Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Audre Lorde // Tradução de Ricardo Escudeiro

Audre Lorde (1934-1992), “mulher negra, lésbica, feminista, mãe, poeta, guerreira”, como ela se apresentava. Nascida em Nova Iorque, filha de imigrantes afro-caribenhos. Engajada nos movimentos Feminista, Anti-Guerra e dos Direitos Civis, atuou contra o racismo, o sexismo, o classismo, a homofobia. Seu ativismo feminista foi importante ao confrontar o Movimento Feminista norte-americano, dominado por ensaístas e ativistas brancas e que focava-se nas experiências de mulheres brancas da classe média. Publicou nove volumes de poesia e cinco trabalhos em prosa, importantes contribuições e referências para o desenvolvimento das teorias feministas contemporâneas. Foi laureada Poeta do Estado de Nova Iorque em 1991.

Foto: Getty images


Bicentennial Poem # 21,000,000

I know
the boundaries of my nation lie
within myself
but when I see old movies
of the final liberation of Paris
with french tanks rumbling over land
that is their own again
and old french men weeping
hats over their hearts
singing a triumphant national anthem

My eyes fill up with muddy tears
that have no earth to fall upon.

Poema Bicentenário # 21,000,000

Eu sei
que as fronteiras da minha nação ficam
dentro de mim
mas quando vejo filmes antigos
da derradeira libertação de Paris
com tanques franceses retumbando em solo
que é deles de novo
e os idosos franceses aos prantos
chapéus cobrindo os corações
entoando um hino nacional triunfante

Meus olhos se enchem de gotas turvas
que não possuem terra onde cair.

§

A Small Slaughter

Day breaks without thanks or caution
past a night without satisfaction or pain.
My words are blind children I have armed
against the casual insolence of morning
without you
I am scarred and marketed
like a streetcorner in Harlem
a woman
whose face in the tiles
your feet have not yet regarded
I am the stream
past which you will never step
the woman you can not deal with
I am the mouth
of your scorn.

Uma Chacina Pequena

O dia rompe sem cautela ou graças
uma noite terminada sem pesar ou deleite.
Minhas palavras são crianças cegas que eu armei
contra a insolência casual da manhã
sem vocês
eu estou marcada e divulgada
como uma esquina no Harlem
uma mulher
cujo rosto no pavimento
seus pés ainda não repararam
eu sou o fluxo
passado que você nunca vai percorrer
a mulher com quem você não pode lidar
eu sou a foz
do seu desprezo.

*os dois poemas fazem parte do livro “The Black Unicorn”, de 1978.

***

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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