Alpendre poesia

Dois poemas de Marcelo Silva + Videopoemas

Hábraços

Quando me abraçam
abraçam parte do que carrego
as lembranças inventadas
o esquecimento em minha camisa velha

Abraçam profundezas
minha consciência de classe
o proletariado negro
o medo do câncer, meu sexo
todas as impurezas que respiro e escrevo

Tenho sonhos, muitas palavras
a isso também abraçam
o monstruoso oceano
e os livros
agora equilibrados na estante
entre o cupim e a poeira

Abraçam minha pobreza
e eu os abraço de volta
o rosto encostado na face que se oferece
os olhos fechados dentro da noite
e eu os levo comigo
como os filhos que não tenho

*

Aos vinte e dois dias da quarentena

que os dias passem como dias, seguros em sua imensidão solitária;
que os dias passem efêmeros como amargor do veneno, que passem
como a Portela – um rio em minha vida;
que invada as extremidades da minha boca
com as dores que me arrastam pela cidade, os ossos todos ruídos;
que os dias passem através das tuas pernas – descobertas,
peço sempre que nada me salve;
que os dias sejam duros como o assoalho da casa,
o sono forçado, as grades,
que eu me torne, enfim, liberto,
dono do mato, corpo sem mácula;
que eu tenha intestinos que funcionem perfeitamente, paciência,
vontade de tomar água e mantenha os olhos abertos
em um ponto futuro.
por enquanto, deito as mãos sobre os relógios.

***

Natural de Porto Alegre (RS), Marcelo Silva é poeta e professor de Literatura e Língua Portuguesa. Mantém o blog Desalinhado, publica poesia e alguns contos em diversos sites e revistas dedicadas ao gênero. Criou a oficina “A poesia é um atentado celeste” na qual estimula o fazer poético por meio de exercícios que envolvem canções, imagens e trabalho coletivo.
Em maio de 2019 lançou o livro O que carrego no ventre, editado pela Figura de Linguagem.

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