Alagoas lide liquido

“Nós dependemos do público”: cancelamentos de shows impactam músicos alagoanos; confiram relatos

Com as paralisações por conta da pandemia da Covid-19 (“coronavírus”), segundo levantamento da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE), estima-se um impacto de R$ 90 bilhões na economia nacional. A ABRAPE, entidade que representa produtoras e promotoras no Brasil e tem 200 associados, contabiliza que cerca de 51,9% dos eventos programados para 2020 foram cancelados, adiados ou suspensos de maneira indeterminada.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o coordenador do mestrado profissional em gestão de economia criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), João Luiz de Figueiredo, estima que o prejuízo na área, que responde por 2,64% do PIB brasileiro, pode ultrapassar os R$ 100 bilhões. “Os mais prejudicados serão aqueles que trabalham diretamente com a cultura, em especial em atividades que dependem de aglomerações, como teatro e shows”, diz Figueiredo.

O setor cultural emprega cerca de 5 milhões de pessoas, entre formais e informais. A Secretaria da Economia Criativa do extinto Ministério da Cultura e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) estimam que a cultura equivale a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a 170 bilhões de reais.

Sem investimento específico do governo estadual, o setor de cultura e entretenimento em Alagoas já sente no bolso o impacto e somam perdas. As perdas em meio à situação econômica fragilizada se tornam um cenário desesperador para os artistas, que não têm previsão para retomar suas atividades.

Allan Bastos e a Tramella. Foto: Divulgação

O músico Allan Bastos conta que foi um dos afetados pelas dificuldades acarretadas pela pandemia. Com renda proveniente de shows, ele afirma que a situação foi inesperada para ele e para os colegas de trabalho. Aos 48 anos, sendo 32 deles inteiramente dedicados à música, o músico afirma que ocorreram inúmeros cancelamentos, entre festas, aniversários, casamentos, shows em bares. “Praticamente a agenda inteira foi cancelada. E sem uma previsão de volta. Isso está afetando bastante”, relatou.

Músico atuante em diversos bares e restaurantes da capital alagoana, Bastos pontua que o impacto em sua renda é total: “Eu vivo da música, sempre vivi diretamente da arte, da minha arte… então na hora em que isso é cortado afeta diretamente 100%. Não tenho uma outra renda ou uma reserva ou alguma coisa que a gente possa fazer. Então afeta direto e muito rápido”.

Como muitos músicos, ele ganha um montante que corresponde ao couvert artístico ou ao cachê e depende de cada dia de trabalho para sobreviver, não tendo lastro financeiro para suportar um longo período sem trabalho.

“Bom, a gente ficou um pouco atado. Como somos do entretenimento, não podemos aglomerar pessoas”, comenta. A alternativa encontrada pelo músico foi a de fazer shows em casa com couvert solidário.

“É uma alternativa de pelo menos ter um couvert no qual a gente possa se manter… manter a alimentação pelo menos em dia, porque se não vai começar a ficar bem apertado”.

Bastos reflete sobre a importância da classe artística estar unida, para poder encontrar alternativas. “É um momento da gente ter calma e achar alternativas juntamente com outras pessoas, com outros colegas de trabalho que estão passando pela mesma dificuldade”.

May Honorato e Rodrigo Avelino Fic Pop, Festival Independente de Cultura Popular.
Foto: Sousandré

O compositor e músico Rodrigo Avelino também conta que teve apresentações e shows cancelados. Um deles ocorreria na última sexta-feira (3), no Teatro de Arena, e todo a arrecadação da bilheteria seria usada para custear uma viagem a São Paulo, na qual o músico iria se apresentar no programa do Estúdio Showlivre.

“Está sendo muito complicado, porque nós dependemos do público. E, por conta de tudo isso, da questão do isolamento social, o público não pode comparecer aos shows”, avalia.

Avelino, que recentemente fez uma postagem em uma rede social comentando sobre a postura de estados como Ceará, Maranhã e Pará, que lançaram editais para apoiar os artistas e a cultura local de modo que os artistas pudessem produzir conteúdos, shows pela internet e tendo uma remuneração; afirma que espera uma posição do governo do estado em relação a isso.

“Ter um edital no qual o artista pudesse criar algum tipo de conteúdo e ter um tipo de remuneração seria bem interessante, porque a classe artística está parada”, cobra o músico.

Rodrigo Avelino. Foto: Divulgação

Sobre as alternativas encontradas por alguns artistas, como fazer lives de apresentações e mesmo de oficinas via redes sociais, o músico avalia como interessante. “É uma forma de ter o público próximo e, principalmente, de criar essa consciência de que as pessoas tem que ficar em casa”.

Para o guitarrista Thiago Trindade, a alternativa das lives é interessante, já que é mais uma possibilidade de contato com o público. Trindade pondera que essa alternativa tem um problema: “Tem muito músico parado fazendo a mesma coisa e isso leva as pessoas a escolher os músicos de mais nome, mais conhecidos, com bagagem maior”. O músico argumenta que não é uma alternativa que consiga suprir as dificuldades de todos. “A ideia é boa, mas existe esse outro lado da moeda também”.

O músico relata a Arribação que, nesse período de isolamento social, perdeu seis shows. Quatro deles com a banda Ratimbum, no Planeta Mágico, e dois shows com Allan Bastos, um deles no El Lugar, e o outro no Maré Pub. Sobre a postura do Governo Federal e Estadual, ele avalia que as alternativas deveriam ser mais rápidas e claras.

Thiago Trindade. Foto: Divulgação.

Segundo o músico, há certa confusão e falta de organização no que diz respeito atender a todos. Embora ressalte que a prioridade máxima é salvar vidas, ele enfatiza uma lentidão, por parte dos governos, para salvaguardar a classe artística.

“Pra quem depende de cachê, por exemplo, já passou muito tempo em casa e agora que surgiu uma ideia que vai demorar mais um tempo para começar a ser utilizada. Porque as contas chegam… as contas chegam. Os boletos não querem saber do coronavírus”, pontua o músico.

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