Alpendre poesia

Dois poemas de Laís Araruna de Aquino

QUANDO DEUS ERA CRIANÇA

quando Deus era criança, suas mãos passeavam
pelos campos de centeio desde a manhã até a noite
suas mãos eram pássaros e gorjeios inundavam o vento

os campos cresceram
as mãos de Deus sangraram de cansaço –
Ele sentia-se só, no coração despovoado da infância
e a sua voz era uma harpa plangente contra o vento

quando Deus era criança, sua ferida tinha o cheiro dos campos
o cheiro da solidão dos campos
e as suas lágrimas eram uma chuva escura sobre o vale

que coisa triste era Deus
que triste não ser visto e ouvido
que triste não ser compreendido
então, da matéria da sua solidão, Deus criou o homem
e deu-lhe liberdade para ver, ouvir e compreender
em uma paisagem austera, onde os astros brilham distantes

e o homem, feito da matéria de Deus,
é como um resquício triste de luz na sombra do vale,
é como um recinto que todos abandonaram
deixando uma vela acesa –

onde nomes pousam na tentativa de compreender
como se fora sol, mas é apenas chama provisória –
aonde os nomes descem do nome não revelado de Deus,
como houvesse um nome não revelado de Deus,
e partem como pássaros para o azul

e quando o sol deita na planície vasta
e o homem diz meu Deus
Deus sofre –
porque, não sendo compreendido,
não compreende a sua criação

*

TRAGA TUDO PARA CASA

segundo lustro dos anos 2000 pós-aula na faculdade
de direito do recife – cela e eu pegávamos o carro
íamos pela ponte onde augusto cismava
e dávamos na loja da cultura na beira do Capiberibe
onde escutávamos discos e folheávamos livros
cela comprou um dylan que o mês passado fez cinquenta anos
pagou setenta reais com a bolsa do estágio e talvez eu tenha
protestado mas flertávamos com a liberdade dos beats
e o pouco dinheiro que o kerouac tinha na estrada
o fato é que não havia streaming nem internet
nem pirataria que substituísse o disco
quase dois lustros depois quando escutamos
o nashville cela se diz descobridora do álbum
que de alguma forma mudou nossas vidas
tudo começou porque duda trouxe do canadá o no direction home
e guiga comprou mas não deu o modern times para rafa
e terminou que eu e cela também compramos o bringing it all back home
e escutamos e amamos todos ao som dessas canções
que de alguma forma mudaram nossas vidas
hoje é certo me pego vezenquando em busca de algum espectro
que substitua o espectro do passado mas o ritual mudou
rafa mora em são paulo e cela também
a cultura fechou as portas e quase ninguém mais compra e vende discos
e quando penso em tudo isso me vem um sabor acre na boca
tudo mudou
mas casei com guilherme e a quadrilha não acabou
que a canção seja sempre cantada
que o desejo permaneça em nossas bocas
forever young

***

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife. É autora do livro Juventude (Ed. Reformatório, 2018), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia de 2017.

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