Colaboradores Glória Damasceno

Primavera de flores selvagens, como a vida, toda ela, afinal

(Foto: Glória Damasceno/Arquivo Pessoal)

(Foto: Glória Damasceno/Arquivo Pessoal)

A maneira como interpretamos as palavras, os lugares que ocupam, os excessos do uso, as omissões, os eufemismos, a generosidade de nos permitir expressar o indizível sempre, sempre!, me fascinou os ouvidos — ora coléricos, ora apaixonados.

“Selvagem”, por exemplo. Das leituras possíveis, aquilo que é incontrolável, e sem controle porque não está sob as regras de quem o observa, porque foge à maneira de ser de quem o desvenda, porque anda sobre linhas distintas, porque não é polido, porque é inacabado, porque não tem modos, porque é agressivo. Tenho a sensação exata de que, em geral, não há (muito) espaço para a doçura na densa e traiçoeira floresta em que atiramos esse substantivo. Quer dizer, talvez não houvesse no meu horizonte até o último dia 28 de fevereiro de que se tem notícia, sexta-feira em que, aliás, Justin Roberts lançou pro mundo “Wild Life” — uma das cartas de amor mais bonitas que já escutei, dividida em 10 faixas, cada uma delas também divididas em outros infinitos fragmentos de alguém que nasce filho e um dia então se vê pai de um menino.

Roberts é cantor-compositor de música infantil nascido ao sabor do famigerado ventos de Chicago. Artista três vezes nomeado ao Grammy — um dos quatro principais prêmios do entretenimento americano, tais como o Academy Wards (filme), o Emmy Awards (TV), e o Tony Awards (teatro e Broadway), Justin é marido da talentosa violoncelista Anna Steinhoff com quem compartilha além do projeto/álbum “Wild Life”, o Eli — a sublime inspiração dessa carta de amor cantada, como toda poesia que toca as cordas vocais, e as notas do cello, do piano, do violão, da marimba, da bateria, da viola da gamba, do sax, da flauta, e por aí a se deixar encantar.

Meu encontro com Justin Roberts aconteceu de duas maneiras: a primeira, quando levada pelos ventos de 2018 buscava por cantores de “música para criança”, assim como previamente fiz com a literatura infantojuvenil. Lá estava o nome dele na categoria “Fans also like” do Spotify. Bingo! (Caros fãs predecessores, contem comigo pra tudo!)

Pouco tempo depois soube que além de cantor, Justin era autor de dois livros — “The Smallest Girl in the Smallest Grade” e “The Great Henry Hopendower”. Por essa razão, ele estaria na Booked, minha livraria favorita de toda Chicago area, para uma tarde de autógrafos, mas não só. Em se tratando de Mr. Roberts, contação de história e uma “palhinha”. Me programei para este momento e ao lado de todas as crianças e pais que cabiam na Booked vivemos o que alguém por aí chamou de “a arte da vida”, o encontro portanto. Era dezembro, Anna e Justin tinham acabado de se descobrirem grávidos do Eli e então Justin cantou “you grew” — essa hora selvagem em que seus braços têm a exata medida de uma vida inteira, uma vida em que às vezes espera-se por nove meses, mas outras tantas há muito, muito tempo; essa hora selvagem em que seus olhos são “tears like a lost waterfall” com a certeza de que não há nada que você ame mais, porque ele, o amor, é tudo que está aninhado ao seu peito surpreendentemente sem cabelos cacheados, sob seus olhos, que de tão grandes chegam a se confundir com as portas abertas do coração.

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“Selvagem” também são esses tempos de quarentena para quem as pode tomar, e beco-sem-saída para quem tem de ir à luta em ruas desertas, pois a pandemia do COVID-19 é real, é muito contagiosa, é fatal para os grupos de risco e desafiadora para os grupos que podem elevar o risco dos grupos já vulneráveis, e chegou com aviso prévio, exceto para a China, que apesar do supetão arregaçou as mangas.

Para além de toda não-estatística tristeza — até esta sexta-feira (20) os EUA têm 14, 366 casos confirmados e 217 mortes em decorrência do vírus; para além do ar que nos falta nos pulmões, afinal de contas as notícias pipocam tanto quanto as fake news, e personagens como a ansiedade mais do que nunca reinam, há a oportunidade valiosa de se ver consigo e estando consigo — literalmente — o momento de pensar sobre si, o que envolve muito mais do que o metro-quadrado de suas medidas bio-geográficas, consanguíneas, de afeto mútuo.

Pensar em si não como uma ilha absoluta. Pensar em si como parte de um todo imenso, plural, interligado, comum de várias formas. Pensar em si, no tempo das coisas, no tempo das pessoas, no seu próprio tempo e no outro como agente ativo do Planeta Terra. Pensar em si e no outro como antídoto de partidas, algumas precoces, outras negligenciadas. Pensar em si e no outro como os abraços de uma saudade sincera, de uma distância posta pela urgência da empatia, da solidariedade, do bem comum: a vida. Pensar em si e no outro, portanto, como o mineral que nutre a terra para que nela outros seres possam habitar. Pensar em si como o número 1 do número 2. Pensar no outro como o número 2 do número 3. Pensar no outro para que ele ou ela pense em alguém mais, e alguém mais tenha também álcool em gel para se proteger um pouco e proteger inclusive você, pensar no outro para que ele também tenha papel higiênico, pão, ovos, vitamínicos, legumes. Pensar em si e no outro como seres capazes de fazer a diferença, porque faz. São por inúmeras ações e inações que chegamos aos caos, e a ele sobrevivemos.

É a soma de cada um de nós ou a subtração de muitos de nós, dados os contextos, que torna a vida menos ou mais suportável. “It’s a wild life, whatcha gonna do with it?”, canta e pergunta de uma só vez Justin Roberts ao passo que também canto enquanto escrevo:

“Make a way, make a wild way through this wild life that’s given you to run and play, have a laugh, but a wild path through this wild life.”

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Glória Damasceno

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Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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