Coluna Romero Venâncio

Jean-Luc Godard ao vivo pelo Instagram. Ou de um elogio

Frame do filme Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard.

Ainda temos Godard e talvez nem percebamos o significado disto. Temos o coronavírus e sua promessa de tragédia. Temos, ainda, Godard e sua promessa de ventos libertários. Nesta terça-feira, 7 de abril, o lendário Jean-Luc Godard realizou uma transmissão ao vivo pelo Instagram a partir de sua casa na Suíça. A conversa com Lionel Baier, responsável pelo departamento de cinema da Universidade de Arte e Design de Lausanne focou-se em “as imagens nos tempos do coronavirus” e foi transmitida ao vivo por conta da faculdade.

O ELOGIO. Sempre sou interrogado por colegas de cinema ou de política, porque ainda gosto tanto da obra de Jean-Luc Godard. Nunca escondi de ninguém minha simpatia pela obra de Godard e em todas as suas fases: Cahiers du cinéma, Nouvelle Vague, maoismo, opacidade… e dias atuais… Primeiro, me fascina essa trajetória. Uma das mais produtivas e vividas radicalmente. Godard não teve medo de se queimar no fogo que tudo consome desta vida (errou grande; acertou grande.. por fim!). Num mundo e com intelectuais de vidinha medíocre, ele ainda é uma provocação. Um incômodo. isto é pouco. Quase nada.

A marca dele está no cinema. Godard é o cinema. Fez cinema para citar cinema; fez cinema para falar de política; fez cinema para falar de amores; fez cinema para falar da linguagem intraduzível; fez cinema para afirmar a condição humana; fez cinema para lutar contra a morte (sabendo ele que tá chegando a fim!). Todos nós que amamos cinema como arte e como transcendência devemos algo a Godard sem saber, inconscientemente.

Ele tirou o cinema de seu conformismo político e formal. A coisinha bem feita para nos alegrar com pipocas (ele explodiu isto!). Cinema é bem mais que isto, também. Cinema é uma arma. E Godard girou sua câmara em diversas direções e disparou muito: guerra do Vietnã, contra o colonialismo francês, em defesa de 68, contra as burguesias, e defesa das prostitutas, contra o bom mocismo; defendeu os oprimidos da terra… Mas Godard nos aproximou da literatura, pintura, poesia, música… Tudo através do cinema. Godard nos fez amar a liberdade no cinema. Os gestos simples, desinteressados, amores que nos consomem e se vão; o gosto pelo perigo, o amor fati por Viver a vida… Aquele sentimento de vermos uma vela que se gasta até o fim e depois afoga sua chama última em si mesma… Por tudo isto, amo tanto o cinema de Godard.

Estamos numa merda, por certo. Mas ainda temos Godard.

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Romero Venâncio é professor de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia, Ciências da Religião e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cinema (PPGECINE) da UFS.

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