme Que Bom Te Ver Viva, de Lúcia Murat.

Por Romero Venâncio – 9/4/2020

Partimos de uma tese aparentemente paradoxal defendida em 1969 por Roberto Schwarz:
“Entretanto, para surpresa de todos, a presença cultural da esquerda não foi liquidada naquela data, e mais, de lá para cá não parou de crescer. A sua produção é de qualidade notável nalguns campos, e é dominante. Apesar da ditadura da direita há relativa hegemonia cultural da esquerda no país.”

Reparemos o aparente paradoxo: a ditadura era de direita e militar, a cultura que grassava no pais era de esquerda… Isto foi fato. Temos um monte de trabalhos sobre esta produção cultural. Como explicar isto? a resposta vem da história e antes de 1960. Mais precisamente na década de 50.

A presença de uma cultura desenvolvimentista, crença na democracia, cinema novo, bossa nova, estudantes na universidade e nas ruas, as ligas camponesas e a organização dos camponeses do Nordeste… e por ai vai. Tudo isto vem dos anos 50 e entrou nos anos 60 e bem mais radicalizados. Ditadura alguma poderia destruir esse movimento cultural de uma penada ou com os canhões na rua. Não é assim que destrói uma cultura. Era preciso uma contra-hegemonia e os militares e seus apoiadores não tinham tal coisa.

Dentre as expressões culturais que se destacaram no campo das esquerdas nos anos 60, 70 e 80 até o fim da ditadura, o cinema brasileiro merece destaque. Não foi só o cinema, que fique explicado aqui. O teatro, a literatura, as artes plásticas, a música ou ainda um certo tipo de jornalismo alternativo foram de fundamental importância na formação de toda uma geração que viveu aqueles tempos nefastos da ditadura de 1964 até 1985. Destacamos aqui o cinema brasileiro por razões de tamanho do texto para a publicação. Mas esse momento em termos culturais foi muito rico nas inquietações estéticas mesmo vivendo dentro de uma ditadura.

DO CINEMA (Brasileiro)

Tudo que escrevo aqui é marcado pelo primoroso ensaio de Ismail Xavier (USP) intitulado: “Do golpe à abertura: a resposta do cinema de autor” presente no livro: “Cinema brasileiro moderno” (Paz e Terra, 2000). Com menos de um ano de golpe, o cinema brasileiro já tinha um filme que fazia uma reflexão profunda sobre as condições do golpe e o atordoamento dos intelectuais com o feito: “O Desafio” de Paulo Cesar Saraceni (1965). Esse filme reflete a derrota das esquerdas. Veio o golpe e essa esquerda não disparou um só tiro como reação aos golpistas. Fato.

O filme tem como protagonista um jornalista em crise com o golpe. Merece sabermos quem era o ator principal deste filme: Oduvaldo Viana Filho (que foi militante do PCB e do teatro de Arena). Na segunda metade dos anos 60, dois filmes se destacam na temática de reação ao golpe de 1964. Trata-se de “Terra em transe” (Glauber Rocha, 1967) e “A opinião pública” (Arnaldo Jabor, 1967). Um é de “ficção”, o outro é “documentário”. Ambos tratam do golpe, das classes médias, do populismo, de uma burguesa vacilante e tosca e da triste situação do povo nessa história. “Terra em transe” passou a ser, alegoricamente, a má consciência da esquerda daquela época. Era preciso fazer uma autocrítica e passar a história a limpo naquele contexto. Já “A opinião pública” massacra ironicamente aquela classe média idiota, tola, medíocre, egoísta e crente em bobagens religiosas. Essa gente, pelo seu perfil, naturalmente apoiaria um golpe.

Depois de 1968 e com o AI 5, tudo muda no cinema. Praticamente, o fim do cinema novo e seus desdobramentos. Um tempo de respiro de um tipo de filme chamado de “marginal”, a pornochanchada em sucesso nacional e filmes tolos e comerciais como sobrevivência do cinema nacional (o resumo aqui é rasteiro, saibam!). Mas isto não representou completamente o cinema político no Brasil (mesmo na ditadura). Tivemos filmes nos anos 70 que fazem registros importantes daquele momento e mesmo que não se defrontem diretamente com a ditadura. Não havia como.

Três filmes são marcantes nesse período. Pela qualidade em termos de linguagem cinematográfica e pela reflexão política que, ironicamente, faz… São eles: “Toda nudez será castigada” (1972); “O casamento” (1975) e “Tudo bem” (1978). Três filmes de Arnaldo Jabor (na época, um diretor bem à esquerda e herdeiro do cinema novo. Hoje, ele pulou pra direita e para o antipetismo delirante e desonesto). Esses filmes podem aparecer como uma “trilogia”. Os três tematizam os delírios e as paranoias de uma classe média sem rumo. Moralista e obscena; religiosa e hipócrita; medíocre e fanfarrona. Essa classe apoiou o golpe e a ditadura e teve muitas vezes seus filhos perseguidos pela mesma ditadura que apoiaram. No fundo, essa classe foi esteio para o golpe.

O filme usa muito o deboche e a ironia para não ser direto na crítica e fugir da censura imperante à época. Mas tem um mérito singular: o Brasil mudou com a ditadura. Era preciso compreender isto. Nos anos 80 e com maior liberdade de expressão, apesar de ainda ser ditadura, o cinema brasileiro foi extremamente produtivo. Destacaria quatro filmes como os mais significativos na tematização da ditadura: “Pra frente Brasil” (Roberto Farias, 1982); “Jango (Silvio Tendler, 1984); “Cabra marcado para morrer” (Eduardo Coutinho, 1984) e “Que bom te ver viva” (Lúcia Murat, 1989). A marca dos quatro filmes é a memória. Era momento de retomar a ditadura, a tortura, as mortes, a repressão, guerrilha e a resistência (armada, inclusive). Trata-se de um cinema que faz a aliança com os oprimidos. Uma característica de um cinema político dos anos 80.

Deixei muitos filmes de fora e por isto recomendo o ensaio de Ismail Xavier citado antes. Nesse ensaio, tem-se uma longa lista de filmes e de demarcação de cada um deles. O cinema brasileiro que refletiu sobre o golpe e a ditadura, não parou na década de 80. Continuou nas décadas seguintes até os dias atuais.

Precisamos cada vez mais do cinema brasileiro político nesses dias atuais em que uma extrema direita é governo. Essa extrema direita tirou como meta defender a ditadura, rever a história, condenar a luta das esquerdas e formar uma geração de jovens para a defesa e propagação dos feitos da ditadura e desconstruir a palavra “ditadura” e “golpe”. Essa extrema direita se diz democrata e que deu um golpe para garantir direitos democráticos (por mais louco que seja isto, é exatamente o que defendem).

Entendamos a importância do cinema em ser fonte e memória diante do que aconteceu no Brasil depois de 1964. Foi golpe. Foi ditadura. Houve tortura e ela foi seletiva contra militantes de esquerda.

BIBLIOGRAFIA

BERNARDET, Jean-Claude. e GALVÃO, Maria Claudia. Cinema. O nacional e o popular na cultura brasileira. São Paulo: Brasiliense/EMBRAFILME, 1983.

SCHWARZ, Roberto. Cultura e política. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

XAVIER, Ismail. Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e terra, 2000.

Romero Venâncio é professor no Departamento de Filosofia – UFS.

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