Alpendre Lorena Portela Opinião

A desumanização

Foto: Donald Tong

Foto: Donald Tong

Por Lorena Portela – 26/3/2020

Vi esses dias um vídeo de um dos maiores nomes da comunicação do Brasil sobre a atual crise. Nuances políticas à parte, destaco aqui um detalhe.

Mas antes, o contexto. Já tivemos chances de ver/ouvir empresários e grandes comunicadores na TV/rádio/jornais/etc. Este, especialmente, costuma falar sobre “inovação”, “pensar fora da caixa”, “visão global”, “criatividade”, “superação”, “gestão de crises”, dentre outros. Ironicamente, o que ouvi no vídeo foi o oposto disso.

No momento em que o mundo inteiro fala sobre repensar tudo: o comportamento, a política, a economia, as prioridades, o consumo, os valores, a indústria, a vida em sociedade, o meio ambiente, um dos maiores e tidos como mais criativos empresários do brasil não surpreendeu ninguém em sua fala. Não trouxe nada de novo. Não inspirou ninguém.

O vídeo é um festival de ideias dentro de uma caixa, de um formato. Previsível. Chato. Contesta a crise visando o capital financeiro e descarta conceitos muito mais modernos. É limitado em sua inteligência, em sua visão global, em criatividade. É rico em presunção. E reforça uma cadeia delicada como a que possivelmente culminou no discurso do presidente brasileiro na terça-feira (24) a noite, que, ao invés de apaziguar ânimos, colocou mais gasolina na fogueira da crise.

Do lado de cá, profissionalmente falando, não deixa de ser frustrante perceber que muitos dos grandes empresários do Brasil pouco têm a oferecer no campo das mensagens ou das ideias durante uma crise. Que não percebem que o mundo andou. Que o poder de influenciar outros é hoje mais democrático e está nas mãos de muitos. Que a tal da inovação está cada vez menos ligada à habilidade de ganhar mais dinheiro (quando já se tem bastante) e mais ligada ao que fazer com as demandas que temos hoje, incluindo as socioambientais. Quer dizer, sobretudo as socioambientais.

É suficiente ser um líder admirado dentro do (seu) negócio e entediante fora dele? Está tudo bem ser visto como visionário sentado no conforto da sua poltrona, sem estar atento ao seu entorno? É ‘ok’ ser um criativo e não acompanhar a evolução das pautas?

P.S.: O título foi livremente roubado do livro do Valter Hugo Mãe. Espero que ele não se importe.

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Lorena Portela é jornalista e redatora. É cearense, como Belchior. Viveu em Lisboa, terra de Fernando Pessoa, por quatro anos e hoje mora em Londres, cidade de Virginia Woolf. 

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